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20110721

A lição do rato

autoria desconhecida.

Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que haveria ali. Ao descobrir que era ratoeira ficou aterrorizado.

Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
- Há ratoeira na casa, ratoeira na casa !!

A galinha:
- Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.

O rato foi até o porco e:
- Há ratoeira na casa, ratoeira !

- Desculpe-me Sr. Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar. Fique tranqüilo que o Sr. será lembrado nas minhas orações.

O rato dirigiu-se à vaca e:
- Há ratoeira na casa!

- O que? Ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!

Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira.

Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima..
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego.
No escuro, ela não percebeu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa.
E a cobra picou a mulher...
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre.
Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha.
O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.

Moral da História:
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que quando há uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco.

O problema de um é problema de todos!

20110429

2 versões para um mesmo conto

Versão oral

Nan-In, um mestre zen japonês durante a era Meiji (1868-1912), recebeu um professor de universidade que veio lhe inquirir sobre o Zen. Este iniciou um longo discurso intelectual sobre suas dúvidas.
Nan-In, enquanto isso serviu o chá.
Ele encheu completamente a xícara de seu visitante, e continuou a enchê-la, derramando chá pela borda.
O professor, vendo o excesso se derramando, não pode mais se conter e disse:
“Está muito cheio. Não cabe mais chá!”
“Como esta xícara,” Nan-in disse, “você está cheio de suas próprias opiniões e especulações. Como posso eu lhe demonstrar o Zen sem você primeiro esvaziar sua xícara?”

Versão Hollywood
De maneira análoga, uma pessoa que tem pré-juízos, pré-conceitos sobre o Hatha Yoga e não consegue sair da sua zona de conforto/conformidade/resignação se sente embaraçada para aceitar a plenitude de bem estar, o bem viver que se pode receber através da vivência,/experiência de praticar Hatha Yoga.

20100911

Ganesha é o filho de Shiva e Parvati. Conhecido como a incorporação da sabedoria, é descrito como o escriba que recebeu o texto do Mahabharata ditado pelo sábio Vyasa. É aceito como o deus do aprendizado e patrono da escrita.

compilado e contado por Tales Nunes

Ganesha é a deidade mais reverenciada na Índia, ele é sempre o primeiro a ser reverenciado para qualquer coisa que a gente faça porque ele é o senhor dos obstáculos. Ele sempre está na porta de todos os templos e na porta das casas dos hindus como o protetor (ele é aquele que protegia Parvat… vigiando a porta).

Ele é considerado o primeiro filho de Shiva na forma do Todo, da realidade suprema. Ganesha é aquele que nasceu da realidade suprema.

Nomes de Ganesha:

Ganesha – senhor de todos os seres, senhor das multidões

Ganapati- senhor de todos os seres, senhor das multidões

Ekadanta- Aquele que tem uma presa só

Vighneshara- Senhor dos obstáculos.

Gajanana- cara de elefante

Iconografia

O primeiro passo no caminho do autoconhecimento é escutar o ensinamento, por isso ele tem essas 2 orelhas grandes, as quais demonstram que ele escutou muito. O segundo passo é refletir sobre esse ensinamento, por isso essa cabeça enorme. A tromba representa a discriminação porque consegue pegar os objetos pequenos e para pegar os objetos grandes.

As presas representam os pares de opostos, porque na vida o ser humano está sempre tendo que escolher. E o sábio é aquela pessoa que não é afetada pelos pares de opostos e por isso Ganesha tem uma presa quebrada.

Ganesha representa aquela força que remove os obstaculos. O machado corta e o laço amarra os obstaculos. Ganesha representa tambem Ishvara, sua barriga grande representa todo Universo.

A barriga de Ganesha simboliza que ele engoliu e digeriu todo o conhecimento e esse conhecimento se tornou parte dele, virou a barriga. Representa também que o sábio digere as situações de forma lenta e moderada.

Os quatro braços representam os instrumentos internos o ego, a memória, manas e budhi.

O machado representa vairagya, porque corta todos os apegos e desejos que nos tiram do nosso estado de paz. O machado corta também os obstáculos.

A corda representa bhakti, a devoção. Que eu possa então ter amarrado na minha vida a relação com Ishvara, que sou eu mesmo. Que eu esteja amarrado na minha verdadeira natureza. Representa também aquele que além de cortar, amarra os obstáculos.

O doce representa as alegrias que a gente adquire no caminho do autoconhecimento, e, como um doce, a gente come um e já quer outro. O caminho não é sofrido, como o carregar de uma cruz, o caminho para a liberdade é doce e apreciativo.

Ganesha tem um pé no chão e outro no ar. Simboliza que o sábio vive no mundo como qualquer outra pessoa normalmente. O pé no chão é a parte que esta lidando com o mundo e o pé que esta no ar simboliza a conexão com o Ser. O sábio é aquele que vive no mundo sem perder a visão do Todo. O termo memória de elefante é isso, ele jamais esquece da sua verdadeira natureza.

O rato simboliza os desejos, o rato é um animal voraz que come de tudo, sempre come demais e guarda tudo nos buracos, como a mente que sempre deseja algo e nunca se sacia. O ratinho sempre aparece aos pés de Ganesha e olhando pra ele segurando um doce como se pedisse uma autorização para levar entregá-lo o doce, isso quer dizer que os sábio tem os desejos ao seus pés e sob seu comando.

O sábio come os docinhos, mas existe um comando sobre os desejos. Dizem que os elefantes tem medo do rato, mas Ganesha o tem sob seu comando. Os desejos não são para ser temidos, é para ter governo, coordenação sob eles.

No dia do aniversário de Ganesha é proibido olhar para a lua. O simbolismo por trás disso é que um dia Ganesha estava cavalgando o seu ratinho por aí. E a lua viu e caiu na risada ao ver um garoto grande com cabeça de elefante carregado por um pequenino ratinho. Então os deuses castigaram a lua por isso dizendo que não se pode olhar para a lua no dia de Ganesha.

A lua preside a mente. Isso simboliza o ignorante sorrindo do sábio. O sábio tem uma sabedoria infinita em um corpo finito. E muitas pessoas não entendem as ações do sábio e as suas palavras. No dia do nascimento de Ganesha (hoje, Ganesha Chaturthi ) deve-se olhar para o Ser e tirar a atenção do ser. O aniversário de Ganesha simboliza o nascimento do sábio, aquele que reconheceu-se como o Ser.

Uma historinha de Ganesha

Ganesha foi para uma festa e comeu tudo, toda comida, a decoração, os presentes, comeu tudo e nada saciava a sua fome. Shiva, seu pai, chega com todo carinho e dá uma porção de arroz torrado pra ele e sacia a sua fome.

Isso simboliza que o sábio precisa queimar suas tendências e o arroz tostado é como as tendências queimadas, não germina mais. É preciso queimar essas tendências no fogo do conhecimento e ter o reconhecimento de que nada material vai saciar nossos desejos, pois eles são infinitos. Ganesha comeu tudo o que desejava e o desejo permanecia. Apenas quando ele, na presença de Shiva, o Todo, reconheceu a sua verdadeira natureza é que a busca exterior como meio de encontrar a felicidade se desfez. E quando isso acontece, os desejos são ferramentas de ação no mundo e não uma força que te leva a ação desenfreada-mente.

Texto baseado em aulas de Patrick van Lammeren e Marília, do Centro de Estudos Vidya Mandir

www.vidyamandir.org.br

20100301

Holi



O festival de Holi sinaliza a mudança de época que marca o advento da primavera.
É uma ocasião para esquecer todas as diferenças de casta e credo e compartilhar sentimentos de amor mútuo e boa vontade. As pessoas celebram Holi colorindo os outros com as cores de sua escolha, e assim superar as diferenças de seus corações e tornar-se mais próximo do outro.

Há varias maneiras de comemorar o Holi : jogando água ou pó colorido uns nos outros, dançando músicas tradicionais do festival de Holi, com batidas rítmicas do tambor e procissões freéticas. Outra marca de Holi é distribuir diversos tipos de doces são feitos entre amigos e familiares. Basicamente Holi é o único festival onde as pessoas podem escapar das rígidas convenções sociais de um sistema de castas, brincar uns com os outros, e comer e divertir-se com a manutenção do amor e respeito. Holi trás a alegria e juventude de volta.

Holi é um antigo festival da Índia e era originalmente conhecida como ' Holika’. Sua origem está ligada com a história de Prahlada, o filho do malvado rei Hiranyakashyap. Prahlad era um devoto do Senhor Vishnu, enquanto seu pai odiava Vishnu. O rei Hiranyakashyap obriga a todos a adorar seu ídolo, ignorando Vishnu, e quem fosse contra suas ordens seria morto. Ele se esforçou para matar seu filho Prahlad , mas toda vez Vishnu salvou. Depois de várias tentativas mal sicedidas de matar o filho Prahlad, Hiranyakashyap foi até sua irmã Holika, que tinha opoder de permanecer incólume dentro do fogo, e pediu a ela para segurar Prahlad e sentar-se no fogo. Ela consentiu o pedido de seu irmão. No entanto, foi Holika que acabou queimada e transformada em cinzas, enquanto Prahlad escapou inteiro do fogo. Desse momento em diante Holi é comemorado como a festa da vitória do bem sobre o mal.

As cores falsas deste mundo transitório cobrem todos os sentidos, o corpo e a mente. Com o passar do tempo, elas desbotam ou se tornam desinteressantes. Mas mesmo a menor cor da iluminação, infunde um esclarecimento para sempre. Mesmo a morte não é possível removê-lo. É esta a cor da devoção e da iluminação que devemos incutir em nossa vida, por ocasião do Holi. Holi é um festival de cores. É um elixir que rejuvenesce o empenho e anseios de um aspirante. Ele também se espalha a mensagem do amor mútuo na sociedade.

A pilha de madeira queimada na véspera de Holi é um símbolo da fraqueza e das paixões que dominam nossas mentes e a luz da fogueira um farol que nos guia na direção das virtudes que desejamos cultivar.

O significado literal de Holi é 'coisa do passado' (bygone) (ho li). Isso significa que o festival de Holi ensina-nos a esquecer o passado. Seja qual for que aconteceu é passado. Esqueça. Se você guarda elogios, tudo bem, se você guarda ofensas, tudo bem, está tudo acabado agora. Mergulhe no contentamento.

O festival de Holi sugere que também nós devemos enfrentar os obstáculos vindo em nossa direção com coragem, determinação, confiança, foco e serenidade.

Holi é tido como um dos festivais mais piedosos que caracterizam a cultura indiana. Ele nos oferece uma excelente oportunidade para esquecer as diferenças ilusória de superioridade e inferioridade, meu e seu. É uma ocasião para abandonar os vícios e características ruins, e despertar nossa consciência/pessoa verdadeira, de sentir e perceber a bem-aventurança e a verdadeira felicidade que brotam da espontaneidade, simplicidade e da não centralização no ego.

20091116

Duo


'Dentro de mim existem dois cachorros:
um deles é cruel e mau;
o outro é muito bom e dócil.

Os dois estão sempre brigando.

Quando,
então,
lhe perguntaram qual dos cachorros ganharia a briga,
o sábio parou,
refletiu e
respondeu:

“Aquele que eu mais alimentar."'

Duas cabeças pensam melhor que 1?

20091106

O tempero da memória - As 'Réiva'


Já escrevi aqui, memória do bem = percepção das atitudes necessárias agora (físicas, emocionais e mentais), o caminho do AMORRR que nos levam a libertação, a desidentificação com as 'coisas que temos dentro da cabeça', e memória do mal (precisa explicar?).

'‘Quem fica com raiva leva o outro para a cama.’ Eu já disse que o ódio gruda mais que o amor. Você está amando... O amor é feliz, cheio de memórias bonitas. Você vai para a cama e dorme sorrindo. E sonha... Mas aí acontece algo, alguém lhe faz uma coisa que lhe dá muita raiva. A raiva toma conta de tudo, sentimentos e pensamentos. Não o deixa. Sua vontade é gritar, bater, destruir. É hora de dormir. Seus olhos estão pesados. Você quer dormir. Mas a raiva não o deixa. Você vai para a cama e ao seu lado se deita... a pessoa de quem você está com raiva. Você quer pensar coisas bonitas, quer pensar na pessoa amada. Mas aquela pessoa, ao lado, não deixa...
Pois é isso que está acontecendo comigo. Estou com muita raiva. E, por causa da raiva, estou levando para a minha cama um garçom que se diz cantor. E, ao meu lado, ele canta valsas do Sílvio Caldas...'
Rubem Alvez comentando Guimarães Rosa em 'Se sua cozinheira quiser cantar enquanto cozinha, não deixe...', um conto sobre a importância de se saber distinguir a inocência da imprudência.

O ser raivoso é aquele que gruda a circunstância no imaginário, e portanto, não larga a pessoa que contracenou com ele. E vai (cada vez de rebobina a fita e relembra o fato*) tingindo com suas próprias cores o evento, que pode nem ter sido tão sangue vivo assim.

A raiva tem muitos nomes, muitas cores, tantos nomes quantos nossos afetos. Vira raiva da gente mesmo ( o monge com raiva do seu desejo pela linda jovem que o outro carrega junto ao corpo ajudando-a a atravessar o rio, apesar de seus votos de jamais tocer em mulher nenhuma... Leia aqui: versão 1 e versão 2)

O pior da 'réiva' é que estropia o fígado.
E se a gente resolve cultivar (ira = raiva cultivada, cozida com ardor/tapas), vira pedra de vesícula (= as vinhas da ira).

O melhor da 'réiva' é que ela é energia puríssima.
Basta virar a seta da 'réiva' para o lado 'certo', o lado B (do BemBom).

* Hoje sabemos que nunca rebobinamos a fita e relembramos os fatos, estamos sempre recriando o vivido, pois o que sentimos no presente altera o modo como recordamos os registros da memória.

20090927

Outra moça de sari vermelho



(...)
Apareceu então uma jovem morena, vestida de vermelho, com grandes brincos. Os dois deuses, agachados no chão, observavam-na. Então Brahmā falou: “Mrtyu, Morte, venha cá. Deve rodar o mundo. Deve matar minhas criaturas, os sábios e os tolos. Deve obedecer apenas a uma regra: que não haja exceção”. A moça olhava o deus em silêncio, enquanto atormentava com os dedos uma guirlanda de lótus. Depois disse:” Pai, por que me escolheu para fazer aquilo que é contra todas as leis? E por que deverei fazer apenas isso? Eu queimarei sobre uma perene pira de lágrimas”. Brahmā disse:” Não tergiverser. Você é sem mácula e impecável é o seu corpo. Vá...”. Morte continuou silenciosa diante de Brahmā, enquanto suas costas lentamente se curvavam.


Morte era teimosa e não aceitou logo a ordem de Brahmā. Em Dhenuka, cercada por ascetas que já devia ter exterminado ficou sobre um só pé durante quinze milhões de anos. Ninguém lhe falava. Era uma das tantas que ali se retiravam. Mrtyu meditava, perplexa.

Brahmā convocou-a ao dever. Mas Morte apenas mudou o pé sobre o qual se apoiava — e assim continuou a meditar por mais vinte milhões de anos. Por alguns outros milhões de anos viveu depois com os animais selvagens, comeu apenas ar, mergulhou nas águas. Depois, sobre o monte Meru, jazeu longamente como um tronco. Passaram-se outros milhões de anos. Brahmā foi visitá-la: "Minha filha, o que acontece agora? Consumir poucos átimos ou alguns milhares de anos não muda nada. Um dia sempre acabaremos nos encontrando. E eu repetirei: ‘Faça o seu dever’ ". Como se não se tivessem passado aqueles milhões de anos e estivesse retomando o diálogo com o pai depois de uma pausa, Mrtyu disse: "Tenho medo de ir contra a lei". "Não tema", disse Brahmā, "nenhum juiz jamais conseguirá ser tão imparcial quanto você. E nem é o caso de você chorar tanto, como a vi chorando: suas lágrimas abrirão chagas nos corpos que deve exterminar. Melhor matar sem muita demora." Então Morte baixou o olhar e em silêncio percorreu o mundo. Tentava manter os cílios enxutos, como último sinal de benevolência com as criaturas que abatia.
(...)

Roberto Calasso, em 'KA'

20090707

Guru Purnima



Guru Purnima é o dia que aquele(a) que aprende (re)anima seu propósito e expressa a sua gratidão a quem tem função de luminar, quem se faz lucero.

A intenção de quem se coloca como aprendedor em celebrar o Guru Purnima (ou Poornima) está em analisar o histórico da prática do ano precedente e registar o desenvolvimento que atingiu na sua vida através da transmissão em 'carne viva', ou através das várias mídias humanas ( textos em papel ou bits, registros sonoros, áudio-visuais, etc..), para renovar sua determinação e focalizar no progresso do seu Sadhana. Nesse dia, o Guru é reverenciado, lembrando sua vida e seus ensinamentos e a qualidade da sua influência no encaminhamento do discípulo.

O Guru Purnima é celebrado na ocasião da lua cheia no mês de Ashad, de acordo com o calendário lunar hindu, normalmente acontecendo em Julho acada ano. A lua cheia deste mês é considerada a mais brilhante do ano todo. (Esse ano demos 'sorte', um céu limpíssimo e maravilhosamente escandaloso, verdadeiro veludo azul noite, pontilhado de estrelas!)

Segundo a tradição hindu, o Guru Purnima foi celebrado pela primeira vez em honra a Vyasa, por seus discípulos, reverenciando sua extensa obra.

Embora 'Vyasa' signifique organizador e seja título de vários sábios lendários, e embora os Vedas tenham sido organizados muitas vezes, é atribuído à Vyasa, também chamado de Krishna Dvaipaayana e filho do vidente Paraashara e de Satyavati, a organização:
  • dos quatro Vedas,
  • do Mahabharata,
  • dos 38 Puranas,
  • do Bhagavad-Gitaa, entre outras obras.
Ele também é tido como o autor do mais antigo cometário sobre o Yoga Sutra de Patanjali, chamado 'Yoga Bhaashya'.

No Guru Purnima, eu re(a)cordo todos os professores que tive, os graciosos, cujo olhar é generoso e o coração aceita toda a gente, que me perfumaram de sabedoria e iluminaram minha consciência e me envolveram no manto terno do AMORRR/Ágape/Prema e também os que me ensinaram através da escuridão, da lente do pré-juízo, do gesso do pré-conceito, da fala falaciosa, pela falta de tato, ou de trato.

Agradeço a generosidade dos praticantes de Yoga, blogueiros ou não, que disponibilizam informação e comentários em sites, blog, e vídeos espalhados na rede; agradeço a disponibilidade de escritores, compiladores, comentadores, tradutores e editores que prestigiam as publicações que tem o Yoga como foco.

20090608

A Princesa e a Ervilha


Adaptado do conto de Hans Christian Andersen

Era uma vez um príncipe que queria se casar com uma princesa, mas uma princesa de verdade, de sangue real meeeeesmo.

Viajou pelo mundo inteiro, à procura da princesa dos seus sonhos, mas todas as que encontrava tinham algum defeito. Não é que faltassem princesas, não: havia de sobra, mas a dificuldade era saber se realmente eram de sangue real.
E o príncipe retornou ao seu castelo, muito triste e desiludido, pois queria muito casar com uma princesa de verdade.

Uma noite desabou uma tempestade medonha.
Chovia desabaladamente, com trovoadas, raios, relâmpagos.
Um espetáculo tremendo!

De repente bateram à porta do castelo, e o rei em pessoa foi atender, pois os criados estavam ocupados enxugando as salas cujas janelas foram abertas pela tempestade.

Era uma moça, que dizia ser uma princesa.
Mas estava encharcada de tal maneira, os cabelos escorrendo, as roupas grudadas ao corpo, os sapatos quase desmanchando... que era difícil acreditar que fosse realmente uma princesa real.
A moça tanto afirmou que era uma princesa que a rainha pensou numa forma de provar se o que ela dizia era verdade. Ordenou que sua criada de confiança empilhasse vinte colchões no
quarto de hóspedes e colocou sob eles uma ervilha. Aquela seria a cama da “princesa”.

A moça estranhou a altura da cama, mas conseguiu, com a ajuda de uma escada, se deitar.
No dia seguinte, a rainha perguntou como ela havia dormido.

— Oh! Não consegui dormir — respondeu a moça, — havia algo duro na minha cama, e me deixou até manchas roxas no corpo!

O rei, a rainha e o príncipe se olharam com surpresa. A moça era realmente uma princesa! Só mesmo uma princesa verdadeira teria pele tão sensível para sentir um grão de ervilha sob vinte colchões!!!

O príncipe casou com a princesa, feliz da vida, e a ervilha foi enviada para um museu, e ainda deve estar por lá...

Acredite se quiser, mas esta história realmente aconteceu!

20090526

Escolhas




Durante a visita a um hospital psiquiátrico um dos visitantes perguntou ao diretor:

Qual é o critério pelo qual vocês decidem quem precisa ser hospitalizado aqui?"

Respondeu o diretor:
"Nós enchemos uma banheira com água e oferecemos ao doente uma colher,um copo e um balde e pedimos que a esvazie.
De acordo com a forma que ele decida realizar a missão, nós decidimos se o hospitalizamos ou não."

"Entendi" disse o visitante
"uma pessoa normal usaria o balde, que é maior que o copo e a colher."

"Não" respondeu o diretor,
"uma pessoa normal tiraria a "tampa do ralo".
O que o senhor prefere?
Quarto particular ou enfermaria ?"

Dedicado a todos que escolheram o balde.....


Tsk...
D'us me livre de ser ИOЯMAL!

20090220

Mahā Shivaratri, A 'Grande Noite de Shiva'


A véspera de lua nova, ou a última noite na fase lua minguante é Shivaratri, Noite de Shiva.

Shiva é o yogue primevo, o asceta arquetípico, o grande dançarino que com sua dança cria, sustenta e destrói o universo, até a próxima dança.

No mês de Phalgun, entre fevereiro e março do calendário gregoriano, existe a celebração de Mahā Shivaratri, cujo motivo para alguns é a comemoração da união de Shiva (a representação do Absouto) e Parvati (um dos muitos nomes de sua consorte, que personifica Shakti) e para outros, recordar a realização da Tandava Nritya por Shiva- a dança primordial da criação, preservação e destruição.

Mahā Shivaratri 'cai', em 2009, no 'nosso' dia 23 de fevereiro.Não tem data fixa, que nem Carnaval e Páscoa, porque o calendário base para essas datas é lunar.

A lua crescente figura entre várias imagens que emergem dos cabelos de Shiva, algo contidos, algo espalhados, como asas.

É shishu em sânscrito, "'a que cresce rápido, a ansiosa por crescer' e também, ' o bebê recém-nascido', pois a cada semana, agarrando-se aos seios da mãe, desenvolve-se com a rapidez da lua crescente.

Shiva é a personificação do Absoluto; em particular, de sua dissolução do universo. É a corporificação da Supramorte. É chamado de Yamāntaka, 'Aquele que Extingue o Domador, que Vence e Extermina Yama, o Deus da Morte, o Domador'. Shiva é Mahā-Kāla, o Grande Tempo, a Eternidade que devora o tempo, todas as eras e seus ciclos. Reduz a nada o rítmo e a voragem dos fenômenos; dissolve todas as coisas, todos os seres, todas as divindades, no imóvel oceano de pureza cristalina da Eternidade - de cujo ponto de vista nada, nada de fundamental acontece. Porém, outra vez, como shishu, o bebê, a lua crescente, Shiva é puro deleite e a coisa mais auspiciosa de se ver, promessa de vida e força vital; suave , mas irresistível. A lua crescente, shishu, é considerada a taça do fluído da vida imortal, estimuladora do reino da vegetação e de tudo o que cresce na esfera sublunar, instando também os imortais celestes para que estejam prontos a desempenhar seus benéficos deveres cósmicos. Shiva, como shishu é essa taça, essa lua."

(Heinrich Zimmer, Mitos e Símbolos na Arte e Civilização da Índia, pág. 133)

A lua simboliza a mente, a lua nova é a mente vazia, por (re)nascer.


Fica o convite para experimentar passar um dia, ou uma noite de um jeito não-habitual, ficar de fora da fôrma:

* em silêncio 'vocal' que incita a quietude mental (mouna) que pode acompanhar um por-de-sol, o vai e vem das ondas do mar ou as atividades simples que se repetem no cotidiano como comer, cozinhar, lavar louça ou arrumar/limpar algo na casa;
* prestando atenção ao longo do fio do tempo do dia em tudo o que se pode perceber;
* em vigília meditativa durante a noite ou a madrugada.

Om Namah Shivaya








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Ah, também pode rasgar a fantasia, ;-)!

20090215

Māyā


Narada é uma personagem recorrente dos contos hindus, que personifica o sábio, o devoto exemplar.

'Por sua prolongada austeridade e práticas devocionais, Vishnu voltou para ele sua graça. Apareceu ao santo em seu eremitério, concedendo-lhe a realização de um desejo.

— Mostrai-me o poder mágico de vossa Māyā - rogou Nārada, ao que o deus respondeu!

— Eu o farei. Segue-me.

Mas outra vez lhe pairou nos lábios de belas curvas o mesmo quase-sorriso.

Deixando a agradável sombra do bosque em que o eremita se abrigava, Vishnu conduziu-o por uma faixa de terra nua que reluzia como metal sob o sol que abrasava, impiedoso. Não demorou para que ambos ficassem muito sedentos. Viram, a alguma distancia, os tetos colmados de uma pequena aldeia fustigada pelo calor. Vishnu perguntou:

— Queres ir até lá buscar-me um pouco de água?

— Decerto, meu Senhor - respondeu o santo, correndo para o distante agrupamento de choupanas. O deus ficou a descansar à sombra de um penhasco, aguardando-lhe a volta.

Chegando ao povoado, Nārada bateu à primeira porta que encontrou. Veio abri-la uma bonita donzela e o devoto foi tocado por algo jamais sonhado: o encanto dos olhos da moça; assemelhavam-se aos do seu divino Senhor e amigo. Estático, pasmado, esqueceu o que viera fazer. Doce e ingénua, ela deu-lhe as boas-vindas. Sua voz, como um laço de ouro, rodeou-lhe o pescoço. Movendo-se como num sonho entrou na casa.

A parentela tratou-o com muito respeito, embora sem o menor vestígio de timidez. Receberam-no com as honras devidas a um santo, mas não como a um estranho; mais parecia ser, o recém-chegado, um venerável conhecido de longa data, há muito ausente. Nārada permaneceu em companhia deles, impressionado com o acolhimento caloroso e digno; sentia-se como em sua própria casa. Ninguém perguntou o motivo de sua visita; era como se pertencesse à família desde tempos imemoriais. Transcorrido algum tempo, pediu ao pai da moça permissão para casar-se com ela, o que não surpreendeu ninguém. Tornou-se membro da casa e compartilhou os deveres milenares e os prazeres simples de um lar camponês.

Doze anos se passaram; tinha três filhos. Morrendo-lhe o sogro, tornou-se o chefe da família, herdando e administrando os bens, cuidando do gado e cultivando as terras. No décimo segundo ano a estação das chuvas foi extraordinariamente violenta: encheram-se os rios, torrentes desceram montanhas abaixo e uma enchente inundou, de repente, o pequeno povoado. Durante a noite, as choupanas de palha e o gado foram arrastados e todos precisaram pôr-se em fuga.

Uma das mãos amparando a esposa, levando à outra dois dos filhos e conduzindo sobre os ombros o terceiro, o menor, Nārada partiu a toda pressa.

Abrindo caminho através da mais completa escuridão, açoitado pela chuva, caminhava a muito custo sobre a lama escorregadia, cambaleando através do redemoinho das águas. A carga era maior do que podia suportar e a correnteza arrastava-o, envolvendo-lhe as pernas com muita força. Nārada tropeçou e o filho que levava aos ombros escorregou, tragado pela noite uivante. Com um grito de desespero, desprendeu-se dos filhos maiores para agarrá-lo, mas era tarde demais. Enquanto isso, a torrente brutal carregou os outros dois e, antes que se apercebesse da extensão do desastre, arrancou-o da esposa, arrastandoo corrente abaixo como a um toro inerte. As águas atiraram-no inconsciente numa praia, sobre uma pequena rocha. Abriu os olhos, ao voltar-lhe a consciência; a sua frente, viu um vasto lençol de água lamacenta. Chorar era o que podia fazer. Chorou.

— Filho! - aquela voz, que lhe soou familiar, quase lhe fez parar o coração.

— Onde está a água que foste buscar para mim? Espero por ela há mais de meia hora.

Nārada voltou-se. Em vez de água o que viu foi um deserto a rebrilhar ao sol do meio-dia. Perto, as suas costas, estava o deus. Ainda sorriam, sem compaixão, as curvas da boca fascinante, que se abriu para a pergunta amável:

— Compreendes agora o segredo de minha Māyā?'


Contada por Heinrich Zimmer, segundo a versão de Ramakrishna, em 'Mitos e Símblos na Arte e Civilização da Índia' (pág. 33 e 34)

20090210

Aritmética


'Shiva sem Shakti é um cadáver (shava).'

Este é um interessante trocadinho ‘aritmético’ que a grafia dos dois nomes Shava (cuja fonética aproximada em português é chava) e Shiva (cuja fonética aproximada em português é chiva) permite, expressando fielmente um conceito tântrico.

O sâncrito é escrito com caracteres em devanāgarī (cuja pronúncia aproximada em português é devanaagarii) que é um alfabeto alfa-silábico, ou seja, cada letra representa um fonema.

No devanagari, as letras são unidades fonéticas onde o a já está incluído, e como unidades fonéticas, são irredutíveis, diferente do alfabeto latino, onde as consoantes são 'surdas' (sem som) e precisam do acréscimo obrigatório de uma vogal para soar.
Para transformar o som do a no som das outras vogais, um elemento chamado diacrítico é acrescentado.

Para transformar o a em i, acrescentamos o sinal diacrítico:
Dessa maneira, se grafa:
Portanto, assim se escreve Shiva:E dessa maneira: Shava
Se o sinal i for omitido ao escrever-se o nome de Shiva em devanagari, a escrita equivale a Shava. Sem esse i simbólico, Shiva é apenas um cadáver — Shava.
Shiva sem Shakti é Shava.
Sem a energia do poder da manifestação conhecida como Shakti que tudo ativa e vitaliza, do impulso criativo e procriador, o Absoluto em essência, Aquele que está em Si e Existe por Si Mesmo, perfeito, imutável, se torna sem vida, inerte.


Obs.:
Devanāgarī = deva (divindade) + nagari (cidade)="a (escrita) da cidade dos deuses".

Reza a lenda que esse alfabeto foi um presente dos deuses para a humanidade. Como os sons do sânscrito.

E que os deuses são seres conscientes como nós, seres humanos, que viveram uma vida humana virtuosa o suficiente para reencarnarem numa existência divina, porém, insuficiente para escapar da roda das reencarnações.

E que nada é mais divino que uma existência humana, através da qual podemos alcançar a liberdade absoluta = moksha

20090205

Natarāja


Os mitos associados a Shiva Dançarino Cósmico descrevem dois tipos principais e antagônicos de dança:

  • Tāndava, a manifestação dançante irada do deus, dança feroz, efusão violenta e frenética das energias divinas, instigada por uma energia explosiva e arrebatadora, insinua o bailado guerreiro cósmico, cujo objetivo é despertar as energias destrutivas que irão destruir o inimigo; é ao mesmo tempo, a dança triunfante do vitorioso.

  • Lāsya, a expressão benigna bailada de forma suave, doce e lírica, que exprime as emoções do amor e da ternura.

  • Shiva e Vishnu se alternam nos mitos de expansão, manutenção e contração do universo manifesto.

    Shiva, como demiurgo, baila sua dança ao mesmo tempo arrebatadora e enternecedora enquanto Vishnu repousa e sonha reclinado sobre as ondulações de Ananta, a serpente cósmica que ondula nas águas viventes do oceano primordial.

    Vishnu adormecido sente a impetuosa dança de Shiva (será que foi sonho?), e se agita sobre Ananta, que pergunta ao deva o que perturba seu sono, seu sonho, ao que Vishnu responde que nada o perturba, apenas se deixou estasiar pela dança de Shiva.

    Ananta então manifesta o desejo de ter a oportunidade de aprender a se mover com tal graça e Shiva lhe concede a graça de uma encarnação humana. E da conjunção do ensejo de Anata e da graça de Shiva, dizem , nasce Patanjali, filho da yoguini Gorika.

    Obs.:
  • Ananta (que significa Infinito) também é chamada Shesa (que significa o Remanescente, o resíduo)

  • nos dicionários, ondular, agitar-se, movimentar aparecem como sinômimos de dançar.

  • + O simbolismo de Shiva-Natarāja

    20090203

    Lado B: qual é a sua, de verdade?


    'Há uma história que ilustra a relação entre ego e dharma. É uma história que diz respeito a um membro dessa digna profissão: de professor. Na índia, "professor" traduz-se por guru; contudo, esta palavra define algo bem diferente daquilo que nós ocidentais entendemos por professor. "Professor", ou "mestre" para nós - pelo menos hoje - quer dizer alguém que transmite informação e alguém que o guia na sua vida, ajudando-o a superar crises que possam eventualmente surgir em seu caminho. Por sua vez, guru, significa alguém que é o seu modelo; cabe ao aluno identificar-se com o mestre, tornar-se como o mestre; o mestre tornou-se seu mestre e, assim, não há ninguém ali. O mestre simplesmente transmite o ideal, o dharma, adiante.

    Essa é a história de um aluno que um dia chegou atrasado à aula. O mestre lhe diz: "Você está atrasado. Aconteceu alguma coisa?"

    "Bem", diz o aluno, "Eu não conseguia chegar até aqui. Moro no outro lado do rio e ele inundou. Não havia nenhuma balsa e o ponto onde normalmente eu cruzo o rio estava muito fundo e, por isso, não pude vir até aqui".

    "Bem", diz o mestre, "Você finalmente conseguiu chegar. A balsa o trouxe? As águas do rio baixaram?"

    O aluno meneou a cabeça negativamente: "Não, o rio está do jeito que estava".

    E o mestre: "Então, como conseguiu vir até aqui?"

    Ele responde: "Pensei no meu mestre. Pensei: meu mestre é o veículo da verdade para mim, ele é meu deus, meu oráculo. Vou concentrar eu pensamento nele e caminharei sobre as águas, para cruzar o rio, e assim eu fiz. Pensei: Guru, guru, guru! e atravessei caminhando a inundação. Eis-me aqui".

    "Uau!", exclamou o mestre, "Eu não sabia que eu era capaz de fazer isso". É claro que o mestre não havia feito isso.

    Depois que o aluno vai embora, o mestre pensa que isso estava nele. Pensa consigo mesmo: "Vou tentar. Preciso ver como é que isso funciona". Então, olha em volta, para ver se não há ninguém observando. Ao ter a certeza de estar sozinho, aproxima-se das águas do rio, olha aquela forte correnteza e decide: "Vou fazer isso". E pensa: "Eu, eu, eu". Aproxima-se, entra no rio... e afunda feito uma pedra.

    O único motivo que leva alguém a caminhar sobre as águas é o fato de que lá não há ninguém; a pessoa é puro espírito, spiritus, vento. Em sânscrito, chama-se a isso prana. Na mente do aluno, esse mestre era um comunicador da verdade. Na mente do mestre, ele era um "Eu", e o eu pesa e afunda. '

    Joseph Campbell, em ‘Mitos de Luz – Metáforas Orientais do Eterno’, pás 131 e 132.

    Lado B:
    'Quando o discípulo está pronto, o mestre desaparece.'
    Zé Rodrix

    Comentário póstumo:
    desaparece, mas não necessariamente afunda. ;-)

    20090201

    Bem lá no fundo, ou, cadê o seu tigrão?


    Aconteceu de uma tigresa prenhe e faminta se ferir mortalmente ao tentar caçar uma das cabras de um pequeno rebanho, porém ela conseguiu parir seu filhote antes do alento cessar.

    As cabras, retornaram ao local do ataque e deram com o filhote recém-parido e o acolheram como se este fosse um dos seus.

    O tigre cresceu se achando uma cabra, ou melhor, um bode, balindo, comendo capim e o que mais aparecesse pela frente que fosse mascável. Inesperadamente, o tigre sobreviveu à dieta de capim e ao modo de vida das cabras, que, claro, é anti-natural para um tigre. Não se fez lá um belo tigre adolescente, porém 'estava vivo'.

    Lá pelas tantas, um dia, um tigre macho estava em busca de alimento na região das cabras encontrou o rebanho e atacou as cabras, que fugiram assustadas. O tigrinho não fugiu, afinal, também era um tigre! Ficou meio atabalhoado, encarando o invasor.

    O tigrão olhou a cena encafifado e perguntou ao tigrinho:

    - Como assim, tigre, você vive entre as cabras?

    Teve como resposta um balido do tigrinho, que já dava conta de mascar uma moita de capim como desejum.

    O tigrão ficou passado, chocado com o fato de encontrar um semelhante vivendo em tais condições. Sacudiu o tigrinho, que continuou balindo, até deu-lhe uns bofetes para tentar tirá-lo do que supunha ser uma espécie de transe. Em desespero, o tigrão catou o tigrinho pelo cangote e o levou para a beira de um lago tranquilo.

    Na beira do lago o tigrão pediu ao tigrinho que comparasse a imagem de ambos refletida na superfície imóvel das águas do lago, e que reconhecesse que ambos eram tigres, e que não existia nenhum bode ali. O tigrinho, ainda com a ficha meio presa, soltou outro balido bobo enquanto mirava o reflexo de ambos no espelho das águas do lago.

    O tigrão catou-o de novo pelo cangote e o levou para sua toca, onde havia caça fresca. (Sim, vegetarianos, isso significa carne suculenta, e sangrenta que é o alimento natural para um tigre.) O tigrão empurrou um belo naco da carne para o tigrinho que fez cara de ai-que-nojo-sou-vegetariano, só que desta vez não baliu (talvez, agora, a ficha estivesse caindo...). O tigrão então enfiou o naco de carne goela a baixo do tigrinho, que refugou, engasgou, tentou cuspir longe, porém agora, um bocado da essência do alimento que nutre a sua verdadeira natureza corria pela primeira vez em suas veias. E essa comida certa fez seu corpo ressoar, vibrar. Então, o tigrinho soltou um inédito e talvez precário rugido, que foi o suficiente para o tigrão reconhecer o potencial do jovem tigre.

    E foram os dois pela floresta, em busca de mais comida de tigre.


    Esse conto a minha versão da estória, que segundo Joseph Campbell, era a favorita de Ramakrishna.

    20090125

    A Humilhação de Indra


    Certa vez, um monstro chamado Vrtra cumpriu a tarefa de represar (seu nome quer dizer "cercador") todas as águas do universo e houve, então, uma grande seca que durou milhares de anos. Bem, Indra, o Zeus do panteão hindu, finalmente teve uma idéia para solucionar o problema: "Por que não lançar um raio nesse sujeito e explodi-lo?" Então, Indra, que era aparentemente meio lerdo de raciocínio, pegou um raio e o atirou bem no meio de Vrtra, e... bum! Vrtra explode, a água flui novamente e a Terra e o universo têm sua sede saciada.

    Bem, daí Indra pensa: "Como sou poderoso", e então vai até a montanha cósmica, Monte Meru, o Olimpo dos deuses hindus, e percebe que todos os palácios por lá estavam em decadência. "Bem, agora vou construir uma cidade inteiramente nova aqui - uma que seja merecedora da minha dignidade." Então, obtém o apoio de Vishvakarman, o artífice dos deuses, e conta-lhe seus planos.

    Ele diz: "Olha, vamos começar a trabalhar aqui para construir essa cidade. Acho que poderíamos ter palácios aqui, torres acolá, flores de lótus aqui, etc., etc.".

    Então, Vishvakarman começa as obras. Porém, toda vez que Indra volta para lá, ele aparece com novas ideias, melhores e mais grandiosas a respeito do palácio e Vishvakarman começa a pensar: "Meu Deus, ambos somos imortais, então esse negócio não vai terminar nunca. O que eu posso fazer?"

    Então, decide procurar Brahma e queixar-se a ele, o assim chamado criador do mundo dos fenômenos. Brahma está sentado em um lótus (o trono dele é assim) e Brahma e o lótus crescem a partir do umbigo de Víshnu, que se acha flutuando no espaço cósmico, montado em uma grande serpente, chamada Ananta (que significa "eterno").

    Portanto, eis a cena. Lá fora, na água, Vishnu dorme, e Brahma, está sentado no lótus. Vishvakarman entra, e, após muita reverência e embara­ço, diz: "Ouçam, estou em apuros". Daí, conta sua história a Brahma, que diz: "Tudo bem. Eu darei um jeito nisso".

    Na manhã seguinte, o porteiro da entrada de um palácio que está sendo construído nota um jovem brâmane azul-escuro, cuja beleza chamou a atenção de muitas crianças em torno de si. O porteiro vai a Indra e lhe diz: "Acho que seria de bom grado convidar este belo jovem brâmane a conhe­cer o palácio e dar-lhe uma boa acolhida". Indra concorda que seria uma boa ideia e, assim, o jovem é convidado a entrar. Indra está sentado em seu trono e, após as cerimónias de boas-vindas, diz: "Bem, meu jovem. O que o traz ao palácio?"

    Com urna voz semelhante ao som de um trovão no horizonte, o rapaz diz: "Ouvi dizer que você está construindo o maior palácio que um Indra já conseguiu e, agora, depois de conhecê-lo, posso dizer-lhe que, de fato, ne­nhum Indra construiu um palácio como este antes".

    Confuso, Indra diz: "Indras anteriores a mim? Do que você está fa­lando?"

    "Sim, Indras anteriores a você", diz o jovem. "Pare e pense, o lótus cresce do umbigo de Vishnu, então, desabrocha e nele se senta Brahma. Brahma abre os olhos e nasce um novo universo, governado por um Indra. Ele fecha os olhos. Abre-os novamente - outro universo. Fecha os olhos... e, durante 365 anos brâmicos, Brahma faz isso. Então o lótus murcha e, após uma eternidade, outro lótus desabrocha, aparece Brahma, abre os olhos, fecha os olhos. . . Indras, Indras e mais Indras.

    Agora, vamos considerar cada galáxia do universo um lótus, todas com seu Brahma. Até poderia haver sábios em sua corte que se apresenta­riam como voluntários para contar as gotas d'água do oceano e os grãos de areia das praias do mundo. Mas quem contaria esses Brahmas, sem falar nos Indras?"

    Enquanto ele falava, um formigueiro, marchando em colunas perfei­tas, aproximou-se pelo piso do palácio. O rapaz as olha e ri. Indra fica com a barba coçando, suas suíças ficam eriçadas, e ele diz: "Ora essa, do que você está rindo?"

    O jovem diz: "Não me pergunte o por quê, a menos que queira ficar magoado".

    Indra diz: "Pois eu pergunto".

    O rapaz aponta para as fileiras de formigas e diz: "Todas, antigos Indras. Passaram por inumeráveis encarnações, subiram de posto nos es­calões do Céu, chegaram ao elevado trono de Indra e mataram o dragão Vrtra. Então, todos eles dizem: 'Como sou poderoso', e lá se vão eles".

    Nesse momento, um velho iogue excêntrico, usando apenas uma tan­ga, entra segurando um guarda-chuva feito de folhas de bananeira. Vê-se em seu peito um pequeno tufo de cabelos, em forma de círculo e o jovem olha para ele e faz as perguntas que, na verdade, estão na mente de Indra: "Quem é você? Qual o seu nome? Onde você mora? Onde vive sua famí­lia? Onde é a sua casa?"

    "Eu não tenho família, eu não tenho casa. A vida é curta. Este guarda-chuva é o suficiente para mim. Eu devoto minha vida a Vishnu. Quanto a esses cabelos, é curioso: toda vez que morre um Indra, cai um fio de cabe­lo. Metade deles já caiu. Logo, logo, todos vão cair. Por que construir uma casa?"

    Bem, esses dois eram, na verdade, Vishnu e Shiva. Eles apareceram para a instrução de Indra e, já que ele os ouviu, foram-se embora. Bem, Indra sentiu-se totalmente arrasado, e quando Brhaspati, o sacerdote dos deuses, entra, ele diz: "Eu vou me tornar um iogue. Serei um devoto aos pés de Vishnu".

    Então, aproxima-se de sua esposa, a grande rainha Indrani, e diz: "Querida, vou deixá-la. Vou entrar na floresta e me tornar um iogue. Vou parar com essa palhaçada toda a respeito de reinado na Terra e me conver­terei em um devoto aos pés de Vishnu".

    Bem, ela o fita por um instante; então, vai procurar Brhaspati e conta-lhe o ocorrido: "Ele meteu na cabeça que vai embora para se tornar um iogue".

    Daí, o sacerdote toma sua mão e a leva para se sentarem diante do trono de Indra, e lhe diz: "Você está no trono do universo e representa a virtude e o dever - dharma - e encarna o espírito divino em seu papel terreno. Já lhe escrevi um livro importante sobre a arte da política - como manter o Estado, como vencer guerras, etc. Agora vou lhe escrever um livro sobre a arte do amor, para que o outro aspecto de sua vida, com você e Indrani juntos, aqui, possa vir a ser uma relação do espírito divino que habita em todos nós. Qualquer um pode ser iogue; porém, o que acha de representar nesta vida terrena a imanência desse mistério da eternidade?"

    Então, Indra foi poupado do problema de ter de abandonar tudo e tomar-se um iogue, poderia dizer o leitor. Na verdade, em seu íntimo, ele já sabia de tudo isso, da mesma forma que nós. Tudo o que temos a fazer é despertar para o fato de que somos uma manifestação do eterno.


    Essa história, conhecida como "A Humilhação de Indra", acha-se no Brahmavaivarta Purana. Os Puranas são textos sagrados hindus que datam de aproximadamente 400 d.C. O aspecto fascinante a respeito da mi­tologia hindu é o fato de ela ter conseguido absorver o universo de que falamos hoje em dia, com seus vastos ciclos de vidas estelares, galáxias após galáxias e o nascimento e morte de universos. Isso reduz a força do momento presente.

    O que importa todos os nossos problemas relacionados às bombas atômicas explodindo o universo? Já houve universos e universos antes, cada um deles explodido por uma bomba atómica. Portanto, agora você pode identificar a si mesmo no eterno que habita em você e em todas as coisas. Isso não significa que você queira assistir ao lançamento de bombas atômi­cas, mas, por outro lado, não perde seu tempo se preocupando a respeito.

    Uma das grandes tentações de Buda foi a luxúria. A outra, o medo da morte, que, por sinal, é um belo tema para meditação. A vida lança à nossa volta essas tentações, essas perturbações mentais, e o problema consiste em encontrar o centro imutável dentro de nós. Então, pode-se sobreviver a qualquer coisa. O mito vai ajudá-lo a fazer isso. Não queremos dizer que você não deveria sair em passeatas de protesto contra a pesquisa atômica. Vá em frente, mas faça-o de maneira divertida. O universo é a diversão de Deus.

    Joseph Campbell, em 'Mitos de Luz: Metáforas Orientais do eterno', pág. 22 a 25
    Imagem: 'Lord Vishnu on Ananta', pintura Madhubani sobre papel por Dhirendra Jha.