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20110318

Automatismos

Hatha Yoga é uma prática física e é uma prática psíquica.

É uma 'coisa quântica', semelhante à maneira como a matéria é tratada nessa modalidade da Física: onda e partícula.

A maior diferença entre a prática de Hatha Yoga e todas as demais práticas físicas é que nenhuma delas provoca a alteração dos automatismos.

A maior diferença entre o Hatha Yoga e as práticas psíquicas é que se torna desnecessário o entendimento objetivo ou racional (e cartesiano) do fato/momento/situação/processo que levou o indivíduo a construir um automatismo para desmontá-lo e re-estruturar-se.

A prática regular do Hatha Yoga cura (a fisiologia d)o corpo, e o corpo muda (a psicologia d)a mente.


Mas, o que é, como se forma um automatismo?

Basicamente, um automatismo decorre da sensação de recompensa que uma atitude neurótica adquire fora de seu contexto original. Automatismos se escondem nos nossos hábitos (que temos coragem, ou não, de chamar de vícios).

Um automatismo se forma quando uma atitude neurótica 'serve' para obter algum tipo de recompensa ou satisfação em uma situação  independente (que vamos chamar de 'situação 2') daquele acontecimento em que a atitude corporal se originou e, por consequencia, passa a ser utilizada como forma de obter recompensa ou satisfação em acontecimentos semelhantes à situação '2'. E isso tudo acontece sem que o indivíduo tenha consciência, pois geralmente os seres humanos não sabem dizer como se movimentam, nem o que se passa com sua musculatura, suas articulações em cada atitude que assumem, mas sabem se 'lembrar' e se colocar fisicamente parecidos em  posturas/posições/atitudes que lhes causam 'satisfação' ou que estimulem o mecanismo de recompensa.

Quer mais?
Leia o texto abaixo, do Gaiarsa:


Estávamos procurando mostrar que as atitudes nunca são reprimidas, e que este processo psicofisiológico alcança apenas as ações ou as palavras. Esta afirmação é simplificada. Ao se reprimir uma ação, modifica-se a atitude inicial. Se exigirmos de uma criança que pare de chorar, ela consegue nos obedecer enrijecendo estes ou aqueles grupos musculares. Cessa o choro, mas a atitude repressora também é significativa ou expressiva.

A inibição de uma ação compõe uma atitude apta a servir de base a uma nova ação também adequada — mas a uma outra situação. Por exemplo, a mesma criança que proibimos de chorar. Temendo mal maior, a criança consegue não chorar à custa daquela sabedoria muscular da qual já tanto falamos; seus olhos se apertam, sua garganta se aperta, seus ombros se apertam. Ao cabo do processo, ela está com a atitude do ressentido, dura de corpo e de espírito. Pouco depois, ela sai à rua e reúne-se a seu bando. Ninguém sabe por quê, neste dia ela se faz líder do grupo e vencedora em uma batalha simulada. A atitude dura, gerada pela inibição do choro, adquiriu função em situação diferente da original. A isso o psicanalista chama "vantagem secundária da neurose". Notemos que a vantagem é secundária em relação ao tempo, mas não quanto à importância. A liderança pode se fazer e ser uma grande satisfação. Mas aparece claro no exemplo o quanto esta liderança não era o que a criança pretendia originalmente. Além do mais, a atitude de líder, formada em certa medida acidental¬mente, pôs a criança em outro mundo - longe do lugar, do tempo e da pessoa que a repreendeu. Saindo à rua quase em transe sonambúlico, a criança foi levada — provavelmente pela atitude "sem objeto" que a animava - para o grupo, em busca de um apoio ou de um consolo — quem sabe. Uma vez no grupo, a tenacidade ou a força da contenção que nela se exercia, começou a atuar fora dela e a organizar o grupo. Creio que a criança só "acordou" — em nosso exemplo — quando se sentiu senhora da atividade do conjunto. É muito pouco provável que a criança - ou mesmo um adulto em seu lugar - percebesse a relação entre o choro contido e a liderança subsequente. Tudo o que é importante nesta sequência de fatos está nos movimentos e nas atitudes. Deixe alguém de considerar o plano motor, e toda explicação subsequente da relação entre a mágoa contida e a liderança se torna um romance confuso ou uma teoria esotérica.

José Angelo Gaiarsa, em 'A Estátua e a Bailarina', pag 144.

20101128

Pescaria: Respiração e Expressividade


3. O yoga: influência

O yoga, já mencionado anteriormente, foi uma das maiores influências que Graham teve no processo formativo de sua técnica. É importante esclarecermos que a formação de uma técnica não foi o principal objetivo desta coreógrafa em sua carreira. Segundo CAVRELL (1998), a técnica surgiu das necessidades impostas pelas criações coreográficas de Graham, seu objetivo primeiro. A técnica veio como consequência, diferentemente do caminho de Doris Humphrey que já objetivava a sistematização de uma técnica, uma forma de se coreografar.

Observamos a influência do yoga em Graham não apenas através de citações bibliográficas. Pudemos reconhecer posturas do yoga ou essência destas posturas em vários exercícios técnicos e em suas coreografias. Além disso, a preocupação com a respiração e a coluna também são preocupações da filosofia yogue.

O yoga surgiu na índia em consequência a uma necessidade de explicação ao mistério da vida, às crenças... Os sábios procuravam, então, observar a movimentação de animais e plantas, "transferindo para os homens os seus movimentos e formas, a fim de obterem a flexibilidade dos corpos, a calma e o repouso mental" (FERNANDES,N.-YOGA Terapia: O Caminho da saúde física e Mental. São Paulo: Ground, 1994: pág.22). Num sentido mais profundo yoga é um estado de mente livre de tendências reativas, um estado de consciência pura. Segundo FEUERSTEIN (Uma Visão Profunda do Yoga: teoria e prática. São Paulo: Pensamento, 2005), "o objetivo tradicional do yoga sempre foi o de ocasionar uma profunda transformação no praticante por meio da transcendência do ego".

Yoga é um sistema filosófico, organizado por Patanjali em seus yoga-sutras e costuma ser denominado como ashtanga yoga ou yoga de 8 membros. O yoga é um dos seis darshanas (escolas filosóficas ou sistemas) indianos, cujo objetivo é a educação integral do ser, o perfeito desenvolvimento corpo-mente.

Patanjali compilou todo este sistema no século II a.c., sintetizando a essência da filosofia yogue. A partir destas observações originaram-se os principais caminhos do yoga: Hatha, Karma, Raja, Jnâna, Bhakti. Hoje existem outras denominações e linhas que foram sendo modificadas e criadas. Até mesmo no Brasil foram criadas novas linhas do yoga. Desta forma, fica difícil catalogar todos os tipos existentes. Porém, a origem é a mesma. Segundo MEHTA (1995), de acordo com a codificação de Patanjali, oito instrumentos juntos constituem a totalidade da disciplina do yoga: abstinências (Yama), observâncias (Niyama), posturas (Asanas), controle da respiração (Pranayama), abstração (Pratyahara), percebimento (Dharana), atenção (Dhyana) e comunhão ou absorção (Samadhi):

- Yama -as abstinências-são a não-violência, a não-falsidade, o não-roubar, a não-indulgência e a não-possessividade.

- Niyama - as observâncias - são pureza, contentamento, simplicidade, auto-estudo e aspiração.

- Asanas são posturas que devem ser praticadas de forma firme e relaxada. Firme, contudo, não tensa; relaxada, e ainda assim graciosa.

- Pranayama - controle da respiração - é a regularização do sopro, e tem o propósito de trazer clareza de percepção.

- Pratyahara é a abstração dos sentidos, é um estado de introspecção em que estamos prestes a entrar em profunda reflexão ou meditação.

- Dharana - percebimento - é a orientação da mente em uma só direção, sem qualquer tensão. Leva à atenção total, plena. Leva à meditação.

- Dhyana - atenção - é a meditação propriamente dita.

- Samadhi - comunhão ou absorção - é um processo de interiorização, em que o corpo e os sentidos repousam, enquanto a mente e a razão ficam conscientes e ativas. É uma experiência de silêncio, de descontinuidade. A vida experimentada de momento a momento. É a percepção pura. Samadhi é um "estado de independência de condicionamentos passados e de reconhecimento da interdependência existencial entre todas as coisas do universo" (DE NUCCIO, 2006).

Para a pesquisa nos interessaram o terceiro e quarto instrumentos do yoga, que se referem à prática das posturas e ao pranayama (controle sobre o prana e, portanto, sobre a respiração). Utilizamos as posturas, onde pudemos reconhecer a técnica de chão de Graham, e outras específicas para o relaxamento de tensões localizadas nas práticas em grupo desenvolvidas pela pesquisa.

"As práticas do yoga promovem a estabilidade do corpo, fazendo desaparecerem as dores e aumentando a liberdade de movimentos" (FERNANDES,N.-YOGA Terapia: O Caminho da saúde física e Mental. São Paulo: Ground, 1994: pág.34). Tendo em vista o objetivo das práticas desta pesquisa, que foi a utilização da respiração como auxiliar em busca da expressividade, tentamos promovera liberação da respiração, ampliando a conscientização e flexibilidade corporal, tornando o corpo mais apto a expressar-se.

Utilizamos, mais especificamente, as posturas do Hatha-yoga, que é o yoga do físico, e os exercícios respiratórios, encontrados em diversas correntes do yoga. O objetivo das posturas "é permanecer numa posição firme, mas sem tensões. Ao manter-se numa postura, confortavelmente, encontra-se o equilíbrio mental. /.../" Quando praticadas corretamente, as posturas "deixam os discípulos vigilantes, relaxados e sem dores" (FERNANDES,N.-YOGA Terapia: O Caminho da saúde física e Mental. São Paulo: Ground, 1994: pág.28). A execução das posturas do yoga está sempre aliada à respiração. E também existem exercícios respiratórios específicos no chamado pranayama. O objetivo da execução destes exercícios na parte prática da pesquisa foi liberar tensões musculares e aumentar a conscientização com relação à respiração e ao corpo.

As semelhanças, em termos de preocupação, do yoga com a técnica de Graham encontram-se, mais enfaticamente, em torno da respiração. Em primeiro lugar, ambas dão importância fundamental a este ato essencial à vida. Graham estruturou os princípios de sua técnica nos movimentos decorrentes do processo respiratório. Em segundo lugar, a coluna como uma preocupação constante, o extremo trabalho enfocando a coluna, suas torções, a sustentação do corpo através dela, que podemos verificar em Graham reflete a sua influência pela Kundalini yoga, levantada por MILLE (1991).

Segundo a Kundalini yoga, dentro do miolo da coluna encontra-se um conduto energético, cuja extensão vai da base da coluna até o alto da cabeça. Nesta região flui uma poderosa energia, denominada energia kundalini. Nas laterais esquerda e direita deste centro energético, dois canais acessórios correspondentes ao feminino e ao masculino, se enrolam em torno da coluna como cobras, em sentido ascendente. Este enrolamento destas últimas duas energias forma cruzamentos, denominados 'chakras' ou círculos de energia, centros de consciência.

O grande desafio da Kundalini yoga é "despertara energia em estado potencial na base da coluna e fazê-la subir, através do canal interno, passando por todos os cakras, até atingir o topo do conduto; momento em que o estado de consciência atigiria sua maior expansão" (DE NUCCIO, 2006).

Correlaciona-se a cada cakra um ponto específico da coluna, além de determinados aspectos do comportamento, do desenvolvimento humano, determinados sistemas físicos e seus respectivos órgãos:

- Chakra da raiz (Muladhara): Localiza-se na base da coluna, no períneo, entre o ânus e os genitais. Relaciona-se com as necessidades básicas de sobrevivência e à estabilidade. Está associados aos pés, pernas, ossos, intestino grosso e às glândulas supra-renais. Sua cor é vermelha.

- Chakra do sacro (Svadisthana): Localiza-se na região dos genitais, no plexo do sacro. Relaciona-se à sexualidade, ao prazer, à criatividade, à auto-confiança e ao bem estar. Está associado ao sistema reprodutor, ovários, testículos, bexiga, rins, sistema circulatório. Sua cor é laranja.

- Chakra do plexo solar (Manipura): Localiza-se na região do umbigo, entre a décima segunda vértebra torácica e a primeira vértebra lombar. Relaciona-se à vontade, ao poder, às emoções intensas: riso, alegria, raiva. Está associado ao sistema digestivo, fígado, baço, estômago, intestino delgado e ao pâncreas. Sua cor é amarela.

- Chakra cardíaco (Anahata): Localiza-se próximo ao coração, entre a quarta e a quinta vértebra torácica. Relaciona-se com sentimentos de afeição, compaixão, amor. Está associado ao pulmão, ao timo, coração, braços e mãos. Sua cor é verde.

- Chakra laríngeo (Vishuddi): Localiza-se na região da garganta. Relaciona-se com a comunicação, expressão, criatividade, intuição. Está associado ao pescoço, ombros, garganta, tireóide e paratireóide. Sua cor é azul.

- Chakra frontal (Ajna): Localiza-se na testa, entre as sobrancelhas. Relaciona-se aos poderes da mente, auto percepção e auto controle. Está associado aos olhos, hemisférios cerebrais, à hipófise ou glândula pituitária. Sua cor é anil.

- Chakra coronário (Sahasrara): Localiza-se no alto da cabeça. Relaciona-se ao esclarecimento, à bem-aventurança, à compreensão da realidade transpessoal. Está associado ao córtex cerebral, à glândula pineal, a todo o corpo. Sua cor é violeta (OZANIEC, 1990).

6. Os conceitos do yoga são amplos, profundos. As informações aqui descritas visam apenas dar um breve contexto desta influência para uma melhor compreensão da técnica de Craham. Maiores informações podem ser consultadas na bibliografia de referência.
7. Existem variações nas obras de referência, a data provável oscila entre os séculos II a.C. e II d.C.
8 e 9. Professor Andês De Nuccio do Instuituto de yoga Isvara de Campinas em entrevista concedida.


Pescado do livro Respiração e expressividade: práticas corporais fundamentadas em Graham e Laban, de Patrícia Leal, São Paulo: AnnaBlume, 2006: páginas 24 a28.

20100802


"Meu (...) objetivo é mostrar a relevância dos ensinamentos morais do Yoga para a humanidade contemporânea, especialmente à luz  da crise global atual. Sei que moralidade  é um termo da moda (...). Talvez seja precisamente a visível ausência de uma perspectiva moral em nossa sociedade ocidental contemporânea que torna algumas pessoas intolerantes em relação à própria palavra. (...)
Eu gostaria de iniciar dizendo que o Yoga não deve ser medido pelo charme de suas posturas físicas espetaculares, ou os estados fabulosos de meditação, que produzem tanto fascínio em nós, nos tempos modernos. (...)
O cerne do processo do Yoga, que conduz o praticante de um estado de existência inautêntica até o ser autêntico, não é glamuroso e prossegue por meio da transformação gradual e silenciosa do corpo-mente de cada pessoa e de sua vida diária. Assim, a base de toda prática genuína de Yoga, como de qualquer outra disciplina espiritual no mundo, reside no campo do comportamento moral. É impossível ser um bom yogue ou yoguinī sem ser também um indivíduo moralmente maduro."
George Feuerstein, em "As virtudes do Yoga: antigos ensinamentos para esta época de crise global", pag  15 e 16

20100731

Annie Leibovitz - Christo, New York City -1981

" A propriocepção transforma a mecânica do corpo em sensação e neste ato torna as forças musculares, forças da consciência - ou do inconsciente" (Gaiarsa, A Estátua e a Bailarina, pag 58)

"Não somos achatados pela força da gravidade, mas pelas ações musuclares que buscam lutar contra ela, quando tais ações se tornam excessivas." (Francçoise Mézières, em Aspectos Biomecânicos: Cadeias Muscuclares e Articulares - Método G.D.S.(Noções Básicas), de Philippe Campignion, pag 21)

20100625

Concentração e Intimidade


"A meditação concentrada aumenta não apenas a capacidade vermos a vida com mais intensidade, como com maior aptidão para a intimidade. Muitas pessoas, quando a intimidade ou a intensidade de vida atinge um limiar que excede sua capacidade de sustentá-la ficam assustadas e retraem-se. Para fugir da intensidade de se sentir realmente próximo ou íntimo de outros, as pessoas em geral buscam um meio para embotar a sensibilidade ou liberar a carga de intensidade que se avolumou dentro delas. As estratégias para reduzir a sensibilidade incluem: embotar-se com nicotina, álcool ou comida em excesso; amortecer a sensibilidade física, carregando uma tensão excessiva ou aumentando de peso; ou manter-se ocupado, agitado e distraído. Algumas vezes, como uma maneira sutil de reduzir a carga de intensidade que cresce dentro de nós, respiramos pela boca em vez de pelo nariz. As estratégias comuns utilizadas para liberar a intensidade consistem em tornar-se inquieto — tamborilar ou bater com os pés, falar demais, contar piadas nervosamente ou buscar intensa descarga emocional ou sexual.

As práticas de meditação concentrada ou conscienciosa fortalecem a clareza e a paz mentais necessárias para se estar verdadeiramente presente, o que proporciona o surgimento de um senso de intimidade conosco e com os outros. A concentração nos ajuda não apenas a aumentar a capacidade de conexão e intimidade, mas a viver de uma maneira mais centrada, paciente, tolerante, atenciosa e compassiva."

Do livro 'O Poder da Meditação', de Joel e Michelle Levey, pag.80.


Na versão de uma praticante de Hatha Yoga pelo Método Iyengar associado a Bartenieff Fundamentals, Método Klauss Vianna, Cadeias Musculares, fica assim:

A pratica de āsanas amplia a capacidade de concentração em várias partes do corpo, até abranger cada estrutura e processo intracelular. A capacidade de concentração aumenta não apenas a capacidade vermos a vida com mais intensidade, como com maior aptidão para a intimidade. Muitas pessoas, quando a intimidade ou a intensidade de vida atinge um limiar que excede sua capacidade de sustentá-la ficam assustadas e retraem-se; já vi muito/as alunos na aula experimental ou iniciantes estranharem a intensidade de resposta sensorial do próprio corpo com a metodologia que uso para a prática de Hatha Yoga, se assustarem e irem embora fugindo da possibilidade de (re)viver . Para fugir da intensidade de se sentir realmente próximo ou íntimo de outros, as pessoas em geral buscam um meio para embotar a sensibilidade ou liberar a carga de intensidade que se avolumou dentro delas. As estratégias para reduzir a sensibilidade incluem: embotar-se com nicotina, álcool ou comida em excesso; amortecer a sensibilidade física, carregando uma tensão excessiva ou aumentando de peso; ou manter-se ocupado com atividades inúteis, agitado por emoções negativas e distraído com pensamentos recorrentes. Algumas vezes, como uma maneira sutil de reduzir a carga de intensidade que cresce dentro de nós, respiramos pela boca em vez de pelo nariz. As estratégias comuns utilizadas para liberar a intensidade consistem em tornar-se inquieto — tamborilar ou bater com os pés, falar demais, contar piadas nervosamente ou buscar intensa descarga emocional ou sexual.

A prática de āsanas concentrada ou conscienciosa fortalecem a clareza e a paz mentais necessárias para se estar verdadeiramente presente, o que proporciona o surgimento de um senso de intimidade conosco e com os outros. A concentração nos ajuda não apenas a aumentar a capacidade de conexão e intimidade, mas a viver de uma maneira mais centrada, paciente, tolerante, atenciosa e compassiva.


a.bran.ger
vtd 1 Abraçar, cingir.
vtd e vpr 2 Compreender(-se), encerrar(-se), incluir(-se).
 vtd 3 Abarcar.
vtd 4 Alcançar, chegar a.

20100624

Relaxado, porém alerta



"Para a maioria de nós, a experiência de relaxamento profundo é desprovida de conscientização e, na melhor das hipóteses, é insípida e onírica. E o auge do estado de alerta significa exatamente o oposto do estado relaxado, e, em tal circunstância, sentimos tensão física e mental. Ambos esses extremos estão longe do calmo deleite relaxado, porém alerta, do equilíbrio meditativo. Uma clássica analogia fala da afinação de um instrumento musical de cordas: se as cordas estão muito apertadas ou frouxas demais, a sonoridade não é muito agradável. De maneira semelhante, para encontrar as notas harmoniosas na meditação é necessário encontrar um equilíbrio dinâmico entre estar excessivamente alerta e excessivamente relaxado. O primeiro extremo gera tensão física e mental e consequentemente resulta em distração. O outro extremo do contínuo gera embotamento e peso, o que em geral provoca sono.

Especialmente no começo, grande parte de sua sessão poderá ser consumida buscando esse equilíbrio, trazendo a mente de volta de um torpor distraído ou embotamento para um estado de vigilância relaxada. No devido tempo, você se familiarizará com esse estado de ser. Durante as sessões de meditação, você será capaz de estar profundamente relaxado e extremamente lúcido ao mesmo tempo e, na vida cotidiana, descobrirá que sua visão de como as coisas são está menos condicionada e obstruída. Com essa compreensão aprofundada, você estará mais capacitado para optimizar suas respostas frente aos desafios e oportunidades de cada momento, com atitudes, palavras e ações mais criativas e compassivas."

Agora substitua  as palavras 'sessão' por 'prática' e 'meditação' por 'āsana'.

Do livro 'O Poder da Meditação', de Joel e Michelle Levey, pag.51 e 52.

20100606

As Cidades Invisíveis


Marco Polo descreve uma ponte, pedra por pedra.
― Mas qual é a pedra que sustenta a ponte? ― pergunta Kublai Khan.
― A ponte não é sustentada por essa ou aquela pedra ― responde Marco ―, mas pela curva do arco que estas formam.
Kublai Khan permanece em silêncio, refletindo. Depois acrescenta:
― Por que falar de predras? Só o arco me interessa.
Polo responde:
― Sem pedras o arco não existe.

Ítalo Calvino, em 'As Cidades Invisíveis', pag.79.

20100428

Ter ou não ter, eis a questão - Luz Contemporânea


LAVOISIER REVISITADO
Por Carlos Vogt

Pelo saldo
na natureza crua
que para o homem
é também caldo
de cultura
nada se cria
nada se perde
tudo se consome

Tudo o mais no artigo 'Ter ou não ter, eis a questão' da revista eletrônica 'Luz Contemporânea' (eu AMO revista eletrônica!)

20081125

Leitura de Cabeceira

Essas cadeias são "cadeias de comunicação e de trocas" no interior do corpo e com o exterior. Se meus tornozelos ignoram meus joelhos, se meus quadris não protegem minhas vértebras lombares e solicitam excessivamente as articulações sacro-ilíacas, se minha primeira junta cervi­cal não funciona harmoniosamente com a bacia, se minha mão direita não se coordena facilmente com o pé esquerdo etc., meu corpo está efetivamente em dificuldade, dificuldade de comunicação.

Este corpo cujos segmentos se isolam, como diriam os orientais, é "um corpo em que a ENERGIA não flui". Em todo caso, é um corpo cu­ja unidade está comprometida; as trocas deixam de acontecer em suas estruturas.

Além disso, se, para olhar para trás, for preciso mover todo o tron­co porque o pescoço está fixo, psíquica e/ou fisicamente, se os quadris não deslizam nas articulações coxo-femurais mas parecem se articular com a coluna lombar, quando a criança não vê o adulto utilizar seu cor­po em curvas e espirais, quando o cotidiano se limita a gestos rígidos, li­mitados, ela também, conformando-se ao modelo que observa, atrofiará seu próprio gestual.

Como então se efetuará a comunicação com o outro? Com qual linguagem corporal, quais expressões, qual gestual mecanizado, estereotipa­do... até mesmo no esporte?

Curiosa e paradoxalmente nossa época atingiu o ponto máximo da COMUNICAÇÃO, mas não se comunica com o corpo, de pessoa para pessoa. Nossa época facilita, amplia, favorece as trocas por meio de máquinas, aparelhos interpostos. O corpo, maravilhoso instrumento de co­municação, se contenta com próteses. É isso o progresso?

E, precisamente, essa ENERGIA de que falam misteriosamente os orientais, não seria ela algo que, em nós e ao nosso redor, poderíamos chamar de CALOR HUMANO?

Não seria ela simplesmente a VIDA que circula em nossos tecidos e se comunica graças a um olhar, a uma relação viva, pelos CONTATOS HUMANOS?

Esses contatos e interações acontecem em nós, conosco e com o meio, a partir de um corpo vivido, humanizado, concretizado e que fala! Que se expressa com a ajuda desses conjuntos psiconeuromusculares que mobilizam as cadeias ósseas e articulares e que ativam e vitalizam aquilo que a estrutura humana contém e protege. Com a ajuda de um corpo cujas "cadeias" ainda flexíveis circulam de uma ponta à outra, da cabeça às mãos e aos pés, para fazer e desfazer as posturas, a mímica e os gestos em múltiplas expressões, ricas em mobilidade, vida e sentido.


Godelieve Denis-Struyf, em 'Cadeias Musculares e Articulares' - O Método G.D.S.
pág. 17., caixa alta da autora.

20081120

Satyam, sivam, sundaram

A diferença entre ioga e dança é que o ioga é uma arte perfeita em ação, ao passo que a dança é uma arte perfeita em movimento. Na dança, existe a expressão externa por meio dos movimentos, e no ioga, embora exista um intenso dinamismo interior, a impressão do observador que vê o praticante é estática. O movimento pode ser muito sutil, mas a ação é intensa.

Todos estamos enredados na teia do desejo, da raiva, da cobiça, da paixão, do orgulho e do ciúme. Todos esses abalos emocionais acontecem conosco em nossa vida diária. O dançarino usa essas emoções e as transforma em expressão artística. O iogue trabalha para conquistá-las, como recomendou Patanjali: "Maitrï karunã muditã upeksãnãm sukha duhkha punya apunya visayãnãm bhãvanãtah chittaprasãdanam" cultivar a amistosidade, a compaixão, a alegria e a indiferença perante a felicidade e o pesar, a virtude e o vício, conduz à paz mental (Yoga Sütras, I, 33).

O iogue, assim como o artista, precisa respeitar o corpo. Sem forma e contorno, sem elegância e força, não se consegue ser nem iogue nem dançarino. Se você é artista, lembre que sejam quais forem os temas que você está expressando com a sua manifestação artística, todos eles dependem das experiências interiores e das ações com as quais um iogue também trabalha. Se um artista praticar ioga - se vocêestá tambem em contato com os níveis internos de seu ser - desenvolverá uma vasta gama de expressões, e sua arte se tornará aquilo que é conhecido como "satyam, sivam, sundaram”, ou verdadeira, auspiciosa e bela. Então a arte se torna divina, a chamada ioga-kalã, a arte que promove o auspicioso. Sem essa profundidade interior, a arte é conhecida como bhoga-kalã, ou arte pelo prazer. Esta tem o seu valor, também, é claro, mas se a intensidade e a devoção desaparecerem, ela pode facilmente degenerar em kãma-kalã, ou a arte pela gratificação sensual.

É necessário que haja uma mescla de bhoga-kalã e ioga- kalã, Se há só bhoga-kalã, a arte é simplesmente sensual e elevada; se só existe ioga-kalã, é por demais elevada e austera para ter valor para a sociedade. Para mobilizar, educar e inspirar as pessoas, esses dois níveis da arte precisam estar combinados e mesclados, a fim de que todos possam viver na luz perfeita que ilumina a consciência. Existe uma vívida vibração que permite a cada um de nós viver no campo da alma, de modo que esse corpo mortal poderá beber o néctar da alma imortal e, enfim, a arte se tornará divina.

B. K. S. Iyengar, A Árvore do Ioga (sic), pág 220 e 221.

Esta é uma das salas de aula do novo endereço do
Estúdio em Cena,
onde Yoga e Dança
dialogam
com todas as pessoas
que se dispõem a experimentar.


20081118

Estudar, aprender, reproduzir, copiar, observar, ensinar, criar...?


' Escrevi bastante, como se escreve um diário, dia após dia, anotando observações, questões, tentativas, resultados obtidos, reflexões e conclusões. Para ensinar precisei escrever e desenhar muito, organizando os cursos. Cem vezes sobre o papel reformulei minha obra. (...)

( Godelieve fala sobre a atitude de Campignion: ele diz de si mesmo) “ralei muito”; (Campignion) refez certos percursos, ampliou-os, não se contentou em aprender para reproduzir de modo idêntico o ensinamento recebido. Isso também deve acontecer nos cursos, em que o importante é não ser a fotocópia do professor ou imitar o guru. (...)


Prefácio de Godelieve para o livro ‘Aspectos Biomecânicos – Cadeias musculares e Articulares – Método G.D.S.’ de Philippe Campignion
Em itálico, acréscimos meus.

' Costumo ser indagado quanto a que exercícios devem ser feitos por uma pessoa que sofre deste ou daquele padecimen­to em particular. Não dou conselhos. Só digo: "Trabalhe para se livrar dos problemas". Conselhos não têm valor. Não posso recomendar exercícios determinados. Como saber o tipo de efeito que surtiriam? Eles precisam ser aplicados a cada caso em particular. Senão, seria como ler alguns livros para desco­brir que efeitos tem um certo medicamento, e depois ir à far­mácia, comprá-lo e toma-lo. '

B. K. S. Iyengar – A Árvore do Yoga
Foto: António

20081111

Cabeceira - Keleman & Godelieve


'Aqueles de nós que não habitam a própria carne, que não passam pelas satisfações profundas que os nossos corpos podem dar, estão sempre mendi­gando satisfação na porta alheia. Aqueles que temem seus impulsos se tran­cam no mundo das ideias.

Aqueles que estão continuamente se limitando e desfazendo seus limites, se formando e se desformando, não se sentem pegos numa armadilha nem perdidos. Quando não nos confundimos com uma imagem social, formamos um self corporal, um certo corpo, a partir dos nossos prazeres e satisfações, das nossas dores e mágoas.'

Stanley Keleman - 'O corpo diz sua mente' - Pag 27


'Movimento-me e meu gesto molda meu corpo, exprimindo algo de mim. (...)

As famílias musculares são instrumentos de relação, cadeias de comunicação que fazem o corpo falar. (...)

Pois a sociedade das cadeias (musculares) é como a sociedade dos homens, sendo essencial encontrar a melhor maneira de colocá-las em harmonia. (...)

Como foi enunciado, a sociedade das cadeias (musculares) funciona como a dos homens, feita de ações e reações, de escaladas e de bloqueios, de rancores acumulados e de tensões contidas e finalmente expressas por palavras e pelos males do corpo. São marcas deixadas pelo silêncio e pelos sofrimentos que deformam o corpo e o espírito, que alteram a saúde e a qualidade de vida. Prevenir é bem melhor que curar, porém para fazê-lo é necessário "pre-ver".'

Prefácio de Godelieve para o livro ‘Aspectos Biomecânicos – Cadeias Musculares e Articulares – Método G.D.S.’ de Philippe Campignion