20090227

Shavāsana



'Efeitos

O versículo 32 do capítulo l da Hatha-ioga Pradipika diz: "Deitar-se no chão, estendido como um cadáver, é a chamada Savasana. Remove a fadiga causada pelas outras asanas e induz a calmaria mental".

A [postura] Mrtasana é assim descrita no versículo 11 do capítulo 2 do Gheranda Samhita: "Deitar-se no chão (de costas), como um cadáver, é a [postura]chamada Mrtasana. Esta postura destrói a fadiga e acalma a agitação da mente".

"A mente é o senhor dos Indriyas (os órgãos dos sentidos); o Prana (o Sopro Vital) é o senhor da mente." "Quando a mente é absorvida, ocorre a chamada Moksha (a emancipação final, a libertação da alma); quando Prana e Manas (a mente) são absorvidas, segue-se uma inefável felicidade." (Versículos 29 e 30, capítulo IV, Hatha-ioga Pradipika.)

Dominar o Prana depende dos nervos. Uma respiração suave, constante, sutil e profunda, sem qualquer movimento irregular do corpo acalma os nervos e a mente. As tensões da civilização moderna resultam numa tensão nervosa para a qual a Savasana é o melhor antídoto. '

B. K. S Iyengar, em A Luz da Ioga, Ed. Pensamento

20090223

Pegada Geral


E aí, sua pegada é boa?

Você distribui de forma justa o peso do corpo em ambos os pés?

O desequilíbrio começa aí, com o hábito de escorregar o peso mais para um lado que para o outro. Faz um pé ficar escravo do outro, um pé servo de todo o corpo.

Só esse pequeno deslize já permite que apareçam desgastes, injúrias nas várias outras articulações que se erguem sobre os pés.

Em que região dos pés você apóia o peso?

Nos calcanhares?(turqueza)
Na borda interna (laranja)?
Na borda externa (azul)?
Nos dedos (verde)?

Nenhuma dessas distribuições está harmoniosa.

O jeito organicado (organizado + orgânico), somaticamente equilibrado é distribuir de forma equanime o peso de todo o corpo em ambos os pés, desenahndo linhas de contato entre três pontos de cada pé: calcanhar, metatarso do dedão e metatarso do dedinho (em vermelho) que repartem o peso corporal em frações equivalentes e estão igualmente apoiados sobre o chão. Os dedos não são responsáveis por carregar o peso do corpo e devem apenas ficar estendidos. O ideal é aprender a se equilibrar usando apenas estes três pontos de cada pé.

Como tudo nessa vida, gostamos de acreditar que nossa pisada é sempre a mesma, porém se observarmos nossos apoios variam ao longo do e dos dias, na mesma intensidade em que nos sujeitamos (ainda que inconscientemente) aos efeitos da tensão muscular/emocional/mental cotidiana.

Ao longo do(s) dias(s), arranje um tempo para andar descalço.

Observe qual parte(s) das solas de seus pés toca(m) o chão, qual delas toca primeiro, qual delas vem depois.

Observe em vários dias.

Contorne seus pés num papel a cada dia, ou em vários momentos do dia, delimite e preencha os pontos de apoio. Ou carimbe a sola dos pés (bem mais real, dá pra perceber bem a distribuição injusta do peso):


Pode fazer uma passadeira de papel kraft comprado a metro, com as pegadas contornadas e preenchidas ou carimbadas, assim tornará visível uma parte da linha do tempo da sua pegada, feito uma estória em quadrinhos.

20090222

Pineal/Epífise



Assista com a mente aberta, o suficiente.
Abrir demais cabeça pode fazer o cérebro esparramar pelo chão.

"Eu não descobri, eu abri o livro pra estudar."
Sergio Felipe de Oliveira

20090221

Sutura


Yuj, é a raiz etimológica da palavra Yoga.
Yuj significa unir.

Joseph Campbell escreve no livro 'Mitos de Luz: Metáforas Orientais do eterno' que a palavra sutra [sânscrito] tem relação com a palavra sutura [português]: o fio que (re)une um tecido vivo que foi rompido.

Pode ser o fio, a fibra muscular nutrida, a fibra nervosa conectada feito fibra ótica que permite uma torrente de informações que amplia a consciência.

O fio pode ser entremeado, tecido, almalgamado: sensibilidade e consciência que nos levam a partir de nossos limites humanos e conhecidos em direção às leis da natureza, à Consciência Universal, ao que não tem nome e pode ser chamado de 'Desconhecido'.

20090220

Mahā Shivaratri, A 'Grande Noite de Shiva'


A véspera de lua nova, ou a última noite na fase lua minguante é Shivaratri, Noite de Shiva.

Shiva é o yogue primevo, o asceta arquetípico, o grande dançarino que com sua dança cria, sustenta e destrói o universo, até a próxima dança.

No mês de Phalgun, entre fevereiro e março do calendário gregoriano, existe a celebração de Mahā Shivaratri, cujo motivo para alguns é a comemoração da união de Shiva (a representação do Absouto) e Parvati (um dos muitos nomes de sua consorte, que personifica Shakti) e para outros, recordar a realização da Tandava Nritya por Shiva- a dança primordial da criação, preservação e destruição.

Mahā Shivaratri 'cai', em 2009, no 'nosso' dia 23 de fevereiro.Não tem data fixa, que nem Carnaval e Páscoa, porque o calendário base para essas datas é lunar.

A lua crescente figura entre várias imagens que emergem dos cabelos de Shiva, algo contidos, algo espalhados, como asas.

É shishu em sânscrito, "'a que cresce rápido, a ansiosa por crescer' e também, ' o bebê recém-nascido', pois a cada semana, agarrando-se aos seios da mãe, desenvolve-se com a rapidez da lua crescente.

Shiva é a personificação do Absoluto; em particular, de sua dissolução do universo. É a corporificação da Supramorte. É chamado de Yamāntaka, 'Aquele que Extingue o Domador, que Vence e Extermina Yama, o Deus da Morte, o Domador'. Shiva é Mahā-Kāla, o Grande Tempo, a Eternidade que devora o tempo, todas as eras e seus ciclos. Reduz a nada o rítmo e a voragem dos fenômenos; dissolve todas as coisas, todos os seres, todas as divindades, no imóvel oceano de pureza cristalina da Eternidade - de cujo ponto de vista nada, nada de fundamental acontece. Porém, outra vez, como shishu, o bebê, a lua crescente, Shiva é puro deleite e a coisa mais auspiciosa de se ver, promessa de vida e força vital; suave , mas irresistível. A lua crescente, shishu, é considerada a taça do fluído da vida imortal, estimuladora do reino da vegetação e de tudo o que cresce na esfera sublunar, instando também os imortais celestes para que estejam prontos a desempenhar seus benéficos deveres cósmicos. Shiva, como shishu é essa taça, essa lua."

(Heinrich Zimmer, Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia, pág. 133)

A lua simboliza a mente, a lua nova é a mente vazia, por (re)nascer.


Fica o convite para experimentar passar um dia, ou uma noite de um jeito não-habitual, ficar de fora da fôrma:

* em silêncio 'vocal' que incita a quietude mental (mouna) que pode acompanhar um por-de-sol, o vai e vem das ondas do mar ou as atividades simples que se repetem no cotidiano como comer, cozinhar, lavar louça ou arrumar/limpar algo na casa;
* prestando atenção ao longo do fio do tempo do dia em tudo o que se pode perceber;
* em vigília meditativa durante a noite ou a madrugada.

Om Namah Shivaya








Get a playlist!
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Get Ringtones!



Ah, também pode rasgar a fantasia, ;-)!

Quem sou eu?



A pergunta que o Yoga faz:

Quem é você?

Essa é a pergunta que junta os raios multicoloridos na luz branca da eternidade.

Esse é o jogo de indagar, mahā lilah dissimulado na vida, a ilusão de que tudo é separado.

É uma pergunta que costuma se mostrar abrangente, quase um continente. Ao menos por enquanto para mim, apesar de ter um tanto de experiências registrado, há no existir muitas possibilidades de perceber a pesquisar por vir.

Costumo observar que já temos a resposta, o que acontece pelo costume é que não fazemos a pergunta acertada.

E resolvi mudar a pergunta, passei a questionar:

Quem eu não sou?
Como eu não sou?

Fez efeito de bisturi de obsidiana em discernir (viveka) o que vem de mim ou vem a mim do que está com os outros.

Me perguntar 'Quem eu não sou? Como eu não sou?' tem efeito de desnudar as projeções, as minhas nos outros e as dos outros em mim.

Fica simples observar quando e como as projeções surgem, tanto as minhas sobre as pessoas como as das pessoas sobre mim.

Me trouxe liberdade de escolher como quero e se quero me relacionar através de projéteis (os atributos – qualidades ou defeitos - projetados). Me trouxe um entendimento não racional de que todos somos um (mas não somos os mesmos).

Essa autonomia me oferece a possibilidade de me desembaraçar das situações onde as pessoas se relacionam através de projéteis sem nenhum arranhão.

20090218

Bússola Digestória


Não somos um tubo de transporte e transmutação de 'comida'.

Não somos só o que comemos, há várias vertentes nutricionais, mesmo para o corpo, que também se alimenta dos movimentos neuro-musculares

  • do corpo (Yoga, dança, artes marciais, esportes e ...'fitness'),


  • movimentos no corpo (massagem, auto-massagem, carinho)


  • e dos movimentos da massa encefálica, quando por volição ou osmose alimentamos as sinapses.

    Não tem receita justa, prescrição certa e única que sirva a todos, tem o que é adequado ao momento de vida de cada um. E para saber, cada um tem de procurar se conhecer, conhecer seu corpo, como ele responde aos estímulos, os segredos que ele guarda, as armadilhas, os labirintos do condicionamento que são percorridos em momentos de crise, de tensão. E procurar experimentar, e ter paciência de poder perceber a evolução e os resultados dessa experimentação.

    Esse auto-conhecer nunca está completo, pois estamos sempre em movimento, em transformação.

    Exercitar esse acerto é dicernimento (viveka).

    As várias faces da alimentação.
    Comer é poder?
    Qual é a sua com a comida?

    Águas coloridas, da Ana Branco.

    Meus sucos, I.
    Meus sucos, II.
    Tenha modos - suco verde.

    20090216

    Drops Yoga Sutra



    Obs.: Clique na imagem para ver ampliada.

    Os Yoga Sutras é um tratado dedicado exclusivamente ao Yoga, que surgiu por volta do século III a.C., atribuído à Patãnjali. É fonte de estudo e um manual de orientações valioso para quem pratica e investiga a tradição do Yoga de forma honesta e autêntica.

    É composto por 195 versos ou sutras (sutra = fio, 'aforismo conciso que serve como artifício para memorizar os ensinementos sagrados'[1]) , distribuídos em 4 capítulos:

  • Samadhi Pada ou Capítulo sobre o Êxtase, com 51 aforismos;
  • Sadhana Pada ou Capítulo sobre o Caminho da Realização, com 55 aforismos;
  • Vibhuti Pada ou Capítulo sobre os Poderes, com 55 aforismos;
  • Kaivalya Pada ou Capítulo sobre a Libertação, com 34 aforismos.


  • Daqui em diante o título DropYS indica a postagem de um aforismo e o número que acompanha o título indica o sutra comentado.

    A tentativa é de que o comentário seja conciso e simples, acessível.


    [1] Feuerstein, Georg: Enciclopédia de Yoga da Pensamento

    20090215

    Māyā


    Narada é uma personagem recorrente dos contos hindus, que personifica o sábio, o devoto exemplar.

    'Por sua prolongada austeridade e práticas devocionais, Vishnu voltou para ele sua graça. Apareceu ao santo em seu eremitério, concedendo-lhe a realização de um desejo.

    — Mostrai-me o poder mágico de vossa Māyā - rogou Nārada, ao que o deus respondeu!

    — Eu o farei. Segue-me.

    Mas outra vez lhe pairou nos lábios de belas curvas o mesmo quase-sorriso.

    Deixando a agradável sombra do bosque em que o eremita se abrigava, Vishnu conduziu-o por uma faixa de terra nua que reluzia como metal sob o sol que abrasava, impiedoso. Não demorou para que ambos ficassem muito sedentos. Viram, a alguma distancia, os tetos colmados de uma pequena aldeia fustigada pelo calor. Vishnu perguntou:

    — Queres ir até lá buscar-me um pouco de água?

    — Decerto, meu Senhor - respondeu o santo, correndo para o distante agrupamento de choupanas. O deus ficou a descansar à sombra de um penhasco, aguardando-lhe a volta.

    Chegando ao povoado, Nārada bateu à primeira porta que encontrou. Veio abri-la uma bonita donzela e o devoto foi tocado por algo jamais sonhado: o encanto dos olhos da moça; assemelhavam-se aos do seu divino Senhor e amigo. Estático, pasmado, esqueceu o que viera fazer. Doce e ingénua, ela deu-lhe as boas-vindas. Sua voz, como um laço de ouro, rodeou-lhe o pescoço. Movendo-se como num sonho entrou na casa.

    A parentela tratou-o com muito respeito, embora sem o menor vestígio de timidez. Receberam-no com as honras devidas a um santo, mas não como a um estranho; mais parecia ser, o recém-chegado, um venerável conhecido de longa data, há muito ausente. Nārada permaneceu em companhia deles, impressionado com o acolhimento caloroso e digno; sentia-se como em sua própria casa. Ninguém perguntou o motivo de sua visita; era como se pertencesse à família desde tempos imemoriais. Transcorrido algum tempo, pediu ao pai da moça permissão para casar-se com ela, o que não surpreendeu ninguém. Tornou-se membro da casa e compartilhou os deveres milenares e os prazeres simples de um lar camponês.

    Doze anos se passaram; tinha três filhos. Morrendo-lhe o sogro, tornou-se o chefe da família, herdando e administrando os bens, cuidando do gado e cultivando as terras. No décimo segundo ano a estação das chuvas foi extraordinariamente violenta: encheram-se os rios, torrentes desceram montanhas abaixo e uma enchente inundou, de repente, o pequeno povoado. Durante a noite, as choupanas de palha e o gado foram arrastados e todos precisaram pôr-se em fuga.

    Uma das mãos amparando a esposa, levando à outra dois dos filhos e conduzindo sobre os ombros o terceiro, o menor, Nārada partiu a toda pressa.

    Abrindo caminho através da mais completa escuridão, açoitado pela chuva, caminhava a muito custo sobre a lama escorregadia, cambaleando através do redemoinho das águas. A carga era maior do que podia suportar e a correnteza arrastava-o, envolvendo-lhe as pernas com muita força. Nārada tropeçou e o filho que levava aos ombros escorregou, tragado pela noite uivante. Com um grito de desespero, desprendeu-se dos filhos maiores para agarrá-lo, mas era tarde demais. Enquanto isso, a torrente brutal carregou os outros dois e, antes que se apercebesse da extensão do desastre, arrancou-o da esposa, arrastandoo corrente abaixo como a um toro inerte. As águas atiraram-no inconsciente numa praia, sobre uma pequena rocha. Abriu os olhos, ao voltar-lhe a consciência; a sua frente, viu um vasto lençol de água lamacenta. Chorar era o que podia fazer. Chorou.

    — Filho! - aquela voz, que lhe soou familiar, quase lhe fez parar o coração.

    — Onde está a água que foste buscar para mim? Espero por ela há mais de meia hora.

    Nārada voltou-se. Em vez de água o que viu foi um deserto a rebrilhar ao sol do meio-dia. Perto, as suas costas, estava o deus. Ainda sorriam, sem compaixão, as curvas da boca fascinante, que se abriu para a pergunta amável:

    — Compreendes agora o segredo de minha Māyā?'


    Contada por Heinrich Zimmer, segundo a versão de Ramakrishna, em 'Mitos e Símblos na Arte e Civilização da Índia' (pág. 33 e 34)

    20090212

    Sādhana


    'Para mim existem 3 tipos de sádhana: o que fazemos sozinhos, o que fazemos com um professor de Yoga e quando ensinamos, nem que seja pegar num amigo e dar-lhe uma aula só para sentir e mudar a perspectiva. As 3 formas são excelentes e reforçam-se mutuamente. Há que manter a humildade, principalmente quem já dá aulas, para continuar a fazer aulas com os outros, para com respeito unir as mãos em frente ao peito e fazer namaskar... há que ter disciplina e muita força de vontade para todos os dias sentar para praticar, vencer a inércia e comodidade que facilmente se instalam... e ter a coragem, devoção e amor para passar aos outros aquilo que sentimos sem esperar nada em troca, poder partilhar o Yoga é recompensa suficiente...'
    Simão Monteiro

    O texto acima é um trecho de um post-artigo onde Simão, que é de além mar, discorre sobre como percebe o Sādhana dele. Vale passar os olhos (basta clicar sobre o texto e voilá!).

    Eu concordo com o Simão: praticar sozinho, praticar com alguém te ensinando e ensinar a praticar são ações sinérgicas, complementares.

    E acrescento o auto-estudo da prática: tapas, ambiente iluminado, uma câmera digital na mão, vários pontos de vista e perseverança pra fazer muitas tomadas do mesmo ásana e depois especulá-las com 'frieza' e lâmina de obsidiana.

    Fazer o Sādhana pra mim, olhando daqui, mirando o meu, parece mais calmo. Afinal, fazer Sādhana é (re)encontrar nosso rítmo natural e harmônico dentro dos rítmos exteriores (circadiano, do trabalho, ciclos mensais, etc...) e hábitos que nos cercam.

    Sempre brinco que eu uso a cartilha 'caminho suave', que minhas provas vem respondidas só pra escrever o nome, no máximo passar a caneta por cima do que já está escrito à lápis. E eu não acredito em 'destino', é que tudo me parece alcançável ou possível, se não agradável (ainda que no início da prática de āsanas eu sinta o corpo meio rígido, mas isso passa rapidinho!). E tenho espaço na vida para o imprevisto, para que 'dê errado' (o que por muitas vezes, olhando de longe, se mostrou correto, :-)! ) .

    É que tudo me parece simples:
    praticar e pesquisar os āsanas e pranayamas, meditar, manter o fio da atenção ao longo do dia, estudar, observar, procurar experimentar o igual de forma inusitada e experimentar o diferente com consideração semelhante, respeitar a diferença do dia, do momento. Se alguém fez, é possível a todos, cada um a seu tempo.

    Desde 2002, quando iniciei minha jornada no Yoga, só 'fugi da escola' durante um ano, onde visitei a borda do territorio do Sādhana perdido. E mesmo esse ano 'sabático' , que eu julgava desorientado e danoso, serviu de fomento para meu Sādhana.

    Se eu soubesse, de antemão, TUDO o que o Yoga vem me ofertar, eu tinha me jogado bem antes.

    20090210

    Aritmética


    'Shiva sem Shakti é um cadáver (shava).'


    Este é um interessante trocadinho ‘aritmético’ que a grafia dos dois nomes Shava (cuja fonética aproximada em português é chava) e Shiva (cuja fonética aproximada em português é chiva) permite, expressando fielmente um conceito tântrico.

    O sâncrito é escrito com caracteres em devanāgarī (cuja pronúncia aproximada em português é devanaagarii) que é um alfabeto alfa-silábico, ou seja, cada letra representa um fonema.

    No devanagari, as letras são unidades fonéticas onde o a já está incluído, e como unidades fonéticas, são irredutíveis, diferente do alfabeto latino, onde as consoantes são 'surdas' (sem som) e precisam do acréscimo obrigatório de uma vogal para soar.
    Para transformar o som do a no som das outras vogais, um elemento chamado diacrítico é acrescentado.

    Para transformar o a em i, acrescentamos o sinal diacrítico:
    Dessa maneira, se grafa:
    Portanto, assim se escreve Shiva:E dessa maneira: Shava
    Se o sinal i for omitido ao escrever-se o nome de Shiva em devanagari, a escrita equivale a Shava. Sem esse i simbólico, Shiva é apenas um cadáver — Shava.
    Shiva sem Shakti é Shava.

    Sem a energia do poder da manifestação conhecida como Shakti que tudo ativa e vitaliza, do impulso criativo e procriador, o Absoluto em essência, Aquele que está em Si e Existe por Si Mesmo, perfeito, imutável, se torna sem vida, inerte.


    Obs.:
    Devanāgarī = deva (divindade) + nagari (cidade)="a (escrita) da cidade dos deuses".

    Reza a lenda que esse alfabeto foi um presente dos deuses para a humanidade. Como os sons do sânscrito.

    E que os deuses são seres conscientes como nós, seres humanos, que viveram uma vida humana virtuosa o suficiente para reencarnarem numa existência divina, porém, insuficiente para escapar da roda das reencarnações.

    E que nada é mais divino que uma existência humana, através da qual podemos alcançar a liberdade absoluta.

    20090209

    Impermanência e Plasticidade



    Plasticidade parece ter mais a ver com impermanência.

    O corpo humano é todo plástico: todas as nossas células são substituídas e a cada 7 anos temos um corpo totalmente renovado. Os neurônios podem se recombinar, defazendo e (re)fazendo conexões, caminhos que cada vez que utilizamos são reforçados para pensar, para se movimentar. ( E o contrário vale para as conexões neurais que não são utilizadas, que se enfraquecem até se romper.)

    Uma boa pista do refroço da manifestação da permanência no corpo parecem ser nossos hábitos cotidianos: o que comemos, o que e como fazemos, o que pensamos.

    O que comemos modifica a química dos líquidos que existem em nosso corpo (sangue, linfa, enzimas, líquido intersticial e celular) e essa mudança pode ajudar ou atrapalhar os mecanismos de homeostase do organismo.

    O que comemos também tem ação direta sobre o funcionamento de nosso cérebro: uma alimentação inadequada pode estimular o cérebro a funcionar freneticamente, gerando um excesso de estímulos que podem ser traduzidos no corpo como pensamentos repetitivos, ou pela produção excessiva de um ou mais neurotransmissores que podem estimular além do necessário os processos celulares ou a produção de enzimas e hormônios.

    Quando nos observamos em momentos diversos, estamos nos dando um chance de distingüir a homeostase da permanência e de perceber a riqueza de nossa plasticidade.

    Um bom lugar para treinar a auto-observação e praticar plasticidade integralmente é freqüentando práticas de Hatha Yoga, onde se aprende a observar o corpo todo (corpo-emoção-mente), novas sensações são provocadas que podem ou não serem aceitas e agregadas pelo praticante na rotina habitual.

    20090208

    Impermanência e Homeostase



    Homeostase é uma capacidade que qualquer organismo possui de manter tudo como está.

    É uma habilidade notável e desejável na manutenção da estrutura física e processos bioquímicos, uma vez que muitos seres vivos só permanecem viventes dentro de determinadas faixas de temperatura corporal, hidratação, pH e concentração de gases e glicose fluídos corpóreos,... e a lista pode proseguir e ficar gigantesca. (Para os números, consultem o oráculo=Google.)

    Homeostase também pode ser a necessidade de se manter tudo como está, de não mudarmos nossos hábitos, nossas relações e reações, nossas posturas mentais, emocionais e físicas.

    "Tudo como d'antes no país de Abrantes."

    Podemos associar a homeostase como um ensejo de permanência.

    Poderíamos vincular homeostase com desejo de reter, de segurar ( e não de assegurar).

    E aí eu viria com aquele velho discurso de deixar sair ou aquele Power Point "Mude" que já deu 390578493 voltas pelo mundo internético, o que seria mais um bom exemplo de uso equivocado da homeostase.

    E a capacidade de mudar não é bem assim: ela está vinculada ao Ego que é duro, feio, sujo (faltou o malvado) como o pericarpo(=casca) do côco, diriam uns... Porém, posso testemunhar e vários profissionais da área somática atestam que não é assim, nem é assado: a capacidade de mudar/(re)inventar o espaço externo e/ou interno está associada aos nossos conteúdos celulares e também à disciplina, que como dizia o poeta, é liberdade.

    20090207

    Prática e desapego

    Tsc...
    O vídeo de domingo de véspera.
    .lol.



    Blog do Isaac


    One Art
    Elisabeth Bishop

    The art of losing isn't hard to master;
    so many things seem filled with the intent
    to be lost that their loss is no disaster.

    Lose something every day. Accept the fluster
    of lost door keys, the hour badly spent.
    The art of losing isn't hard to master.

    Then practice losing farther, losing faster:
    places, and names, and where it was you meant
    to travel. None of these will bring disaster.

    I lost my mother's watch. And look! my last, or
    next-to-last, of three loved houses went.
    The art of losing isn't hard to master.

    I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
    some realms I owned, two rivers, a continent.
    I miss them, but it wasn't a disaster.

    -Even losing you (the joking voice, a gesture
    I love) I shan't have lied. It's evident
    the art of losing's not too hard to master
    though it may look like (Write it!) like disaster.


    Uma Arte

    “A arte de perder não é nenhum mistério;
    Tantas coisas contêm em si o acidente
    De perdê-las, que perder não é nada sério.

    Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,
    A chave perdida, a hora gasta bestamente.
    A arte de perder não é nenhum mistério.

    Depois perca mais rápido, com mais critério:
    Lugares, nomes, a escala subseqüente
    Da viagem não feita. Nada disso é sério.

    Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
    Lembrar a perda de três casas excelentes.
    A arte de perder não é nenhum mistério.

    Perdi duas cidades lindas. E um império
    Que era meu, dois rios, e mais um continente.
    Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

    – Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo
    que eu amo) não muda nada. Pois é evidente
    que a arte de perder não chega a ser mistério
    por muito que pareça (Escreve!) muito sério. “
    (Tradução de Paulo Henriques Britto)

    20090206

    Laban


    ‘Rudolf Jean-Baptiste Attila Laban nasceu na Bratislava (região do antigo império formado por Áustria e Hungria) em 15 de dezembro de 1879. O pai era militar a serviço do império e sua mãe uma linda mulher de tendências socialistas. Laban teve duas irmãs. Desde sua infância observava a dança dos camponeses, seus movimentos de trabalho e o movimento dos planetas, das plantas, dos animais. Na adolescência, começou a viajar amiúde para visitar o pai, que ficava baseado em diferentes lugares. Essas viagens foram marcantes em sua formação sobre o comportamento humano. Laban foi para uma escola de cadetes, porém não terminou o curso. Decidiu ser artista e procurar gente que pensava como ele (segundo suas próprias palavras). Essa decisão contrariou profundamente seu pai e nunca mais suas relações foram de afeto. Laban não obteve algum tipo de ajuda financeira por parte de seu pai. Passou por dificuldades durante toda sua vida. Partindo de sua terra natal, Laban foi para Paris onde estudou pintura, desenho (foi um excelente caricaturista), arquitetura. Estudou bale clássico, frequentava os cabarés e observava o movimento - todos os tipos de movimento. Laban viveu toda a transformação do início do século XX. Conheceu a intelectualidade e artistas de seu tempo. Teve oito filhos e muitas mulheres, às vezes mais de uma ao mesmo tempo. Viajou por toda a Europa, formando alunos e colaboradores. Laban foi muito amado e também muito discriminado por ideias à frente de seu tempo. Era também bastante contraditório, trabalhou na "Ópera de Berlim" (seu primeiro emprego fixo), na época da ascensão do nazismo. Fez a dança para abertura dos Jogos Olímpicos de 1936. Goebbels, ministro de Hitler, assistiu ao ensaio e proibiu a grande dança coral. Laban foi preso durante um ano. Ficou muito debilitado, sua saúde tornou-se frágil a partir de então. Kurt Joss (seu colaborador, coreógrafo, professor de Pina Bausch), conseguiu levá-lo para Paris e de lá para a Inglaterra. Dartington Hall foi o centro de estudos que acolheu Laban no início. Foi nessa escola que Maria Duschenes (introdutora do método Laban no Brasil) conheceu Rudolf Laban. Na Inglaterra, ele viveu o resto de sua vida e foi onde sistematizou, com a ajuda de fiéis colaboradores, entre eles Lisa Ullmann, a obra que já vinha elaborando desde 1910 . Laban era fascinado pelas múltiplas e diversas manifestações do movimento. Criou oreografias que instauraram o expressionismo na dança. É considerado, junto à Mary Wigman e Martha Graham, um dos fundadores da dança moderna. Criou um sistema de notação da dança bastante completo [Labanotation ou Kinetografia] e utilizado ainda hoje. Desenvolveu um método de dança educacional que se tornou verdadeira cartilha básica para professores, em diversos países. Realizou estudos sobre eficiência e cansaço no trabalho. Buscou incentivar a criação de uma dança pessoal e expressiva, por meio de improvisações temáticas. Trabalhou também com atores e terapeutas. Fez grandes danças corais (com até mil pessoas). Laban morreu em 1° de julho de 1958. No seu túmulo há um lápide com os seguintes dizeres:
    "Uma vida para a dança Rudolf Laban".’

    Breve e informativa biografia de Laban que Lenira Rengel disponibiliza em seu livro ‘Dicionário Laban'. Lenira Rengel, que é bailarina, pesquisadora e educadora somática generosa foi aluna de dona Maria Duschenes. A escrita entre [ ] é minha.

    20090205

    Natarāja


    Os mitos associados a Shiva Dançarino Cósmico descrevem dois tipos principais e antagônicos de dança:

  • Tāndava, a manifestação dançante irada do deus, dança feroz, efusão violenta e frenética das energias divinas, instigada por uma energia explosiva e arrebatadora, insinua o bailado guerreiro cósmico, cujo objetivo é despertar as energias destrutivas que irão destruir o inimigo; é ao mesmo tempo, a dança triunfante do vitorioso.

  • Lāsya, a expressão benigna bailada de forma suave, doce e lírica, que exprime as emoções do amor e da ternura.

  • Shiva e Vishnu se alternam nos mitos de expansão, manutenção e contração do universo manifesto.

    Shiva, como demiurgo, baila sua dança ao mesmo tempo arrebatadora e enternecedora enquanto Vishnu repousa e sonha reclinado sobre as ondulações de Ananta, a serpente cósmica que ondula nas águas viventes do oceano primordial.

    Vishnu adormecido sente a impetuosa dança de Shiva (será que foi sonho?), e se agita sobre Ananta, que pergunta ao deva o que perturba seu sono, seu sonho, ao que Vishnu responde que nada o perturba, apenas se deixou estasiar pela dança de Shiva.

    Ananta então manifesta o desejo de ter a oportunidade de aprender a se mover com tal graça e Shiva lhe concede a graça de uma encarnação humana. E da conjunção do ensejo de Anata e da graça de Shiva, dizem , nasce Patanjali, filho da yoguini Gorika.

    Obs.:
  • Ananta (que significa Infinito) também é chamada Shesa (que significa o Remanescente, o resíduo)

  • nos dicionários, ondular, agitar-se, movimentar aparecem como sinômimos de dançar.

  • + O simbolismo de Shiva-Natarāja

    20090204

    Māyā


    Māyā, a Alma do Mundo, tem três poderes:

    O poder de obscurecer:
    Māyā filtra a luz como um prisma, polarizando-a, e por assim dizer, obscurecendo a luz branca da eternidade, a Luz-cidez.

    O poder de projetar:
    Māyā é como um prisma que ora decompõe a luz branca da eternidade em miríades de raios, das cores do arco-íris. Nestes raios são projetados todas as formas do mundo que vivenciamos, cada uma com sua cor. Alguém que desconhece o existir luz branca, una, acredita que o mundo é assim feito dos efeitos dos raios refletidos multicoloridos.

    O poder de revelar:
    se unirmos os raios multicoloridos num disco que gira, onde tudo que está em separado se torna perceptível junto, teremos a visão da luz branca da eternidade e da transcendência, a Luz-cidez se torna evidente.

    Em Māyā todo o imagético real e imaginário está representado.
    Dela, é o poder de projeção, o poder criativo, e por conseqüência, o poder da ilusão.

    20090203

    Dharma


    Dentro da tradição do Hinduísmo, Dharma é viver o seu dever.

    O Hinduísmo, assim como o Judaísmo é uma religião herdada: se nasce hinduísta. Portanto, vivenciar o Dharma, tradicionalmente, tem relação com seguir seu dever, de acordo com sua posição social (no máximo da formalidade, a casta) e com a disciplina adequada ao estágio da vida em que se encontra. Não se julga ou se critica o lugar onde se está há apenas o compromisso de ocupar o espaço e a função que lhe foi atribuída ao nascer. Esse é o ponto de vista tradiconal, que assegura que os valores emergem da vida, em todos os seus níveis. Porém, esses valores só podem vir à tona se forem aceitos, e não podem emergir se forem sempre alvo de elocubrações e críticas.

    Pedro Kupfer destaca em seu artigo "O Crime e o Valor", a escrita de Swami Dayananda no livro O Valor dos Valores (p. 16): “Em sânscrito, um valor ético pode ser definido como dharma, um padrão ou norma de conduta originado na maneira pela qual eu desejo que os outros me vejam ou me tratem. (...) Em outras palavras, minha norma para o que é um comportamento “apropriado” ou uma “boa” atitude é baseada na maneira em que eu desejo que os outros me tratem ou me vejam. O que espero ou desejo dos outros torna-se meu padrão de dharma, comportamento adequado. O que não quero que os outros façam é adharma, comportamento inadequado”.

    Porém, tratar os outros como se quer ser tratado ou visto não garante que isso vá contecer de vera, pois o emissor e a mensagem podem estar adequados e o receptor pode se manifestar defeituoso. Resultado: a recepção da mensagem fica distorcida, a deturpação revela o grau de ilusão do receptor.

    O Dharma deve rfletir a verdeda do coração e não o espelho, por vezes baço, do olhar alheio.

    Lado B: qual é a sua, de verdade?


    'Há uma história que ilustra a relação entre ego e dharma. É uma história que diz respeito a um membro dessa digna profissão: de professor. Na índia, "professor" traduz-se por guru; contudo, esta palavra define algo bem diferente daquilo que nós ocidentais entendemos por professor. "Professor", ou "mestre" para nós - pelo menos hoje - quer dizer alguém que transmite informação e alguém que o guia na sua vida, ajudando-o a superar crises que possam eventualmente surgir em seu caminho. Por sua vez, guru, significa alguém que é o seu modelo; cabe ao aluno identificar-se com o mestre, tornar-se como o mestre; o mestre tornou-se seu mestre e, assim, não há ninguém ali. O mestre simplesmente transmite o ideal, o dharma, adiante.

    Essa é a história de um aluno que um dia chegou atrasado à aula. O mestre lhe diz: "Você está atrasado. Aconteceu alguma coisa?"

    "Bem", diz o aluno, "Eu não conseguia chegar até aqui. Moro no outro lado do rio e ele inundou. Não havia nenhuma balsa e o ponto onde normalmente eu cruzo o rio estava muito fundo e, por isso, não pude vir até aqui".

    "Bem", diz o mestre, "Você finalmente conseguiu chegar. A balsa o trouxe? As águas do rio baixaram?"

    O aluno meneou a cabeça negativamente: "Não, o rio está do jeito que estava".

    E o mestre: "Então, como conseguiu vir até aqui?"

    Ele responde: "Pensei no meu mestre. Pensei: meu mestre é o veículo da verdade para mim, ele é meu deus, meu oráculo. Vou concentrar eu pensamento nele e caminharei sobre as águas, para cruzar o rio, e assim eu fiz. Pensei: Guru, guru, guru! e atravessei caminhando a inundação. Eis-me aqui".

    "Uau!", exclamou o mestre, "Eu não sabia que eu era capaz de fazer isso". É claro que o mestre não havia feito isso.

    Depois que o aluno vai embora, o mestre pensa que isso estava nele. Pensa consigo mesmo: "Vou tentar. Preciso ver como é que isso funciona". Então, olha em volta, para ver se não há ninguém observando. Ao ter a certeza de estar sozinho, aproxima-se das águas do rio, olha aquela forte correnteza e decide: "Vou fazer isso". E pensa: "Eu, eu, eu". Aproxima-se, entra no rio... e afunda feito uma pedra.

    O único motivo que leva alguém a caminhar sobre as águas é o fato de que lá não há ninguém; a pessoa é puro espírito, spiritus, vento. Em sânscrito, chama-se a isso prana. Na mente do aluno, esse mestre era um comunicador da verdade. Na mente do mestre, ele era um "Eu", e o eu pesa e afunda. '

    Joseph Campbell, em ‘Mitos de Luz – Metáforas Orientais do Eterno’, pás 131 e 132.

    Lado B:
    'Quando o discípulo está pronto, o mestre desaparece.'
    Zé Rodrix

    Comentário póstumo:
    desaparece, mas não necessariamente afunda. ;-)

    20090202

    Asas


    As asas do desejo.
    Dar asas ao desejo.
    O desejo de ter asas.
    Liberdade.

    Para voar é preciso duas asas.
    Equilibradas.
    Uma delas mais presente que a outra
    e lá se vai a eqüanimidade do voo.

    Uma asa é a liberdade,
    a outra é a disciplina.

    Como tem voo de todo jeito
    (longo, curto, alto, baixo),
    tem asa de toda forma:
    fraca, forte, curta, longa, gorda, afilada,
    que bate rápido ou devagar.
    O que não funciona é uma asa de cada jeito
    no mesmo ser avoante.

    20090201

    Bem lá no fundo, ou, cadê o seu tigrão?


    Aconteceu de uma tigresa prenhe e faminta se ferir mortalmente ao tentar caçar uma das cabras de um pequeno rebanho, porém ela conseguiu parir seu filhote antes do alento cessar.

    As cabras, retornaram ao local do ataque e deram com o filhote recém-parido e o acolheram como se este fosse um dos seus.

    O tigre cresceu se achando uma cabra, ou melhor, um bode, balindo, comendo capim e o que mais aparecesse pela frente que fosse mascável. Inesperadamente, o tigre sobreviveu à dieta de capim e ao modo de vida das cabras, que, claro, é anti-natural para um tigre. Não se fez lá um belo tigre adolescente, porém 'estava vivo'.

    Lá pelas tantas, um dia, um tigre macho estava em busca de alimento na região das cabras encontrou o rebanho e atacou as cabras, que fugiram assustadas. O tigrinho não fugiu, afinal, também era um tigre! Ficou meio atabalhoado, encarando o invasor.

    O tigrão olhou a cena encafifado e perguntou ao tigrinho:

    - Como assim, tigre, você vive entre as cabras?

    Teve como resposta um balido do tigrinho, que já dava conta de mascar uma moita de capim como desejum.

    O tigrão ficou passado, chocado com o fato de encontrar um semelhante vivendo em tais condições. Sacudiu o tigrinho, que continuou balindo, até deu-lhe uns bofetes para tentar tirá-lo do que supunha ser uma espécie de transe. Em desespero, o tigrão catou o tigrinho pelo cangote e o levou para a beira de um lago tranquilo.

    Na beira do lago o tigrão pediu ao tigrinho que comparasse a imagem de ambos refletida na superfície imóvel das águas do lago, e que reconhecesse que ambos eram tigres, e que não existia nenhum bode ali. O tigrinho, ainda com a ficha meio presa, soltou outro balido bobo enquanto mirava o reflexo de ambos no espelho das águas do lago.

    O tigrão catou-o de novo pelo cangote e o levou para sua toca, onde havia caça fresca. (Sim, vegetarianos, isso significa carne suculenta, e sangrenta que é o alimento natural para um tigre.) O tigrão empurrou um belo naco da carne para o tigrinho que fez cara de ai-que-nojo-sou-vegetariano, só que desta vez não baliu (talvez, agora, a ficha estivesse caindo...). O tigrão então enfiou o naco de carne goela a baixo do tigrinho, que refugou, engasgou, tentou cuspir longe, porém agora, um bocado da essência do alimento que nutre a sua verdadeira natureza corria pela primeira vez em suas veias. E essa comida certa fez seu corpo ressoar, vibrar. Então, o tigrinho soltou um inédito e talvez precário rugido, que foi o suficiente para o tigrão reconhecer o potencial do jovem tigre.

    E foram os dois pela floresta, em busca de mais comida de tigre.


    Esse conto a minha versão da estória, que segundo Joseph Campbell, era a favorita de Ramakrishna.