A coordenação da respiração é a coordenação de si mesmo, dos estados mentais e emocionais.
A respiração é a chave para uma existência longeva, com jovialidade.
É mais do que ter modos, ter verniz.
É deixar de (cons)pirar para respirar.
Qualquer atividade é um exercício muscular em sua substância, mesmo que a "atividade" seja estar deitado ou sentado o dia inteiro. "Atividade muscular" não é somente tônus e tensão, é também relaxamento e hipotonia.
Se filmássemos um indivíduo continuamente durante um mês, poderíamos fazer depois uma estatística de suas atitudes e atividades típicas. A estatística ainda não foi feita, mas tenho para mim que nos surpreenderíamos com o quanto é reduzido o número dessas posições e movimentos, e quanto é invariável sua sequência. Qualquer adaptação nova compromete estas formas e sequências. É preciso que a pessoa re-molde seus "clichés". A descrição motora da personalidade e da neurose vai aqui.
Está implícito que a cada forma de estar e agir correspondem motivos, significados e valores. Em nosso estudo, transitamos fácil e frequentemente da conduta para a mente e vice-versa.'
José Angelo Gaiarsa, em 'A Estátua e a Bailarina', pag. 209.
Hatha Yoga é uma prática física e é uma prática psíquica.
É uma 'coisa quântica', semelhante à maneira como a matéria é tratada nessa modalidade da Física: onda e partícula.
A maior diferença entre a prática de Hatha Yoga e todas as demais práticas físicas é que nenhuma delas provoca a alteração dos automatismos.
A maior diferença entre o Hatha Yoga e as práticas psíquicas é que se torna desnecessário o entendimento objetivo ou racional (e cartesiano) do fato/momento/situação/processo que levou o indivíduo a construir um automatismo para desmontá-lo e re-estruturar-se.
A prática regular do Hatha Yoga cura (a fisiologia d)o corpo, e o corpo muda (a psicologia d)a mente.
Mas, o que é, como se forma um automatismo?
Basicamente, um automatismo decorre da sensação de recompensa que uma atitude neurótica adquire fora de seu contexto original. Automatismos se escondem nos nossos hábitos (que temos coragem, ou não, de chamar de vícios).
Um automatismo se forma quando uma atitude neurótica 'serve' para obter algum tipo de recompensa ou satisfação em uma situação independente (que vamos chamar de 'situação 2') daquele acontecimento em que a atitude corporal se originou e, por consequencia, passa a ser utilizada como forma de obter recompensa ou satisfação em acontecimentos semelhantes à situação '2'. E isso tudo acontece sem que o indivíduo tenha consciência, pois geralmente os seres humanos não sabem dizer como se movimentam, nem o que se passa com sua musculatura, suas articulações em cada atitude que assumem, mas sabem se 'lembrar' e se colocar fisicamente parecidos em posturas/posições/atitudes que lhes causam 'satisfação' ou que estimulem o mecanismo de recompensa.
Quer mais?
Leia o texto abaixo, do Gaiarsa:
Estávamos procurando mostrar que as atitudes nunca são reprimidas, e que este processo psicofisiológico alcança apenas as ações ou as palavras. Esta afirmação é simplificada. Ao se reprimir uma ação, modifica-se a atitude inicial. Se exigirmos de uma criança que pare de chorar, ela consegue nos obedecer enrijecendo estes ou aqueles grupos musculares. Cessa o choro, mas a atitude repressora também é significativa ou expressiva.
A inibição de uma ação compõe uma atitude apta a servir de base a uma nova ação também adequada — mas a uma outra situação. Por exemplo, a mesma criança que proibimos de chorar. Temendo mal maior, a criança consegue não chorar à custa daquela sabedoria muscular da qual já tanto falamos; seus olhos se apertam, sua garganta se aperta, seus ombros se apertam. Ao cabo do processo, ela está com a atitude do ressentido, dura de corpo e de espírito. Pouco depois, ela sai à rua e reúne-se a seu bando. Ninguém sabe por quê, neste dia ela se faz líder do grupo e vencedora em uma batalha simulada. A atitude dura, gerada pela inibição do choro, adquiriu função em situação diferente da original. A isso o psicanalista chama "vantagem secundária da neurose". Notemos que a vantagem é secundária em relação ao tempo, mas não quanto à importância. A liderança pode se fazer e ser uma grande satisfação. Mas aparece claro no exemplo o quanto esta liderança não era o que a criança pretendia originalmente. Além do mais, a atitude de líder, formada em certa medida acidental¬mente, pôs a criança em outro mundo - longe do lugar, do tempo e da pessoa que a repreendeu. Saindo à rua quase em transe sonambúlico, a criança foi levada — provavelmente pela atitude "sem objeto" que a animava - para o grupo, em busca de um apoio ou de um consolo — quem sabe. Uma vez no grupo, a tenacidade ou a força da contenção que nela se exercia, começou a atuar fora dela e a organizar o grupo. Creio que a criança só "acordou" — em nosso exemplo — quando se sentiu senhora da atividade do conjunto. É muito pouco provável que a criança - ou mesmo um adulto em seu lugar - percebesse a relação entre o choro contido e a liderança subsequente. Tudo o que é importante nesta sequência de fatos está nos movimentos e nas atitudes. Deixe alguém de considerar o plano motor, e toda explicação subsequente da relação entre a mágoa contida e a liderança se torna um romance confuso ou uma teoria esotérica.
José Angelo Gaiarsa, em 'A Estátua e a Bailarina', pag 144.
" A propriocepção transforma a mecânica do corpo em sensação e neste ato torna as forças musculares, forças da consciência - ou do inconsciente" (Gaiarsa, A Estátua e a Bailarina, pag 58)
"Não somos achatados pela força da gravidade, mas pelas ações musuclares que buscam lutar contra ela, quando tais ações se tornam excessivas." (Francçoise Mézières, em Aspectos Biomecânicos: Cadeias Muscuclares e Articulares - Método G.D.S.(Noções Básicas), de Philippe Campignion, pag 21)
Quem pensa não presta atenção,
quem pensa não respira...
'...o que é estranho é que as pessoas não percebam isso: elas sentem ansiedade, sentem o medo.
Vão no(sic) médico, (ele) diz: não, ansiedade, toma um remédinho, fica tudo bom...
A inconsciência médica da situação das pessoas no mundo é espantosa: o organismo é assim, ele desfunciona assim, o remédio é assim. O cara não está no mundo, não tem família, não tem emoções, não tem nada. Dá um remedinho que ele fica bom, tira ele do mundo. '( Gaiarsa)
A maioria de nós se torna cada vez mais desligada dos processos vívidos, aqueles que mantém nossa vitalidade e nosso contentamento. A inconsciência não é apenas médica, é da grande maioria das pessoas. Quem sabe que a pressão alta pode ter origem mecânica, devido à tensão muscular que o excesso de força dos gestos e o estresse podem gerar? Assim como a hipertensão, vários sintomas de doenças crônicas podem ter origem não metabólica e essa origem não é sequer mencionada pelos agentes de saúde.
Precisamos compreender que nossa vida é um tecido rendado, que muitos fatores estão interligados e interferem na nossa atitude individual se não temos o propósito de nos conhecermos melhor e nos auto-educarmos continuamente.
O Hatha Yoga é uma oportunidade de se conhecer, de se re-conhecer, de estabelecer um projeto de auto-educação para curar nosso corpo, coordenar nossas emoções e pensamentos, iluminar nossos sentimentos.