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20120512

Minha 'Zen-zice' acaba no prato vazio - Geometria corpo-alma

Como todo pitta dosha que se preze, eu vivo com fome de comida. E com fome de comida, fica muito difícil para mim exercitar as virtudes do Yoga. Então, procuro sempre estar alimentada para que os outros não precisem conviver com minhas #zépequenofeelings.

Esse exercício todo me levou a parar de confundir emoção com sentimento, a distinguir emoção de sentimento e a diferenciar mais emoções e mais sentimentos.

Se desenharmos uma linha e colocarmos nela
um ponto médio;
corpo numa extremidade;
alma na extremidade oposta:



podemos localizar as emoções em algum ponto entre a extremidade do corpo e o ponto médio e os sentimentos entre a extremidade da alma e o ponto médio.

Além dessa falta de discernimento, é comum que todos tenhamos conjecturas paradoxais/pragmáticas a respeito de qual emoção/sentimento é oposto ao outro:

amor <=> ódio
amor <=> raiva
admiração <=> inveja
interesse <=> indiferença
afeto <=> desafeto (raiva/inveja/ódio)
apego <=> desapego


Primeiro, temos uma bagunça entre emoções (raiva, ódio, afeto) e sentimentos (amor, inveja). Seria prudente depurar e identificar onde ficam cada uma das 'coisas'(=emoções e sentimentos) entre o corpo e a alma de cada um.

Desenhamos outra reta, com seu ponto médio que vai se chamar ponto zero.



Numa extremidade, colocamos o sentimento ou emoção, por exemplo, amor. Vamos então, percorrendo a reta em direção ao ponto zero e dali em direção à outra extremidade onde encontramos o não-amor; assim podemos fazer para todas as emoções e sentimentos. Podemos ter pares: ódio<=> não-ódio, raiva <=> não raiva, afeto <=> desafeto, ... 

A parte isso, existe a necessidade do Ego mau educado de descarregar as emoções e sentimentos que não aceitamos em nós no outro no outro, como se o outro fosse o bode expiatório ( o outro não entende, o outro briga, o outro desperdiça seu tempo, ooutro não entende a ironia, o outro,... o inferno são os outros...)

A grande batalha da vida é interna, não é externa, portanto, não perca sua energia arrumando briga, procurando chifre na cabeça do cavalo: lute a luta que realmente vale, que é o aperfeiçoamento de si mesmo.


20110824

Sem arrependimentos

Programa entrevista o cantor de mantras americano Krishna Das - CBN

Krishna Das 'está' cantor de mantras e kirtans.

Kirtans são canções onde há um 'perguntador' e respondedor(es), formalmente o segundo repete o que o primeiro canta, prestando atenção para imitar o ritmo e melodia (duração e altura dos sons).
[O sapateado Flamenco tem disso, de perguntar e responder... é kirtan feito com o coração pelos pés.]

Mantras são ferramentas (tra= sufixo que sugere instrumentalidade) para o pensamento (man).

'Em contextos yogues, mantra significa fonemas numinosos com significados que podem ou não ter um sentido comunicável. (...) Mas esse é só um propósito dos mantras. Em geral, são empregados como simples mecanismos mágicos para se alcançar fins mundanos.'
Georg Feuerstein, em Enciclopédia de Yoga da Pensamento, pag.147)

O uso destas canções geralmente está vinculado à uma atividade devocional ou religiosa.
O Mantra-Yoga é um elemento tardio na longa história do Yoga, descendendo de práticas mágicas para a realização dos desejos que foram incorporadas no Yoga como ferramentas de percepção e realização do Si Mesmo.

Na prática do Yoga, o mantra e o kirtan pode ser utilizado como ferramenta para prestar atenção, ficar presente, estar consciente.

Qualquer som pode ser usado como mantra ou kirtan, se a proposta é prestar atenção, é descobrir o melhor de si mesmo. Agora, para fazer mágica=encanto=prestidigitação=ilusionismo, num serve não.

Me lembro vivamente de um show do Naná Vasconcelos no século passado, década de 80, que fui expectadora, onde ele fez um som com ajuda da plateia: era, segundo a proposição dele, o som da chuva na floresta. Ele dividiu o público em duas partes, metade batia palmas segundo um ritmo específico proposto por ele e a outra metade, ao mesmo tempo, cantava Aaaaahhhh; ele ia alternando a atividade dos dois grupos. Virou um instrumento de prestar atenção, de garimpar o melhor de cada um por si mesmo.

Então, cada um pode usar os sons como prefere, quer atribuindo ao som um poder mágico, quer usando o som como ferramenta de poder, pois o maior poder que podemos ter é o poder da coordenação de todas as nossas atitudes (= auto-controle).

20110721

A lição do rato

autoria desconhecida.

Um rato, olhando pelo buraco na parede, vê o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo no tipo de comida que haveria ali. Ao descobrir que era ratoeira ficou aterrorizado.

Correu ao pátio da fazenda advertindo a todos:
- Há ratoeira na casa, ratoeira na casa !!

A galinha:
- Desculpe-me Sr. Rato, eu entendo que isso seja um grande problema para o senhor, mas não me prejudica em nada, não me incomoda.

O rato foi até o porco e:
- Há ratoeira na casa, ratoeira !

- Desculpe-me Sr. Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser orar. Fique tranqüilo que o Sr. será lembrado nas minhas orações.

O rato dirigiu-se à vaca e:
- Há ratoeira na casa!

- O que? Ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!

Então o rato voltou para casa abatido, para encarar a ratoeira.

Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o da ratoeira pegando sua vítima..
A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pego.
No escuro, ela não percebeu que a ratoeira havia pego a cauda de uma cobra venenosa.
E a cobra picou a mulher...
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre.
Todo mundo sabe que para alimentar alguém com febre, nada melhor que uma canja de galinha.
O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la.
Para alimentá-los, o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo.
Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro então sacrificou a vaca, para alimentar todo aquele povo.

Moral da História:
Na próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se que quando há uma ratoeira na casa, toda fazenda corre risco.

O problema de um é problema de todos!

20110701

Dicas para uma aula de yoga bacana


A atitude de quem pratica é fundamental para se ter uma experiência agradável e frutífera durante as aulas. embora a prática seja geralmente individual, a conduta de cada um influencia no resultado total.

Algumas dicas interessantes para se tornar um praticante 'cheio de estrelas':

•Não coma imediatamente antes da aula.
•Seja pontual. Se possível, chegue adiantado e aguarde o professor em silêncio.
•Desligue seu celular. Embora pareça uma recomendação óbvia, é incrível o número de pessoas que esquece de desligar o aparelho.
•Não pise com calçados na área de prática. Nunca.
•Vista uma roupa confortável que permita seu movimento, o uso efetivo dos acessorios e que permita a seu professor observar seu corpo. Roupas muito volumosas podem anular o feitos dos cintos, roupas muito soltas expor sua pele mais do que você gostaria durante as invertidas, por exemplo.
•Evite beba água durante a aula.
•Não venha excessivamente perfumado(a): a tolerância para cheiros varia de pessoa para pessoa e você pode transferir seu perfume para objetos de uso comum (rolos, blocos, cintos, tapetes).
•Deixe para passar o hidratante depois da prática para não ficar escorregando.
•Preste toda a atenção no que é demonstrado ou em como é falado para fazer, passo a passo: cada aula é única, e o que é proposto se modifica a cada aula.

20110624

Qualidade do movimento?

Desde a revolução industrial, mais especificamente, desde o advendo das linhas de montagem, o ser humano vem perdendo paulatinamente o repertório de movimentos. Deixamos de caminhar para usar automóveis (até para ir à padaria na esquina), temos controle remoto para tudo, fazemos praticamente tudo sentados, repetindo, repetindo, nos repetindo. A cada momento ficamos mais empobrecidos, com uma variedade e amplitude menor de movimentos. Menos movimentos, menos saúde, menos criatividade, menos afetividade, menos 'felicidade'.

Nossos movimentos se relacionam diretamente com nossa inteligência e nossa capacidade de exprimir afetividade. Um repertório menor de movimentos é um vocabulário menor de movimentos, não produz uma expressão clara, assim como um vocabulário menor de palavras não produz fala clara.

O fator que nos torna mais criativos é a consciência, que também vem pelo movimento. Quando o movimento acontece e é causado e percebido por quem faz, ou seja, quando a pessoa identifica o início, o meio e o fim do movimento, quando a pessoa também percebe o caminho do movimento no corpo, ele se torna parte do repertório experimentado da pessoa. O movimento 'provocado' pelo automatismo, pelo instrumento, causa o movimento pontual, sem memória no corpo e produz um registro muito débil na memória do corpo. A pessoa pode até ganhar musculatura, porém continua pobre em consciência corporal ( e por isso perda e graça quando se move, adquire movimentos robotizados.)

20110622

Qualidade do Movimento


O aasana/ a postura quando feito com atenção plena na qualidade do movimento produz de modo rápido, eficaz e durável modificações profundas no corpo( beleza estética e saúde), na harmonia das emoções, no foco dos pensamentos.

A qualidade do movimento no aasana requer o sequenciamento correto dos movimentos (ações externas, que são visíveis, como por exemplo: flexionar o joelho direito) e das atitudes (ações internas, que não são visíveis ou são provocadas pelo uso direcionado e coerente da imaginação, como por exemplo: desamassar as pálpebras).

Sequenciar corretamente o movimento requer:
  • prática constante de quem ensina, para que as ações estejam sempre frescas no corpo e na memória;
  • identificação da organização corporal atual do aluno;
  • expressão da ordem correta dos movimentos e das atitudes para cada aluno, respeitando sua estruturação corporal e respiração atual, fazendo uso inteligente dos acessórios pelo tempo necessário.
Atualmente, é importante o correto sequenciamento das ações externas e internas devido ao empobrecimento do repertório dos movimentos que vem acontecendo desde a revolução industrial, e tem se intensificado muito na atualidade com o uso dos botões de controle remoto, pelo tempo que passamos sentados em cadeiras, em bancos de automóveis.

Fala e entende melhor quem lê, e escreve;de maneira análoga, se comunica melhor quem tem consciência da totalidade dos movimentos que faz, quem possui um vasto conhecimento de seus gestos e quem coordena os significados dos movimentos.

20110621

Qual é o preço da beleza?



Do mesmo jeito que nossa indústria de produtos de beleza parou na década de 50,
a mentalidade da maior parte das pessoas com relação à exercícios físicos que dão resultado parou na década de 1980, com as academias, a presença de sedutoras máquinas que prometem 'milagres',
e a imagem do Yoga se cristalizou na década de 1970, como sendo uma prática de relaxamento, no sentido de que nenhum esforço é necessário ou que é coisa de místico, esotérico ou bicho grilo.

Se sua cabeça está fazendo exercício no século passado, venha para o século XXI: Hatha Yoga pode ser uma prática intensa e desafiadora, depende muito da metodologia escolhida e da capacidade e habilidade do professor(a) que você escolher.

A prática correta de Hatha Yoga traz beleza física (Kaanti= beleza: a beleza física pode ser considerada como um dos sinais=cihna da prática correta de Yoga), transforma a forma física do corpo de dentro para fora em todos os 'sentidos'': no sentido de que há uma melhora nos processos não palpáveis (re-estruturação das emoções e sentimentos, re-organização da mente e pensamentos) e dos órgãos internos, ossos e músculos para a pele. Todas estas 'partes' se tornam flexíveis, tonificadas, do tamanho certo, ventiladas e juvenescidas, ao mesmo tempo em que o caráter e a vontade pessoal se tornam mais firmes.

Como sempre, a escolha de colocar em cheque seus conceitos (afinal,se seus conceitos sobre como exercitar seu corpo-sensação-mente são tão efetivas, por que você tem tanto medo de enfrentar uma aula prática de Hatha Yoga?) e de escolher a dedo quem vai te ensinar está em suas mãos!

20110607

Eu de mim sei = DeSiPleno



Estresse: dondevem, prondevai, quiquifaz, cuméquisai.

O contrário é DeSiPleno, disciplina.

Ser paciente

Com a chegada do frio, produzimos mais muco nasal porque os vasos sanguíneos que ficam dentro das narinas se dilatam, para aumentar o poder de aquecer o ar que é respirado, já que a temperatura ambiente está mais baixa e a temperatura interna das pessoas (vivas)continua a mesma.


O ar além de mais frio, pode se tornar mais seco, e junto com a tendência de algumas pessoas de ingerirem menos líquido, pode causar desconforto nas mucosas do nariz, da boca e da garganta. O próprio muco extra,que em parte é engolido, também pode causar esta sensação. E a pessoa ansiosa, pode se colocar precocemente gripada.

Observe-se.
Não entre na ansiedade nem no automatismo.
Não se coloque ou se julgue doente para encontrar uma resposta rápida/automática.

O estresse surge quando você manda mensagens dissonantes para si mesmo: cuide bem se seu corpo, de sua mente e de seu meio ambiente.

20110528

Multifacetado

Quem busca a prática de Hatha Yoga pelo método Iyengar dá de cara com uma das particularidades do método que eu ainda não percebi em nenhuma outra abordagem contemporânea da secular prática do Yoga 'Vigoroso': a grande variedade de execução de um mesmo aasana. Veja como exemplo algumas maneiras de se colocar em Adho Mukha Svanaasana:
Sem acessórios
(e esse cara aí é o arquétipo do yogue, magro, alongado e 'desenhado': massa muscular sem gordura, tonificada e presente - mais do que aparente - quando é necessário o uso da força muscular)


e as mulheres também ficam com a musculatura sequinha e tonificada, mesmo quem tem retenção de líquidos (experiência prórpia) acaba secando, desde que pratique regularmente, é claro!
(E isso não depende da idade, e sim da regularidade e a quantidade de vezes em que se pratica na semana.
Para conseguir um resultado equivalente, pratique pelo menos 2 a 3 vezes por semana.
O tempo médio de resposta, para todos veres seus músculos secando e desenhando é de 2 a 3 meses.)
O mais bacana é que a pessoa fica mentalmente mais leve e mais elegante emocionalmente.


 Seguem algumas (não são todas as) variações com acessórios:

Ensina a abrir e fortalecer as articulações de pescoço+ombros+costelas, dos quadris, alonga e fortalece a coluna. A corda pode ser substituída por um cinto e um assistente.

Alonga e fortalece a coluna, auxilia quem tem excesso de peso ou pouca força nos braços (cordas).

 Alonga a coluna e massageia a parte de trás da bacia (articulação sacro-ilíaca).

Realinhamento e abre as articulações do pescoço, ombros, costelas, vértebras toráxicas.

 Abre a bacia e as costelas+ombros, alonga a musculatura ao longo de todas as vértebras da coluna, fortalece a musculatura do braço (o 'tchau', inclusive), auxilia a permanência de quem tem excesso de peso ou pouca força .

 Alonga e fortalece a musculatura posterior, fortalece os braços, massageia a articulação sacro-ilíaca, estímula a consciência e a confiança no movimento do outro, o trabalho em equipe, a cooperação, a assertividade, a solidariedade.

 Alonga a musculatura posterior, abre peito+ombros+pescoço de pessoas que possuem lesões articulares no ombro, pulsos, tendinites, excesso de peso, enxaquecas, que estão gestando, que tem pouca força ou  flexibilidade.

Alivia a dor de cabeça, fortalece os braços, abre o peito+ombros, alivia a dor postural no pescoço+ ombros.

A função de tantas variações é provocar sensações diferentes, para expandir:
seu repertório de percepção,
sua coordenação neuro-motora,
sua memória,
sua capacidade conectar informações/percepções/sensações,
sua memória quadrimensional (nas 3 direções do espaço e do tempo),
para regular/re-organizar sua percepção interna com a realidade material (= parar de achar que seu pé está alinhado quando na realidade está torto, perceber o alinhamento ou desalinhamento dos quadris, a inclinação indesejável da coluna ou da cabeça durante uma torção, por exemplos).

E também para dar oportunidade das pessoas lesionadas, pouco flexíveis física e mentalmente,  convalescentes ou em 'estado interessante' executarem e se beneficiarem sem restrições e com segurança da prática do Hatha Yoga.

Serve também para trazer integralidade, integridade, novos desafios, criatividade, curiosidade para a prática de aasanas.
Integridade = Vitalidade.

O uso de acessórios permite a todos, sem excessão, refinar a percepção neuro-motora de maneira tridimensional e executar o assana com mais assertividade. O praticante tem refina rapidamente a capacidade de alinhamento ósseo-articular e o uso adequado da musculatura, contraindo somente o músculo ou grupo muscular essencial e descontraindo e alongando a musculatura essencial, que é o foco de liberação no aasana.
.:.
O aasana é tratado como um diamante raro e precioso, que quanto mais facetas possui, mais concentra a luz em seu centro e mais a reflete para o seu exterior.

20110505

Transformação ou crise?

Toda prática de aasana é uma oportunidade para uma transformação, que pode se transformar numa crise quando temos de enfrentar uma situação 'limite', como um aasana que desgostamos ou uma temível permanência, ou simplesmente fazer o empenho, a volição de manter a mente atenta e relaxada e prestar atenção nas atividades durante a aula.

Muitos praticantes desenvolvem resistências (a mente e a emoção do praticante luta contra os processos de deslocamento da zona de conforto=acomodação que a prática do Hatha Yoga instiga.) e as exibem em sala de aula, geralmente sob a forma  de uma pergunta ou atitude totalmente desconectada do que ocorre da aula, como por exemplo, citar ou 'executar' uma instrução que não foi dada, fazer perguntas (repetitivas ou não) quando o processo de relaxamento já está iniciado. É interessante prestar atenção: quem está presenciando a ação não deve se apegar ao ato do colega para estabelecer uma avaliação da qualidade da aula ou do dicernimento do professor, quem está atuando deve se observar em ação para ter a oportunidade de deixar de ser resistente e de se auto-boicotar.

Segue abaixo o relato de Ana Paula Malagueta Gondim, contando como venceu uma resistência emocional:

ÁSANA, O TESOURO PERDIDO

Muito já se disse e especulou sobre os ásanas, a começar muitas décadas atrás por Patañjali:

'Ásana é [a postura do corpo], firme e agradável. [O ásana] transcende-se ao relaxar no esforço e meditar no infinito. Assim, consegue-se o estado de transcendência das dualidades.'
Yoga Sutra, II:46-48.

Nos dias de hoje, muitos praticam sequências ou séries pré-estabelecidas de aasanas, outros através do alinhamento corporal e alguns dizem que se preocupar apenas com o excelência no desempenho nos aasanas deve ser secundário e foge do objetivo do Yoga.

Por isso tudo e mais um forte desejo pessoal, gostaria de compartilhar a minha visão sobre os aasanas, tendo em vista uma experiência muito marcante para mim.

Há uns três anos atrás resolvi praticar com maior intensidade alguns aasanas de força, muito mais pelo tapas e incentivo de uma pessoa próxima a mim. Praticávamos juntos e isso me mantinha estimulada. Uma das partes mais difíceis era o momento de treinar o chaturanga dandásana. Eu detestava profundamente esta postura, desistia fácil. Mas como praticava com outra pessoa, está me incentivava a continuar persistindo.

Até que chegou um dia em que fiquei por um longo tempo neste ásana, longos minutos.... parecia uma eternidade, os ponteiros dos relógios pareciam congelados. Tentava desesperadamente me concentrar apenas na respiração, respirava, respirava e mesmo assim o tempo se arrastava. Dizia para mim que não ia desistir, mesmo que tremesse tudo. Eu não estava disposta a desistir. A postura não estava me machucando, eu estava respeitando 100% o ahimsa, então poderia continuar. Depois que o tremor do corpor cessou, inicio-se uma batalha interna. Minhas emoções e minha mente estavam armadas da cabeça aos pés, dispostas a tudo para me fazer desistir da permanência, que já se estendia por alguns minutos.

Percebi então, que a única coisa que eu poderia fazer no momento era respirar e observar. O fato foi que o jogo foi sujo. Começou a me bater um desespero. Eu senti uma vontade imensa de gritar e junto com essa sensação surgiu um forte tremor, que não era percebido fisicamente a olho nu. Tudo isso acontecia no meu universo interior. Parecia que o meu anaahata chakra ia explodir e que o manipura iria transbordar. Eu estava sentindo muito, muitas coisas. Eu não conseguia controlar ou entender o que sentia. Foi exatamente neste momento que comecei a chorar. Chorei, chorei e me debulhei em choro.

O choro passou. E com ele levou toda a guerra junto. A única coisa que ficou foi uma gostosa sensação de vitória. Eu havia vencido uma guerra interna. Eu havia vencido a mente e as emoções que tentaram sabotar minha permanência. Pois eu ainda estava firme e forte no ásana. Não existia tremor algum no meu corpo. Eu respirava tranquilamente quando tudo terminou. Finalmente percebi que agora pudia desfazer a postura.

Permaneci um bom tempo apenas ali. Deitada tentando juntar as peças do quebra-cabeça e compreender o que tinha acontecido. O que inicialmente seria apenas mais uma prática de Yoga, se tornou em uma incrível descoberta. Ali, em meio a permanência dissolvi um vaasanaa (extremamente forte, só para salientar), se fez a luz e pude claramente enxergar. O karma que havia gerado um vaasanaa que havia formado um vritti. Ufa! Uma coisa a menos, no meio de tantos samskaaras.

Foi uma experiência totalmente surpreendente para mim. Foi a primeira vez que algo deste tipo havia acontecido. E aconteceu em um aasana! Todos os paradigmas e pré-conceitos estabelecidos depois daquele dia se foram e a prática de aasanas nunca mais foi a mesma. Percebi que há muito mais por de trás de um simples alongamento e esforço muscular. Há um universo além da manutenção do corpo e através das estradas de prana.

Os aasanas são aqueles que nos conduzem há um universo onde os músculos, as articulações, os órgãos e os ossos são o espelhos das nossas experiências passadas. Carregados do que somos. O simples fato de colocar o corpo de uma forma única nos leva a uma experiência diferenciada. A permanência nessas porturas ajudam a dissolver condicionamentos desenvolvidos ao longo das vidas. A liberar emoções presas nos chakras e a permitir que essa energia escoe por todo o nosso Ser. Levando esta energia a entrar em comunhão com o restante do corpo-mente. Nos tornando inteiros de consciência. Pura consciência.

Desde então faço questão de compartilhar isso com meus alunos, sempre que posso. Discursando que quando moldamos nosso corpo em uma postura, nos tornamos ela, de corpo e alma. Da importância de aproveitar a permanência e se observar. Depois que você checou se o corpo está bem posicionado, de que o alinhamento está correto e de há conforto, a viagem começa. A viagem em busca do tesouro perdido. Não estamos em busca de apenas colocar o pé atrás da cabeça, se fosse só isso, mandaria todos para o circo. Queremos mais! Queremos o tesouro.

Mergulhamos então na respiração que nos conduz pelo corpo e sentimos a nossa presença do dedão do pé ao último fio de cabelo. E cada novo ciclo respiratório, cada molécula de praana que percorre nosso corpo é uma nova oportunidade de sentir. Entender como nos sentimos naquela postura. O que passa pela nossa cabeça na permanência. Que tipo de emoção emerge. Permitir-se viajar pelo nosso Universo Interior. Pelo desconhecido, sem medo de defrontar as limitações e de superar o que antes era um muro interminável. Como o era aquela postura para mim. E viajar, sem se preocupar com o tempo, com o ganho final. Ishvara Pranidhana. Entregue-se. Busque o tesouro perdido: o Ser.


Om shanti! Om prema!

20110323

Yoga para Atletas


O atletismo e os outros esportes exigem uma disciplina física vigorosa para que se desenvolvam velocidade, força, resistência, precisão e agilidade. Enquanto a parte muscular do corpo se desenvolve, muitas vezes os órgãos internos permanecem fraços ou reprimidos e a mente pode até se entorpecer. Os atletas não são capazes de manter a supremacia em seu campo de ação por muito tempo: embora o consumo de energia seja máximo, os poderes de recuperação são pouco desenvolvidos. Nisso a ioga pode auxiliar os atletas. . .

O conhecimento e o domínio do iogue sobre o corpo são muito mais detalhados que os do atleta. Ele reconhece cinco camadas do corpo humano: o corpo anatômico, que consiste de ossos e músculos; a camada fisiológica, feita dos sistemas respiratório, nervoso, circulatório e digestivo; a camada psicológica ou emocional; a camada mental ou camada interna intelectual e, por fim, o estado glorioso do ser.

O repertório usual de atividades para um atleta inclui exercícios de contração e dilatação dos músculos. Levantamento de peso, corrida, natação e competições de diferentes gêneros desenvolvem a estrutura anatômica do corpo, mas no nível orgânico ou fisiológico a atenção é nula.

Em geral apresentamos uma enorme massa pesada apoiada sobre órgãos internos pequenos e pouco desenvolvidos, A ioga não se satisfaz com o desenvolvimento externo dos músculos. Ela acredita na comunicação adequada dos órgãos internos e da estrutura anatômica do corpo. Liberdade e força são fornecidas para baço, pâncreas, fígado, coração, rim e todos os outros órgãos através dos mesmos processos de contração e dilatação normalmente usados para o desenvolvimento dos músculos.

Da mesma forma, o posicionamento antigravitacional dos órgãos internos nos ãsana invertidos, como os apoios sobre a cabeça ou sobre os ombros, revitaliza os órgãos, enquanto a circulação sanguínea se aprimora devido à mudança na atração gravitacional,

Por fim, a atenção dada à ausência de tensão nos órgãos e a resposta destes à ação dos músculos faz esses órgãos passarem com rapidez para um estado de relaxamento e, portanto, podem ser recarregados sem demora com a energia gerada pela prática dos ãsana. Do mesmo modo, é fornecida elasticidade aos músculos intercostais, às articulações das costelas e à coluna, bem como aos pulmões, e aumenta-se a capacidade respiratória pelas técnicas conhecidas como prãnãyãma.

B. K. S. Yiengar, em "Yoga for Athletes", Poone Herald Diwali Special Supplement, 21 out. 1968.