20080825

Yamas

O texto que segue é o seminário sobre Yamas que apresentado por Izaura M. Tokikawa, Michele Chow e Thiago Castillo Salin, na aula de Filosofia do final de agosto de 2008 do Curso de Formação de Professores de Iyengar do Yoga Dham, que foi gentilmente cedido por eles.


Os autores sugerem como experimento, praticar um Yama por dia da semana ou durante a semana e observar os resultados.




Ashtanga Yoga – As oito Partes do Yoga




Sutra 2.29: Oito partes da disciplina do Yoga



Yamaniyamasanapranayamapratyaharadharana-
dhyanasamadhayo’stavangani

Yama: restrições, controle, disciplina;
Niyama: regras fixas, autocontrole;
Asana: posturas físicas
Pranayama: controle da respiração;
Pratyahara: abstração dos sentidos;
Dharana: concentração;
Dhyana: meditação;
Samadhi: êxtase;
Asta: oito
Angani: partes.

A disciplina, o autocontrole, as posturas, o controle da respiração, o recolhimento dos sentidos, a concentração, a meditação e o êxtase são os oito membros (do Yoga).


Sutra 2.30: Os cinco Yamas
Ahimsasatyasteyabrahmacharyaparigraha yamah

Ahimsa: não-violência;
Satya: Verdade;
Asteya: não-roubar, honestidade;
Brahmacharya: castidade, abstinência sexual;
Aparigraha: não-cobiçar, não possesividade,
Yamah: restrição, disciplina.

A não violência, a verdade, não roubar, a castidade e não cobiçar são as disciplinas.


Sutra 2.35: Frutos de Ahimsa



Ahimsapratisthayam tatsamnidhau vairatyagah

Ahimsa: não-violência;
Pratisthayam: estar firmemente estabelecido;
tatsamnidhau:
Vaira: hostilidade
Tyagah: renúncia, abandono.

Estar firmemente estabelecido na não-violência, toda a hostilidade se acaba (renunciada) em sua presença (yogin).


Sutra 2.36: Frutos de Satya


Satyapratisthayam Kriyaphalasrayatvam

Satya: Verdade;
Pratisthayam: estar firmemente estabelecido;
Kriya: ação;
Phala: frutos, resultado;
Asrayatvam: embasado, bases.

Estar firmemente estabelecido na verdade, as ações resultam em frutos, inteiramente passam a depender disto (da sua vontade).


Sutra 2.37: Frutos de Asteya


Asteya pratisthayam sarvaratnopasthanam

Asteya: não-roubar, honestidade;
Pratisthayam: estar firmemente estabelecido;
Sarva: todo;
Ratna: jóias, tesouros;
Upasthanam: apresentam-se.

Estar firmemente estabelecido em não-roubar, todas as jóias surgem (à frente do yogi).


Sutra 2.38: Frutos de Brahmacharya


Brahmacharyapratisthayam viryalabhah

Brahmacharya: castidade, abstinência sexual;
Pratisthayam: estar firmemente estabelecido;
Virya: vitalidade, indomável coragem;
Labhah: ganha, adquirida.

Estar firmemente estabelecido no celibato, ganha-se grande vitalidade.


Sutra 2.39: Frutos de Aparigraha



Aparigrahasthairye janmakathantasambodhah

Aparigraha: não cobiçar, não possesividade,
Sthairye: tornando estável;
Janma: nascimento;
Kathanta: como e de onde;
Sambodhah: conhecimento.

Estar firmemente estabelecido no não-cobiçar, o conhecimento surgirá de onde verificaram seus nascimentos.


Yamas – Restrições, Controle, Disciplina

Yama significa controle ou domínio e é composto por cinco orientações. É o código da conduta ética e moral que orienta o nosso comportamento em relação a nós mesmos, ao ambiente interno e externo, e para com toda a forma de existência. Tem origem no interior do ser humano e são um reflexo da consciência. São pré-requisitos para o trabalho espiritual, sem os quais não é possível aquietar a mente e atingir a alma. Para vivenciar Yamas é requerida tremenda disciplina interior onde o “EU” é trabalhado durante toda a vida lembrando-nos sobre nossas responsabilidades como seres sociais. Yama é um dos pilares do Yoga sustentando todos os requisitos para um trabalho espiritual.

Iyengar diz que Patanjali mostrou através dos Yamas como superar nossas fraquezas psicológicas e emocionais, e que espiritualidade não é encenar o papel de sermos sagrados, mas a paixão e o anseio internos de auto-realização e a necessidade de encontrar o derradeiro propósito da existência. Yama também significa “Deus da Morte”, e se não entendermos e seguirmos os princípios de Yamas, agimos como assassinos da alma.

Os Yamas

1. Ahimsa – Não Violência, não agressão
2. Satya – Verdade
3. Asteya – Não roubar
4. Brahmacharya – Castidade ou celibato
5. Aparigraha – Não cobiçar


1. AHIMSA – Não-violência

Entende-se como não matar, não agredir, nem causar nenhum tipo de dor a nenhum outro ser vivo. Mais do que não machucar o outro, o princípio da não violência é também evitar o mal contra si mesmo. Como por exemplo: não comer, beber, ou trabalhar demais, além de não ser violento com gestos palavras e olhares. A violência, segundo Patanjali, também é praticada quando se tem pensamentos negativos ou ao desejar que algo ruim aconteça com o outro. Esse princípio passa também pela transformação das emoções; não é responder o ódio com ódio, mas aprender a lidar com os sentimentos.

Neste preceito desenvolve-se a compaixão por todas as criaturas. No Mahabharata, um grande épico da literatura indiana, é mencionado que: “Eis a súmula de todo o dever: não faça aos outros que, se fosse feito a você, lhe causaria dor”. Paramahansa Yogananda disse que: “deve-se enxergar a bondade até no inimigo... agindo assim, você se livra do maléfico desejo de vingança que destrói sua paz mental. Plantando rancor sobre rancor, ou ódio em troca do ódio recebido, não só você aumenta a hostilidade do inimigo a você, mas se envenena física e emocionalmente com sua própria peçonha”.

Grande exemplo de devoto de Ahimsa foi Mahatma Gandhi (1869-1948), que libertou a Índia do domínio Inglês utilizando a estratégia de não-violência. Outro exemplo nos dias de hoje é XIV Dalai Lama, que sofrendo violentas e fortes ameaças da China, tem se destacado em todo o mundo transformando o Budismo Tibetano uma Religião mais conhecida e ganhando novos adeptos em todo o mundo. No ashram de Patanjali a vaca e o tigre poderia viver, comer e beber juntos porque ahimsa é praticado pelo grande sábio.

A prática do perdão auxilia no desenvolvimento de ahimsa; a prática de ahimsa desenvolve amor, e cultivar amor se dissipa himsa (violência). Ahimsa é outro nome para “verdadeiro amor”, onde existir amor existirá ahimsa. Este é o supremo dever do ser humano.

B.K.S.Iyengar explica que: “na execução de um asana, você está alongando mais o lado direito que o esquerdo. Um estado não ético está se formando em seu corpo. No lado direito há violência, pois você está indo mais longe; no esquerdo, em que o alongamento da postura é menor, parece não haver violência. Do lado direito você está sendo violento porque está dizendo: “faça o máximo que puder, estique tudo que conseguir!”. É violência pois está exagerando no alongamento. O lado esquerdo, que você não está forçando tanto, talvez traga a idéia de que não está ocorrendo violência. Mas o praticante inteligente de Ioga, observa que está conscientemente violento de um lado e inconscientemente violento do outro, e ao mesmo tempo. Com o lado direito é mais capaz e se estende mais, você está fazendo bom uso das células deste lado, o que não acontece com o lado esquerdo. Embora possa parecer não-violento, isso também é uma agressão, uma vez que as células morrem quando não realizam suas funções adequadamente. Assim, um lado manifesta uma violência deliberada e o outro não. (...) É preciso integrar os lados direito e esquerdo do corpo, e esse equilíbrio é a verdadeira não-violência”.


2. SATYA – Verdade

Continuando a explicação de B.K.S. Iyengar observada em ahimsa, “Quando em um asana o lado direito e o esquerdo estão em harmonia, existe a verdade, que é o princípio de Satya. Você não precisa observar a verdade – você já está na verdade. Porque não está escapando ao deixar de realizar o ato do lado mais fraco”.
Satya é a verdade - em palavras, pensamentos e ações - consigo mesmo e com o outro. Para Patanjali, a falsidade gera perturbação mental, pois a todo o momento é preciso arranjar desculpas para justificar a própria mentira. Isso ocupa um espaço nobre dentro da memória, fazendo com que a mente perca tempo com inutilidades. Já quem é comprometido com a verdade ocupa seus pensamentos com coisas essenciais.

Satya é procurar sempre a verdade, independente de aonde essa busca possa nos levar. Entretanto, Vyasa escritor de Yogachasya esclarece: “A palavra pronunciada com o propósito de comunicar o próprio pensamento a outrem é verdadeira, desde que não engane ou confunda. A palavra deve pronunciar-se não para ferir, mas para beneficiar. Porque, se ferir, não produzirá harmonia, apenas sofrimento”. Praticando a verdade o praticante desenvolve a verdade em si mesmo e todos seus pensamentos e falas se tornam reais. A verdade é real. Somente a pessoa que consegue falar a verdade conhece o peso de cada palavra.

Swami Sivananda Saraswati diz: “A verdade é o acento de Deus. A verdade é Deus. A verdade sozinha triunfa. Verdade é a lei básica da natureza. Verdade é a lei da liberdade, é a falsa lei da escravidão e morte. Verdade é justiça inerente às leis éticas fundamentais. Pureza e verdade são fatores gêmeos que despertam a divindade dormente dentro de nós que nos conduz a perfeição. A verdade é o portão do reino da realização divina. Falar a verdade é a mais importante qualificação de um yogin. Ahimsa, Brahmacharya, Asteya, Aparigraha, pureza, justiça, harmonia, perdão e paz são formas da verdade”.


3. ASTEYA – Não-roubar

Não roubar, não retirar dos outros os seus pertences sem o seu consentimento, abstenção da avareza. Também significa não privar outros daquilo que devemos. Não cobiçar ou invejar bens ou conquistas de outrem, eliminar totalmente o impulso de apoderar-se de objetos ou idéias alheios, mesmo em pensamentos.

Não é roubo quando uma pequena parte da população mundial consome a vasta maioria dos recursos do planeta? Acaso não roubamos quando consumimos mais do que nos cabe?

Há modos ainda mais sutis de privar uma pessoa do que é legitimamente dela honra e reputação, por exemplo.

Asteya é não roubar, cultivo da integridade, obter e usar somente o necessário. A palavra integridade tem a mesma raiz de integral e integrativo. A partir do reconhecimento desta totalidade, plenitude, unidade, como nossa verdadeira natureza, todas as ações que executamos passam a se irradiar a partir desse conhecimento de que fazemos parte do Todo. Nesse estado de integridade tomamos do universo, do planeta, das outras pessoas, apenas aquilo que é necessário, aquilo que é suficiente, o que realmente precisamos.

Asteya significa desenvolver discernimento para utilizar somente as práticas, as ferramentas necessárias para alcançarmos nossos objetivos, tantos os relativos, e, principalmente o objetivo absoluto da liberdade.

No asana quando você está dando total atenção à realização equilibrada dos lados direito e esquerdo, não há apego ou avareza, pois quando a alma se move com inteligência no corpo, não há o que possuir nada a se buscar. A pessoa se liberta da cobiça, porque a motivação para tal desaparece. E quando a motivação se vai, o mesmo acontece com as posses, e assim o desejo de adquirir chega ao fim.


4. BRAHMACHARYA – Celibato, Castidade.

Brahmacharya é um conceito na filosofia do yoga que gera polêmica. Brahmacharya significa: celibato, estudo religioso, castidade e autocontrole, abstinência sexual, conservação da energia sexual.

Todos os tratados do yoga explicam que a perda do sêmen leva a morte, e sua retenção, á vida. Patãnjalin também enfatiza a importância da continência do corpo, da palavra e da mente. Ele explica que a preservação do sêmen produz valos e vigor, força e poder, coragem e bravura, energia e o elixir da vida: por isso, o preceito de preservá-lo por meio de um esforço deliberado da vontade.

Outros defendem que o que é proibido no Brahmacharya não são as práticas sexuais, são os vínculos particularmente dos atos reprodutores, que por suas conseqüências o ligam a sociedade que implicam riscos de concepção. Deve ser, de qualquer modo econômico com seu sêmen, consagrando-se ao estudo.

Não obstante, a filosofia do yoga não se destina apenas aos celibatários. Praticamente todos os antigos iogues e sábios eram casados e tinham família.

Brahmacharya significa simplesmente que se você deseja ser uma pessoa espiritual então deve tornar-se sempre um celibatário. No entanto, visto que seria bom que o mundo inteiro quisesse se tornar espiritual logo teríamos um planeta povoado somente de cães, gatos e vacas. Se havia alguma intenção em Deus, não creio que essa fosse uma delas. Para Iyengar controle sexual é outra coisa. Ele teve uma esposa e família e seu Brahmacharya se expressava na fidelidade a ela. Depois que ela faleceu , o seu desejo desvaneceu, e ele se tornou celibato.

O amor sexual pode ser o aprendizado para o amor universal. Iyengar diz que o amor é um investimento, e a luxúria um desperdício. A luxúria leva ao isolamento e a solidão, a deserto espiritual. Brahmacharya implica auto conhecimento, a capacidade de se controlar, seja por respeito aos outros, seja para experimentar a totalidade no asana. Não é se abster da atividade sexual. É o controle ético de uma força natural poderosa. O grau do controle dependerá do grau de evolução do praticante. Castidade e fidelidade são conceitos fundamentais.

No asana quando ocorre o alongamento total, há um profundo entendimento e uma intensa comunicação entre as cinco camadas do corpo, do físico até o espiritual, do espiritual até o físico. Assim, há controle das sensações físicas, das flutuações mentais, contemplação intelectual, e isso é Brahmacharya, significa que a alma se mova com seu ato. Quando existe união da alma com o movimento, isso é Brahmacharya.


5. APARIGRAHA – Não-cobiçar

Aparigraha significa desistir de cobiçar, considerando que a cobiça e o acúmulo causam problemas, que as coisas estão sujeitas à decadência e que a associação com elas causa desconfiança e rancor. Aparigraha é uma das virtudes mais importantes. O praticante mantém somente aqueles objetos que são essenciais para sua vida. Isso mantém a mente despreocupada e também ele não tem do que se preocupar porque não tem nada para ser protegido. Muitos exemplos são encontrados em solo indiano, sábios que caminham pela vida apenas com um pedaço de pano cobrindo seus corpos, uma cumbuca, um jarro de água e um Japa Mala (colar de contas) pendurado no pescoço. E em muitas vezes nada disso eles carregam. Nunca estão em um único só lugar. Suas mentes estão sempre livres e relaxadas e eles estão sempre prontos para exercer seus deveres. Eles são chamados de Sadhus (homens santos), muitas vezes de mendigos, mas suas riquezas interiores são infinitas.

Segundo Iyengar este Yama está associado com o terceiro, sendo não cobiçar, viver uma vida sem excessos. O caminho da cobiça leva à servidão da sensualidade e ao desejo de expandir o ego por meio de posses. Riqueza é energia, e a energia foi feita para circular. A não possessividade traduz-se em generosidade e desapego em relação não apenas aos bens materiais, mas também às relações afetivas. O apego nos tira da sintonia necessária para praticar.

O não cobiçar é definido como o hábito de não aceitar presentes, pois eles tendem a gerar o apego e o medo da perda. Assim, os yogins são encorajados a cultivar a simplicidade voluntária. O excesso de bens materiais só serve para distrair a mente. A renúncia é um aspecto essencial do estilo de vida Yogue.

O mais importante em aparigraha não é abrir mão das coisas que já realizou ou pretende realizar, conquistou ou pretende conquistar, aparigraha mesmo que império seja criado a sua volta, sua mente não esteja identificada com ele.


Namastē


Bibliografias consultadas

IYENGAR, B.K.S. A Luz da Ioga. E.d. concisa de Light on Yoga. Curix: São Paulo, 1980.
IYENGAR, B.K.S. Light on the Yoga Sutras of Patanjali. Thorsons: .Hammersmith, 1993.
IYENGAR, B.K.S. A árvore do Yoga: A eterna sabedoria do Yoga aplicada à vida diária Globo: São Paulo, 2001.
IYENGAR, B.K.S. Luz na vida: A jornada da ioga para a totalidade, a paz interior e a liberdade. B.K.S. Iyengar em co-autoria com John J. Evans e Douglas Abrams. Summus: São Paulo, 2007.
IYENGAR, B.K.S. Yoga: The path to holistic health. Dorling Kindersley: Great Britain, 2001
FEUERSTEIN, Georg. A tradição do Yoga: História, Literatura, Filosofia e Prática. Ed. Pensamento: São Paulo, 1998.
SATYANANDA, Sawami. Four chapters on freedom. Commentary on the Yoga Sutras of Patanjali. 6.ed. Yoga Publications Trust: Bihar, 2005.
SIVANANDA, Sri Swami. Bliss Divine: A book of Spiritual essays on the lofty purpose of human life and means to its achievement. 7a ed. Divine Life Society: Uttaranchal, 2001.

Yamas e Niyamas

Este artigo de Pedro Kupfer foi publicado na edição 19 de agosto de 2008 da revista Prana Yoga Journal brasileira.



Yamas e Niyamas 'crus'

Os 5 Yamas (controle, proscrições):

Ahimsa (a=não + himsa=violência)
Satya (verdade)
Asteya (a=não + steya= roubar)
Bramacharya (conduta bramínica=conter a sexualidade)
Aparigraha (a=não + parigraha=acumular)


Os 5 Niyamas (abstenção, prescrições)
Saucha (pureza)
Santocha (contentamento)
Tapas (tap=queimar, consumir pelo calor)
Svadhyaya (sva=eu + adhyaya=educação, estudo)
Ishvara pranidhana (ish= Senhor, rei + vara=escolher + pranidhana=dedicação, devoção)


Repare:
Yamas se dirigem para fora,
ordenam o tecido social, o exterior,
são atitudes para com os outros
e em sua maioria, restringem:
nunca faça.

Niyamas se dirigem para dentro,
arranjam o espaço interior,
disciplinam a vida emocional,
são atitudes para consigo mesmo,
e estimulam:
faça agora, se jogue.

20080822

Niyamas

O texto que segue é o seminário sobre Niyamas que apresentamos, Vanda Cury e eu, na aula de Filosofia do final de agosto de 2008 do Curso de Formação de Professores de Iyengar do Yoga Dham.

Introdução

Que papel tem niyama na realização de um asana?O primeiro princípio de niyama é saucha, que significa higiene. Suponhamos que, numa postura, você se dobra bastante para o lado direito do corpo. Isso quer dizer que você irrigou e limpou esse lado. Mas se você não se curvou do lado esquerdo em harmonia com o direito, como pode haver saucha? Quando os dois lados se curvam em sintonia, são limpos adequadamente e irrigados pelo sangue, que transporta a energia biológica conhecida como prana.
Você sabe como a eletricidade é produzida: a água escorre como uma cascata sobre turbinas, as quais giram devido à ação da corrente, gerando corrente elétrica. Da mesma forma, quando estamos fazendo os asanas, levamos o sangue a cada uma de nossas células, tal como a água que escorre sobre as turbinas, para liberar a energia oculta de nosso corpo e trazer uma nova luz até as células. Quando vem essa luz, vivenciamos santosha, o contentamento, que é o segundo princípio de niyama.
Além dele, existe um estado mais elevado de contentamento e um nível mais elevado de execução de asanas, expresso nos três níveis de nyiama: tapas, svadhyaya e Isvara-pranidhana.
O que é tapas? Geralmente, tapas é traduzido como austeridade, mas seu significado é bem mais expresso como desejo ardente. É um desejo ardente de purificar cada célula de nosso corpo e cada célula de nossos sentidos, para que estes e o corpo possam se tornar permanentemente puros e sadios, sem deixar qualquer espaço para que impurezas entrem em nosso sistema. É nesse espírito que um asana deve ser realizado. É karma-ioga, o ioga da ação, porque o desejo ardente de manter todas as nossas partes limpas exige-nos uma ação neste sentido.
E svadhyaya? Sva significa eu, adhyaya quer dizer estudo. Como disse, somos constituídos de três níveis e de cinco camadas, que vão do corpo denso ao causal, e da camada anatômica à camada espiritual de estado de graça.Conhecer o funcionamento desses três níveis e das cinco camadas do ser humano é sva-adhyaya, o estudo do ser, da pele até o seu cerne. Isto é conhecido como jnana-ioga, ioga do discernimento espiritual.
Finalmente, Isvara-pranidhana é bhakti-ioga, o ioga da devoção. Quando, por meio da prática, você alcança um estado mais elevado de inteligência, e essa inteligência madura faz com que você perca a identidade de seu ser, você se torna uno com Deus porque se entregou inteiramente a Ele. Isso é Isvara-pranidhana, a entrega de seus atos e de sua vontade a Deus. É o último dos cinco princípios de niyama.
Em suma, o efeito dos asanas é manter a pele, as células, os nervos, as artérias e as veias, os sistemas respiratórios e circulatório, digestivo e excretor, a mente, a inteligência e a consciência, todos limpos e nítidos. Isso engloba todos os aspectos de yama e niyama, que são as raízes e o tronco da árvore do ioga.’ (Iyengar, A Árvore do Yoga)


Niyamas

Niyamas são chamados de prescrições. Prescrever é indicar.
A palavra niyama quer dizer ‘abster-se’, deixar de fazer algo, visando um bem maior.


2.32
shaucha santosha tapah svadhyaya ishvarapranidhana niyamah
shaucha = pureza de corpo e mente
santosha = contentamento
tapah = ardor, formação dos sentidos, austeridade, ascese
svadhyaya = auto-estudo, a reflexão sobre as palavras
sagradasishvara = criativa fonte, campo causal, consciência universal, Deus, guru ou professor supremo
pranidhana = praticando a presença, dedicação, devoção, a rendição, a entrega dos frutos da prática
niyamah = preceitos ou práticas de auto-formação

Limpeza e pureza do corpo e da mente (shaucha), atitude de contentamento (santosha), ascese ou ardor (tapas), auto-estudo e reflexão sobre as sagradas palavras (svadhyaya), e uma atitude de mergulhar no campo causal ou se impregnar do Divino (ishvarapranidhana) são os preceitos ou práticas de auto-formação (niyamas), e é o segundo degrau da escada do Yoga.

Os niyamas são preceitos ou práticas de auto-educação que nos ensinam a lidar com nosso mundo pessoal interior, civilizando os cinco sentidos e os cinco órgãos da percepção.

Iyengar associa os niyamas com o tronco de uma árvore, da árvore do Yoga:
‘O tronco é comparável aos princípios do niyama, que são: saucha (higiene), santosha (contentamento), tapas (ardor), svadhyaya (auto-exame) e Isvara-pranidhana (auto-redição). Esses cinco princípios de niyama controlam os órgãos da percepção: os olhos, os ouvidos, o nariz, a língua e a pele.’ (Iyengar, A Árvore do Yoga)

São precedido pelos yamas, que são comparados por Iyengar às raízes da árvore do Yoga e ambos (yamas e niyamas), sustentam os galhos (asanas), as folhas (pranayama). A casca da árvore é comparada a pratyahara, a seiva a dharana. Dhyana é a flor da árvore, e o samadhi é o fruto.

‘Patanjali divide os cinco aspectos de niyama em dois grupos. De um lado saucha e santosa, a saúde física e a felicidade da mente. Do outro lado, tapas, svadhyaya e Isvarapranidhana, o ardente desejo de desenvolvimento espiritual, auto-exame e entrega a Deus. A primeira parte de niyama, saucha e santosa, permite à pessoa desfrutar os prazeres do mundo, livre de doenças. A segunda, tapas, svadhyaya e Isvarapranidhana, é chamada de “yoga auspicioso” e com ele se alcança o estado mais elevado, torna-se livre, completamente dissociado dos veículos do corpo, transformando-se eu em um só com a alma. Patanjali chama esses dois estágios de “bhoga” e “apavarga”, respectivamente. “Bhoga” significa desfrutar prazeres sem doenças; “apavarga”, liberdade e beatitude.’ (Iyengar, A Árvore do Yoga)


2.33
vitarka badhane pratipaksha bhavanam

vitarka = pensamentos perturbados, apartados, que tem uma direção diversa a partir das orientações de yamas e niyamas
badhane = perturbado pelo, inibido por
pratipaksha = ao contrário, pensamentos ou princípios opostos
bhavanam = cultivar, habituar, relacionado ao pensamento, ao contemplar, refletir sobre

Quando estes preceitos de auto-regulação ou de retenção (yamas) e práticas de auto-formação (niyamas) estão impedidos de ser praticados devido aos pensamentos que desviam da direção desejada (que os yamas e niyamas preconizam), negativos ou que causam incômodo ou perturbação, o pensamento contrário deve ser cultivado.

Yamas coordenam as ações externas, niyamas coordenam as percepções dos processos internos relacionados com o corpo, sentidos e a mente. Para isto é necessário cultivar um estado de atenção ou de observação na ação que permita à pessoa observar o que ela mesma faz, fala ou pensa; e a pessoa deve perceber que a atitude, o discurso e o pensamento são três práticas distintas, e testemunhar todas elas. É interessante ser capaz de auto-regular essas práticas para que permaneçam alinhadas com os objetivos propostos pelos niyamas. Do contrário, a pessoa não consegue seguir praticando os niyamas.


2.34
vitarkah himsadayah krita karita anumoditah lobha krodha moha purvakah mridu madhya adhimatrah dukha ajnana ananta phala iti pratipaksha bhavanam
vitarkah = pensamentos perturbados, apartados, que tem uma direção diversa a partir das orientações de yamas e niyamas
himsadayah = nocivos, prejudiciais e afins (himsa = prejudiciais; adayah = et cetera, e assim por diante)
krita = cometidos (pelo próprio)
karita = estimulado a ser feito (por outros)
anumoditah = com consentimento, com a provação (quando feito por outros)
lobha = ganância, desejo
krodha = raiva
moha = ilusão
purvakah = precedida por
mridu = leve, ligeiro
madia = meia adhimatrah = intensa, extrema
dukha = miséria, dor, sofrimento, angústia
ajnana = ignorância (a = sem; jnana = conhecimento)
ananta = infinito, inesgotável (uma = un; anta = terminando)
phala = frutos, resultados, efeitos iti = assim
pratipaksha = ao contrário, pensamentos ou princípios opostos
bhavanam = cultivar, habituar, relacionado ao pensamento, ao contemplar, refletir sobre

Acões resultantes de tais pensamentos negativos podem ser realizadas diretamente pelo agente, ou ser executadas através da sugestão para ação de outros, ou pela aprovação do (suposto) efeito (punitivo decorrente) da ação nos outros. Todas estas poderão ser precedidas por, ou realizadas através da raiva, da ganância ou da ilusão; e podem ser de intensidade leve, moderada ou intensa. Os princípios opostos a estes pensamentos e ações negativas nos ajudam a compreender que estes (os pensamentos e ações negativos ou desalinhados com niyamas) são as causas da miséria sem fim e da ignorância (como foi mencionado no sutra anterior).

Contra a direção e sentido propostos por niyamas, existem 27 ‘tipos’ de atitudes, discurso ou pensamentos negativos, resultado da combinação das três ‘dimensões’ (qualidades) das ações, da fala ou da mente negativas.
As três dimensões são:

* As três formas de agir que corrompem:
· a ação que a própria pessoa faz;
· a ação que a pessoa induz o outro a fazer, recrutando o outro;
· aprovar a ação de um terceiro ou a conseqüência da ação que resulta em desconforto, perda ou punição para outra pessoa, em geral, um desafeto.

Qualquer uma das formas de agir em negatividade, mesmo aquelas que envolvem a ação feita pela cooptação do outro ou pela aprovação da ação que prejudica o outro possuem o mesmo efeito interno de reforçar os samskaras.

* Os três estados mentais;
· raiva, que produz aversão, desejo de (se) afastar;
· ganância, que causa atração, vontade de puxar;
· ilusão.

Raiva e ganância podem ser vistas como forças. E toda força provoca uma reação de mesma intensidade e direção, porem de sentido oposto (conceito de Karma sob a ótica da física newtoniana).

* As três intensidades:
· leve;
· moderada;
· intensa.

Ex: A pessoa conta uma mentirinha de papelzinho para obter uma vantagem; se justificar.
A pessoa pedir para alguém justificar sua ausência numa situação onde ela está se sentindo moderadamente incomodada; pedir para que o outro minta.
Sorrir de satisfação quando alguém por quem você sente antipatia recebe uma punição social; dizer ou sentir ‘bem feito’ sarcástico.

Prestar atenção à essas 27 possibilidades negativas de pensar, falar e agir é útil para configurar uma mente pura. É o primeiro passo. Na seqüência, devemos aprender a buscar o pensamento, a fala, a ação que é o oposto de uma dessas 27 negatividades para aprendermos o processo de neutralizar ou desprogramar os hábitos que divergem do foco de niyamas.

Devemos prestar atenção na sutileza, na distinção do que é o pensamento, a fala ou a ação oposta às 27 negatividades.

O contrário de ódio não é amor.
O oposto do ódio é não-ódio, deixar ir,
libertando desse ódio.
Então, o amor surge naturalmente.


As ações (atitudes, discurso e pensamentos) leves e medianas podem ser neutralizadas pela meditação, porém não devem ser ignoradas apenas porque parecem menores em relação às intensas. As ações (atitudes, discurso e pensamentos) intensas necessitam de maior determinação e dedicação envolvendo cultivar sentimentos de simpatia para com aqueles que estão felizes, compaixão por aqueles que estão sofrendo, boa vontade para com aqueles que estão virtuosos, ou de neutralidade e de indiferença para com aqueles que parecem estar praticando o mal; meditar observando a consciência da respiração, a sensação de luminosidade interior, de contemplação em uma mente estável, e observando o fluxo da mente; e por fim, focalizando a mente em um único ponto.

É importante que essa prática permanente de auto-observação seja feita com amor para consigo mesmo, com auto-aceitação, com leveza.Exercício do cinema:
O filme projetado no cinema reproduz um fluxo mental que conta uma estória.
Observar se o expectador ‘entra no filme’, ou não.
Se entrar, o expectador deve aprender a ‘ficar na cadeira’, a observar o filme.
Transferir o processo para as situações cotidianas (fluxos de pensamento, interação com as pessoas, etc.)



1.Saucha
(Pureza)
2.40
sauchat sva-anga jugupsa paraih asamsargah

sauchat = pela limpeza, purificação (de corpo e mente)
sva-anga = o próprio corpo (sva = em um, todo; ANGA = membros, corpo)
jugupsa = relutantes, afastado, longe de tirar
paraih = e com o de outros
asamsargah = cessação de contacto, não-associação

Através de limpeza e pureza do corpo e da mente (shaucha), a mente desenvolve uma atitude de distanciamento, ou deixa de se identificar com o próprio corpo.
Saucha traz desinteresse para com o palpável: através de limpeza e pureza do corpo e da mente, a mente naturalmente começa e se dirigir em direção ao divino, e para longe do exterior, do mundo físico.
Gulmini, citando Taimni ressalta o desapego para com o corpo como meio de adquirir o senso e a percepção real da matéria, pois ao final da jornada, o corpo/instrumento de percepção é desnecessário.

Iyengar ressalta que, embora o corpo se deteriore com a doença eventual ou o passar do tempo, devemos ser gratos ao corpo como instrumento de percepção na senda do conhecimento espiritual, mantendo-o limpo e puro apesar da deterioração, o que é uma forma compassiva de desapego, que não viola ahimsa.

Iyengar aponta que saucha é praticado no asana quando todas as partes do corpo recebem atenção, alongamento e irrigação semelhantes; quando ‘em sintonia, são limpos adequadamente e irrigados pelo sangue, que transporta a energia biológica conhecida como prana.’

‘Para saúde e felicidade, segundo Patanjali, a dieta não é muito importante. Mas para o desenvolvimento da saúde espiritual, torna-se necessário o cuidado com a dieta, para que as flutuações da mente possam ser aquietadas. Colhe-se o que se planta. A mente é produto dos alimentos: por isso, a comida que você ingere surte efeitos na mente. Assim, há restrições alimentares se você está em prática espiritual, mas, para a saúde e felicidade, não. Não é uma questão de Oriente ou Ocidente; é uma questão do nível espiritual que se deseja alcançar.’

Cabe ressaltar que, embora a dieta seja muito importante para quem busca o caminho espiritual, ela é também necessária para quem tem interesse em praticar Yoga para a saúde e felicidade. Parte das opções alimentares existentes atualmente conduzem a uma alimentação biocídica (bio=vida+cídico=que mata), que contém apenas calorias vazias e carece de nutracêuticos.

Uma possibilidade de manter uma alimentação pouco intoxicante é incluir alimentos desintoxicantes na dieta. Estes alimentos (sucos verdes, frutas, grãos germinados) ajudam a eliminar as toxinas de origem corporal, emocional e mental acumuladas às vezes por anos no corpo, beneficiando a prática de asanas, de niyamas e da meditação e favorecendo a desprogramação dos hábitos nocivos.

Receber massagem também ajuda a desintoxicar e a desprogramar a memória de hábitos do ser (corpo-emoção-mente), traz centramento e estabilidade emocional, noção limites e de como supera-los.



‘(...) Lembrem que niyama começa com saucha e santosha.
Saucha é higiene e santosha, contentamento. Juntos criam bhoga, que também pode ser descrito como a saúde do corpo e a harmonia da mente. Mas Patanjali não para em saucha e santosha. Ele fala de tapas, svadhyaya e Isvarapranidhana, que levam a alma a libertar-se de seu contato com o corpo.

O ayurveda começa com o corpo, e o ioga, com a consciência. Mas, partindo cada qual de um ponto diferente, ambas agem para manter o corpo sadio: são moksha-sastras, ou ciências de libertação.’ (Destaque nosso)

A prática da pureza cria integridade, cura a dissociação interna; cria a consciência periférica.
Consciência periférica = capacidade de percepção de cada pensamento, cada reação, cada sentimento, sem nos envolver apenas observando.

A meditação também é muito eficaz para a pratica da pureza mental, ela ajuda a romper com a rigidez do pensamento, ensina a repousar no centro do nosso ser, desfaz com os hábitos do pensamento vicioso, além de proporcionar um vislumbre de união entre o corpo físico e o espiritual.


2.41
sattva shuddhi saumanasya ekagra indriya-atma jaya darshana yogyatvani cha
sattva = sutil essência da pureza interna
shuddhi = purificação de
saumanasya = espírito elevado, alegria, clareza, agradabilidade, bondade
ekagra = todo-em-um(EKA = um; Agra = atenção e intenção direcionados para um ponto) indriya-jaya = controle dos sentidos (indriya = ativa e cognitivas sentidos; Jaya = controle, regulação, maestria)
atma = do Self, consciência internalizada e centralizada
darshana = realização, observação na ação
yogyatvani = ser apto para, ser qualificado para
cha = e

Através da limpeza e pureza do corpo e da mente (shaucha) vem uma purificação mental sutil, e através desta (purificação sutil) vem a essência (sattva), uma agradabilidade, bondade e sentimento de alegria, uma atenção e intenção, a conquista ou o domínio sobre os sentidos, e uma aptidão, a qualificação, ou capacidade de auto-realização.

Os resultados da prática da pureza são experimentados inteiramente quando a pessoa sente-se ligada com o seu eu espiritual, além de desenvolver a consciência periférica que é a capacidade de perceber e sentir as sutilezas que emanam do corpo físico. Essa experiência intuitiva pode ser alcançada por qualquer pessoa que mantém uma prática regular.


Santosha
(Contentamento)
2.42
santosha anuttamah sukha labhah
santosha = contentamento
anuttamah = extremo, supremo
sukha = prazer, felicidade, conforto, alegria, satisfação
labhah = é adquirido, atingido, ganho

De uma atitude de contentamento (santosha), suprema felicidade, conforto mental, alegria e satisfação é obtida. Santosha traz felicidade e alegria.

Contentamento é isto: ondas de pensamento menos turbulentas no lago da consciência. É a capacidade de ficar no momento presente, de valorar o que se tem, sem apego.
É a capacidade de se manter em estado de paz consigo mesmo e com o mundo, adaptando-se às circunstâncias, sejam elas favoráveis ou adversas. Não é resignar-se à uma situação inadequada.
Desejo é oposto ao Contentamento.

O desejo é uma tensão em direção a um fim, considerado pela pessoa que deseja, como uma fonte de satisfação. É o que nos rouba a atenção para o que já passou ou para o futuro, mas nunca para o momento presente onde reside o contentamento.

O rompimento desse hábito se faz impondo lentamente o silêncio à falação interna, mantendo-se numa região onde não há pensamentos, entre o passado e o futuro, nenhum movimento, basta esperar e observar o silêncio e a expressão do corpo espiritual.

Contentamento traz a paz perfeita nesta vida.


Escolhemos um vídeo para ilustrar tapas, svadhyaya e Isvarapranidhana.

video
A arte da Ópera tem muito em comum com a arte do Yoga:
ambos lidam com os elementos/fatores que fazem/definem um ser humano;
ambos exploram a natureza anima e animal, natureza espiritual/consciente do ser humano;
exigem prática constante e estudo intenso;
a respiração tem um papel muito importate em ambos;
podem ser aprendidos intuitivamente ( estudando um livro, um vídeo, ouvindo), porém para o aperfeiçoamento exigem a relação professor-aluno.

Tapas
(Tolerância)
2.43
kaya indriya siddhih ashuddhi kshayat tapasah
kaya = do corpo físico
indriya = sentidos ativos e cognitivos
siddhih = atingir, maestria, perfeição
ashuddhi = das impurezas
kshayat = remoção, destruição, eliminação
tapasah = treinamento os sentidos, austeridades, ascese

Através de ascese ou da educação dos sentidos (tapas), vem a destruição das impurezas mentais, e uma conseqüente maestria ou perfeição ao longo do corpo mental e os órgãos dos sentidos e das ações (indriyas).

É autodisciplina, determinação, o esforço sobre si mesmo. ‘Significa ser mais forte que nossas próprias fraquezas, e a manter constantemente o foco e a motivação para a auto superação.’

Quando praticamos um asana, não devemos confundir esforçar-se numa postura (Tapas) com forçar uma postura (Himsa). Esforço envolve intensidade, persistência, estar presente na ação.

‘Quando nos esforçamos numa postura, trazemos presença para o que fazemos, e é através dela que tomamos consciência de nosso corpo e de nossos limites. A partir daí podemos desenvolver estratégias para alcançar um objetivo. (...) Quando nos esforçamos numa postura, deixamos nossos limites de lado e a chance de nos ferirmos são grandes.’

Podemos fortalecer a prática de tapas nos propondo executar pequenas e inevitáveis tarefas do cotidiano que as pessoas preferem não fazer, como arrumar ou limpar algo na casa, com alegria.

Por meio da prática da tolerância e do autocontrole, eliminam-se as impureza do corpo e a pessoa fica cheia de estabilidade que não pode ser abalada porque elimina o medo.


Svadhyaya
(estudo e auto-reflexão)
2.44
svadhyayat ishta samprayogah
svadhyayat = auto-estudo, a reflexão sobre as sagradas palavras
ishta = aquela que é preferida, escolhida, predisposição para
samprayogah = conectado com, no contato, comunhão

De auto-estudo e reflexão sobre as sagradas palavras (svadhyaya), atinge o contato, a comunhão, ou a harmonia com essa realidade ou sabedoria subjacente natural.
O auto-estudo ‘significa compreensão de si mesmo. Esse processo de autoconhecimento acontece olhando para os modelos psicológicos em escrituras em escrituras de Yoga como o Yoga Sutra, a Bhagarvad Gita, a Ashtavakra Gita e outros.’

Um dos papéis mais importantes da prática do estudo é ajudar no conhecimento do próprio eu espiritual, ampliando e aguçando a consciência com a prática da meditação e das posturas de yoga, ampliando e capacitando a transformação do estudo numa experiência pessoal.

O estudo também estimula a intuição e facilita o corpo espiritual trazer à luz um conhecimento antes não manifestado, e quase sempre livre de dúvidas.


Isvarapranidhana
(entrega ao ser/estar escolhido)
2.45
Samadhi siddhih ishvarapranidhana
Samadhi = absorção de profunda meditação, o estado de concentração perfeito
siddhih = atingir, maestria, realização, perfeição
ishvara = fonte criativa, campo causal, Deus, supremo guru ou professor
pranidhana = praticando a rendição, dedicação, devoção, a entrega dos frutos da ação

A partir de uma atitude de entrega à fonte criativa (ishvarapranidhana), o estado de perfeita concentração/coordenação mental, meditação (Samadhi) é atingido. Ishvarapranidhana traz Samadhi.
‘Semelhante ao conceito de fé de Alexander Lowen; “ A fé é uma qualidade do ser: de estar em contato consigo mesmo, com a vida e com o universo. É uma sensação de pertencer a uma comunidade, a um país e à Terra. Acima de tudo é a sensação de estar assentado no próprio corpo, na própria humanidade e na sua própria natureza animal. Ela pode ser todas essas coisas porque é uma manifestação de vida, uma expressão da força vital que une todos os seres”. (Grifo nosso)

Isvarapranidhana também é compreender que não temos direito de escolha sobre os frutos das ações, pois estes sempre retornam da maneira justa e adequada.


Referências e Bibliografia Consultada

CHRISTENSEN, Alice. O Yoga do Coração: dez princípios éticos para aumentar o bem-estar, a coragem e a confiança. São Paulo: Pensamento, 2002.

FEUERSTEIN, George. A tradição do Yoga. São Paulo: Pensamento, 2002.

IYENGAR, B. K. S.. A Árvore do Yoga. São Paulo: Globo, 2001.

IYENGAR, B. K. S.. A Luz do Yoga. São Paulo: Summus, 2007.

IYENGAR, B. K. S.. Iyengar Yoga: Posturas Principais. São Paulo: Cores & Letras, 2006.

JNANESHVARA BHARATI, Swami. Yoga Sutras of Patanjali – Interpretative Translation.
Disponível em :< www.swamij.com/yoga-sutras.htm >.
Acesso em 15 agosto 2008.

KUPFER, Pedro. De volta ao básico. Prana Yoga Journal. n.19, p.110-111. agosto/2008.

MALAGÓ, Vanessa. Yamas e niyamas: alicerces da prática yogue. Cadernos de Yoga. n.10, p.45-56. outono/2006.

TRUCOM, Conceição. Doce Limão.
Disponível em :< http://www.docelimao.com.br/ >.
Acesso em 15 agosto 2008.

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Disponível em :< http://br.youtube.com/watch?v=OHWux-DfdME&feature=related>.
Acesso em 14 agosto 2008.


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Disponível em :< http://br.youtube.com/watch?v=dbst9WIm4mA&feature=related
>.Acesso em 20 agosto 2008.