20110628

Pescado: Prática e desapego


 
O espetáculo das virtudes que se nutre da atenção plena ( o cara está atento no presente) e relaxamento na ação ( ele move apenas os músculos essenciais com o tônus necessário e mantém a respiração estável, serena e profunda).

Via Rosana Hermann

20110624

Qualidade do movimento?

Desde a revolução industrial, mais especificamente, desde o advendo das linhas de montagem, o ser humano vem perdendo paulatinamente o repertório de movimentos. Deixamos de caminhar para usar automóveis (até para ir à padaria na esquina), temos controle remoto para tudo, fazemos praticamente tudo sentados, repetindo, repetindo, nos repetindo. A cada momento ficamos mais empobrecidos, com uma variedade e amplitude menor de movimentos. Menos movimentos, menos saúde, menos criatividade, menos afetividade, menos 'felicidade'.

Nossos movimentos se relacionam diretamente com nossa inteligência e nossa capacidade de exprimir afetividade. Um repertório menor de movimentos é um vocabulário menor de movimentos, não produz uma expressão clara, assim como um vocabulário menor de palavras não produz fala clara.

O fator que nos torna mais criativos é a consciência, que também vem pelo movimento. Quando o movimento acontece e é causado e percebido por quem faz, ou seja, quando a pessoa identifica o início, o meio e o fim do movimento, quando a pessoa também percebe o caminho do movimento no corpo, ele se torna parte do repertório experimentado da pessoa. O movimento 'provocado' pelo automatismo, pelo instrumento, causa o movimento pontual, sem memória no corpo e produz um registro muito débil na memória do corpo. A pessoa pode até ganhar musculatura, porém continua pobre em consciência corporal ( e por isso perda e graça quando se move, adquire movimentos robotizados.)

20110622

Qualidade do Movimento


O aasana/ a postura quando feito com atenção plena na qualidade do movimento produz de modo rápido, eficaz e durável modificações profundas no corpo( beleza estética e saúde), na harmonia das emoções, no foco dos pensamentos.

A qualidade do movimento no aasana requer o sequenciamento correto dos movimentos (ações externas, que são visíveis, como por exemplo: flexionar o joelho direito) e das atitudes (ações internas, que não são visíveis ou são provocadas pelo uso direcionado e coerente da imaginação, como por exemplo: desamassar as pálpebras).

Sequenciar corretamente o movimento requer:
  • prática constante de quem ensina, para que as ações estejam sempre frescas no corpo e na memória;
  • identificação da organização corporal atual do aluno;
  • expressão da ordem correta dos movimentos e das atitudes para cada aluno, respeitando sua estruturação corporal e respiração atual, fazendo uso inteligente dos acessórios pelo tempo necessário.
Atualmente, é importante o correto sequenciamento das ações externas e internas devido ao empobrecimento do repertório dos movimentos que vem acontecendo desde a revolução industrial, e tem se intensificado muito na atualidade com o uso dos botões de controle remoto, pelo tempo que passamos sentados em cadeiras, em bancos de automóveis.

Fala e entende melhor quem lê, e escreve;de maneira análoga, se comunica melhor quem tem consciência da totalidade dos movimentos que faz, quem possui um vasto conhecimento de seus gestos e quem coordena os significados dos movimentos.

Pescado: Trabalhando com as dificuldades

Ilustração: Eva Uviedo

(Sarah Doering, in acessoaoinsight)

Agora, o que vou dizer sobre trabalhar com a raiva se aplica a qualquer emoção aflitiva. Portanto, se a raiva não for a sua principal preocupação no momento, mas o desejo ou o medo, ou a inveja, ou alguma outra coisa, por favor, preste atenção com cuidado, pois as mesmas palavras são aplicáveis.
Se você estiver sentado e de repente acordar para o fato de que está com raiva, com muita raiva – dê um passo para fora da estória que está se desenrolando na sua mente. Deixe de lado o pensar. Faça uma pausa e permaneça com a sensação de raiva, não importa quão desconfortável ela for. A sensação poderá ser de total repugnância, uma massa confusa, pesada, quente e que queima. Cada emoção possui o seu toque particular e quando ela assume o comando, parece ser uma entidade sólida, substancial, que não tem fim.
Na verdade, a raiva não é sólida, mas uma combinação de diferentes componentes: pensamentos, que fazem a estória ficar dando voltas; um toque emocional em particular; e numerosas sensações corporais. E tudo isso, assim como a própria raiva, é transitório. Surge e desaparece, surge e desaparece.
Tente deixar de lado os pensamentos. Abandone a estória que está se desenrolando na mente: “Ele fez isso, ela disse aquilo, isso não é justo ...”. Esses pensamentos são a expressão da raiva e também o seu alimento Abandone-os e traga a atenção para as sensações no corpo. Permita-se sentir, sinta completamente a emoção, diretamente. Olhe para ver o que está acontecendo. Há calor, há pressão, há tensão, há contração? Onde no corpo estão sendo experimentadas essas sensações? Elas se movem? Elas mudam? Qual a sua relação com elas? Há resistência contra elas? Se houver resistência, permaneça com ela e sinta-a.
Se o pensamento for tão forte que fica puxando-o de volta para a estória, faça uma pequena anotação mental “pensando”, “pensando”. A anotação mental mantém viva a atenção plena e é um cordão de sanidade. Ela nos recorda do que na verdade está acontecendo exatamente neste momento – que, muito simplesmente, são pensamentos enraivecidos surgindo na mente.
Quando a raiva for forte e custar muito trabalho permanecer no presente, respire fundo algumas vezes, respire através da raiva e depois regresse para as sensações no corpo quando puder. Acima de tudo, aceite o fato de que a raiva está aqui. Abra-se para ela. Dê permissão, com suavidade. Ficar contrariado e enraivecido com a raiva só aumenta a raiva e aumenta a dor.
Se a emoção for demasiado intensa para ficar sentado, faça meditação andando. Caminhe rápido. Traga a atenção plena para o caminhar. Ou pare e desfrute da natureza. Olhe para os campos e as árvores contra o céu. Olhe para os pássaros e as pequenas criaturas. Mas não se entregue aos pensamentos. Tenha atenção plena. Pois quando temos atenção plena, não há raiva. A raiva desaparece. Isso é verdade para qualquer emoção negativa. Quando a atenção for incondicional, a negatividade simplesmente desaparece.

'Receita' da raiva


A coisa mais dificil que eu já presenciei é uma pessoa admitir que sente raiva.

Todo mundo sente raiva, não adianta esconder a raiva debaixo do tapete de sua sala de bem estar interior.

A raiva vai dar a volta por cima, vai surgir crescida no descompasso cardíaco, na taquicardia, no diabetes, na hipertensão, nas dores musculares, nas dores de ombro, pescoço, cabeça, nas enchaquecas, nas pedras na vesícula.
Raiva é emoção animal, e somos animais.

Mas, somos +!
Somos conscientes, e podemos aprender diferentes maneiras de lidar com a raiva, porém todas elas passam antes pelo testemunho, pela observação de que sentimos raiva.

Uma pista: onde tem mágoa, tem raiva.
A raiz da raiva é a mágoa.

A mágoa vem de nos identificarmos com o que os outros pensam, falam ou como agem conosco.
Aparecem variações da perguntinha: 'por que fulano faz assim comigo?
A mágoa é um produto do 'achismo' de 3 de nossas atividades mentais (o conhecimento incorreto,a imaginação e a memória) combinados em diferentes proporções vinculadas às omissões ou comissões das outras pessoas.

A raiva é a mágoa enterrada num buraquinho do solo do nosso coração, feito semente.
Enterramos a mágoa na expectativa de que ela nunca mais nos aborreça ou nos encontre, porém, a mágoa é a semente da raiva: enterrada no solo ela germina e brota a raiva.

.:.

Mágoa gera raiva.
Raiva gera ódio.

Pescado: apenas uma folha...

(Sarah Doering, in acessoaoinsight)
Ilustração: Eva Uviedo
Faz muitos anos, eu tive uma dessas experiências que fez com que o meu entendimento da prática mudasse significativamente. Foi numa época em que eu estava muito triste. Parecia que o fim do mundo havia chegado para mim. Alguém que eu amava muito havia partido e era improvável que fosse voltar.

Caminhando no jardim em frente à minha casa, distraída, peguei uma folha dum arbusto. E depois, por alguma razão, parei e olhei para a folha na minha mão. Minha atenção foi de alguma forma atraída pela folha e comecei a estudá-la com cuidado. Eu fiquei parada, olhando para a pequena folha, as suas veias, as bordas delicadas, a sua suavidade, o seu brilho, o seu verde intenso. E de repente compreendi que aquela tristeza pesada e obscura que estava me deprimindo, havia partido. Meu coração estava completamente leve e em paz.

O contraste entre ser engolida pela tristeza e a repentina libertação para a leveza e a paz foi tão forte que o pensamento surgiu: “Essa folha é mágica?” Eu não compreendi em absoluto o que havia acontecido. A mudança foi tão grande, tão completa, que supus que ela tinha de ser causada por algo fora de mim mesma. E com cuidado eu trouxe a folha para dentro da casa. Eu não havia compreendido que a mudança do sofrimento para a paz havia acontecido simplesmente porque por alguns momentos a minha mente esteve focada e plenamente atenta. Na manhã seguinte, eu peguei uma outra folha para ver se ela tinha o mesmo poder, como se a felicidade repousasse numa folha. É claro que não funcionou. Eu só fui compreender muito mais tarde que quando a atenção plena é completa, não há tristeza, não há raiva – pois não há pensamento.

O “pensamento” e o “entregar-se ao ciclo de pensamentos”, permitindo que eles sigam indefinidamente, é que faz com que nos sintamos infelizes e nos mantêm infelizes. Quando o pensamento é cortado, as aflições mentais desaparecem. Dukkha é substituído pela felicidade de uma mente alerta e tranqüila.

Aquele momento com a folha foi uma grande lição para mim. Pois foi através disso que pude enxergar o poder extraordinário da atenção plena – o seu poder curativo. Quando a atenção está totalmente com algo, qualquer coisa, não há espaço na mente para a tristeza ou para a raiva, ou qualquer outra emoção negativa. Só a atenção está presente. E a paz que provém da completa atenção está acima de qualquer comparação.

Se tivesse sido possível transferir aquele tipo de atenção cuidadosa, que havia sido dada para a folha, para qualquer coisa que eu fizesse e sustentar essa atenção, a tristeza não teria nunca retornado. Mas é claro, ela retornou. Aquele momento de presença completa foi apenas um descanso para a minha mente. Foi um tremendo alívio, mas não deu um fim à minha dor, e nem poderia. Para que isso, acontecesse, algo mais era necessário.

Na próxima vez que a tristeza surgiu, ao invés de buscar pela cura mágica numa folha, como (para ser honesta) eu continuei fazendo por vários dias, eu deveria ter me voltado para o próprio sentimento de tristeza. Eu deveria ter estado atenta permitindo a mim mesma senti-lo completamente. A menos que seja possível ficar plenamente atenta o tempo todo, do que eu não era capaz, a única forma de finalmente resolver qualquer emoção aflitiva é enfrentá-la de frente, abrir-se para ela, e trazê-la totalmente para a consciência. Quando for completamente compreendida, ela irá se dissipar e desaparecer. Em geral não é possível fazer isso de imediato, é óbvio. Pode ser demasiado doloroso. Então, temos que respeitar as nossas limitações e seguir num passo apropriado.

Ao mesmo tempo, é importante compreender que, quando estamos numa situação desagradável que não pode ser mudada, quanto mais rápido a resistência for abandonada, tanto mais rápido estaremos em paz. É bom senso, nada mais. De outro modo, continuaremos batalhando para viver num mundo que não existe, um mundo de fantasia, de como desejaríamos que as coisas fossem, mas não são. Estaremos em dessintonia com aquilo que está acontecendo no momento e o sofrimento será inevitável.

O abandono, com a rendição à realidade do momento presente, é a única coisa realista a ser feita. Aceitar uma determinada situação não significa que você precisa gostar dela. Significa simplesmente que, quer gostemos ou não, ela está ali.
 .:.
O abandono com rendição é observar o que acontece na vida, de cara limpa,de olhos abertos, sem mentirinha de papelzinho, sem falsa persuasão.
Viajar, ir para um retiro no final de semana, mudar de ares, pode ser uma forma de fuga, de abandono de si mesmo, de desistir da vida.
Olho vivo e faro fino: é preciso estar atento e forte (hatha).

20110621

Qual é o preço da beleza?



Do mesmo jeito que nossa indústria de produtos de beleza parou na década de 50,
a mentalidade da maior parte das pessoas com relação à exercícios físicos que dão resultado parou na década de 1980, com as academias, a presença de sedutoras máquinas que prometem 'milagres',
e a imagem do Yoga se cristalizou na década de 1970, como sendo uma prática de relaxamento, no sentido de que nenhum esforço é necessário ou que é coisa de místico, esotérico ou bicho grilo.

Se sua cabeça está fazendo exercício no século passado, venha para o século XXI: Hatha Yoga pode ser uma prática intensa e desafiadora, depende muito da metodologia escolhida e da capacidade e habilidade do professor(a) que você escolher.

A prática correta de Hatha Yoga traz beleza física (Kaanti= beleza: a beleza física pode ser considerada como um dos sinais=cihna da prática correta de Yoga), transforma a forma física do corpo de dentro para fora em todos os 'sentidos'': no sentido de que há uma melhora nos processos não palpáveis (re-estruturação das emoções e sentimentos, re-organização da mente e pensamentos) e dos órgãos internos, ossos e músculos para a pele. Todas estas 'partes' se tornam flexíveis, tonificadas, do tamanho certo, ventiladas e juvenescidas, ao mesmo tempo em que o caráter e a vontade pessoal se tornam mais firmes.

Como sempre, a escolha de colocar em cheque seus conceitos (afinal,se seus conceitos sobre como exercitar seu corpo-sensação-mente são tão efetivas, por que você tem tanto medo de enfrentar uma aula prática de Hatha Yoga?) e de escolher a dedo quem vai te ensinar está em suas mãos!

20110618

Atenção Plena na Respiração

A atenção plena, é um estado especial de consciência que expressa atenção e disposição em cada momento da existência.
Ninguém pratica a atenção plena perfeitamente, mas desenvolvê-la em todos os momentos do dia traz muitos benefícios.


Prática de atenção plena na respiração conduzida por Stephen Little
(instrutor de práticas de redução de estresse do Hospital Albert Einstein de São Paulo -SP)

A prática da atenção plena traz qualidade de vida: estimula a concentração, administra a energia (disposição versus cansaço) baixando os níveis de estresse 'do mal', instiga a consciência corporal.

A prática de atenção plena faz parte da aula de Yoga. Ela está presente na abertura, quando nos conectamos à respiração; está presente nas instruções verbais de cada aasana, quer seja para os movimentos (ações externas) ou atitudes (ações internas) ou para coordenar o movimento com a respiração; está presente nas instruções de praanaayaama; nas instruções do relaxamento e na meditação.

20110616

Em busca do tempo perdido

A sensação interna do passar do tempo está intimamente ligada ao fluxo, à corrente dos pensamentos.
A sensação interna não tem a ver com o tempo 'natural', esse do dia e da noite.
Quando uma pessoa está envolvida em uma atividade sentida como prazeirosa, o tempo parece que passa rápido, e o contrário parece ocorrer quando a atividade é percebida como desagradável.

Muitos pensamentos inúteis por unidade de tempo (pensamentos/segundo, por exemplo) levam à sensação interna de falta de tempo.

Uma mente sem governo, que alimenta muitos pensamentos inúteis por unidade de tempo é uma mente constantemente esgotada, com pouca ou nenhuma capacidade de foco e de concentração.

A pessoa que tem a mente desgovernada fica desconcentrada, com pouca ou nenhuma capacidade criativa, com pouca ou nenhuma iniciativa positiva, e manifesta fadiga física, emocional e mental:
  • apresenta falha constante de memória;
  • instabilidade ou irritabilidade ou anestesia emocional (paradoxalmente, a pessoa se desliga emocionalmente dos fatos 'desagradáveis' que lhe acontecem como uma maneira de aparentar ser uma pessoa 'calma' e resolvida emocionalmente, mas manifesta sintomas psicossomáticos de ansiedade)
  • resistência fazer atividades físicas que lidam com a não-repetição e com a novidade.
O que acontece com a percepção do fluir do tempo quando estamos verdadeiramente concentrados, prestando atenção? (E quem presta atenção, não pensa!)
A percepção do tempo se torna fruída: descobre-se que há tempo para tudo o que se precisa e deseja fazer.
Todos conhecemos pessoas muito ocupadas, que vivem intensamente, cheias de energia, saudáveis e bem humoradas, que sempre encontram tempo para as atividades que elegem como importantes, que não deixam para depois, que não ficam arrumando desculpas para não fazer as atividades que consideram importantes.
Essas pessoas cultivam um estado mental convergente, com poucos pensamentos por unidade de tempo, e com o máximo de pensamentos úteis.

O que o Yoga tem com isso?
O Yoga ensina e treina a mente através do uso consciente do corpo, praticando os aasanas e os praanaayaamas, devolve o tempo perdido.

.:.

flu.ir
(lat fluere) vint 1 Correr em estado líquido. vti 2 Derivar, proceder.

fru.ir
(lat fruere) vti Desfrutar; usufruir.

20110613

Tempus fugit ... ?



O tempo não pode faltar nem sobrar porque não é uma coisa.
O tempo é uma experiência mental e se a sensação dominante a respeito do tempo é de faltar, isso não resulta de complexas equações quânticas ou dos efeitos da “Ressonância de Schumann”.

Como exeriência mental a percepção do tempo está sujeita ao torvelinho mental e à presença ou ausência da flexibilidade individual de perceber novas experiências como diferentes, ao invés de repetentes.

Se o tempo falta, sobra a crença de que o tempo é coisa que acaba e gasta.
Sobra a crença de que a pessoa é 'coisada', coisificada, que desgasta.
A coisificação engessa.