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20101027

DYS 1.14 - A Prática bem sucedida


1.14 sah tu dirgha kala nairantaira satkara asevitah dridha bhumih

Quando esta prática é feita por tempo adequado e considerável, sem interrupção e com devoção sincera, então a prática se torna um um alicerce firme, enraizado, estável e sólido, se torna bem sucedida.

sah = isto, esta (prática)
tu = e, mas, no entanto
dirgha = longo
kala = time
nairantaira = sem interrupção, continuamente,
satkara = devoção sincera, respeito, reverência, atitude positiva, ação correta
asevitah = perseguidos, praticada, cultivada, atendidos, feito com atenção assídua
dridha-bhumih = sólido, fundação estável, firmemente enraizada, de terra firme (dridha = empreendimento, estabelecimento ; bhumih = terra )

Sempre haverá uma tendência em iniciar a prática com entusiasmo e energia, e buscando resultados imediatos. Mas as pressões contínuas do dia-a-dia e a enorme resistência da mente humana nos incitam à sucumbir às fraquezas humanas. Tudo isso é compreensível, até a página 2, todos nós temos tendências que nos destroem, porém todos nós também possuímos a chave mestra para nos livrar das inclinações que nos aprisionam: a prática correta, constante, dedicada e sincera.

É importante tentar manter a regularidade na prática do Yoga, pois a cada ruptura somos obrigados a retomar de um ponto bem mais atrás onde estávamos, portanto é recomendado que se pratique sempre, quanto mais  perseverante e disciplinada a prática, melhor.

Devemos encarar a prática como encaramos a satisfação de nossas necessidades básicas: alimentamos nosso corpo todos os dias, vamos ao banheiro todos os dias, escovamos os dentes e nos lavamos todos os dias, dormimos todos os dias; nossa prática de Hatha Yoga também deveria ter lugar junto às atitudes que mantém e promovem nossa saúde e nosso bem estar. 

Algumas pessoas arrumam tempo para fazer fofoca, outras ocupam sua mente com pensamentos negativos ou azedam suas emoções, ou fazem tudo isso todos os dias. Se nós podemos fazer todas essas coisas todos os dias, então também podemos fazer as práticas que levam à tranquilidade a cada dia, sem exceção.

Praticando sempre, regularmente, devotadamente, um dia a pessoa pode a perceber que sua prática é uma uma parte elegante, simples, surpreendente, maravilhosa e gratificante de sua vida.

A pessoa pode perceber que a prática do Yoga  é realmente sua atividade/atitude mais valioso, e que a prática é responsável pelo sorriso sincero que esta pessoa transpira por todos os poros. 

20101026

DSY 1.11 - Memória


1.11 anubhuta vishaya asampramoshah smritih

Memória é a retenção mental de uma experiência consciente.

anubhuta = experientes
vishaya =  objetos da experiência, as impressões
asampramoshah =  não ser roubado, não sendo perdido, além de não ter
smritih = memória, lembrando-se

Cada experiência consciente deixa uma impressão no indivíduo e são armazenadas como memória. Não é possível distinguir se uma memória é verdadeira, falsa, incompleta ou imaginária.

A memória pode ter sobre as associações: a memória é algo com o qual todos estamos familiarizados. Algumas impressões armazenadas anteriormente simplesmente são despertadas no inconsciente, e depois brota na consciência, de ter perfurado o véu entre o consciente e o inconsciente. No entanto, revisitar a  memória, muitas vezes traz consigo muitas outras memórias que, depois, ficam interligadas de tal forma que a memória original não é mais percebida em sua forma pura. Em outras palavras, a memória está sendo distorcida, pois nela estão misturados com outros tipos de padrões de pensamento.

A memória que está descrita aqui é a memória pura, sem ter aliciado ou sem acrescimos de outras memórias ou da criatividade, fantasia alucinante ou da imaginação, que é outro processo mental (vikalpa) . É bastante natural que essas impressões pensamento a subir no campo da mente. Ao discriminar entre os tipos de pensamentos, podemos ver quais são apenas memórias, e quais são as memórias que foram distorcidas e efetivamente se transformou em fantasias, que são vikalpa, descrita em 1,9 sutra. A memória sem gadgets, sem acréscimos não chega a ser preocupante para a nossa paz de espírito natural, ao passo que, quando associado com todos os outros processos , leva ao processo mental problemático que pode bloquear a meditação profunda.

20101012

DSY 1.9 - Imaginação


1.9 shabda jnana anupati vastu shunyah vikalpah

A fantasia ou a imaginação (vikalpa) é um padrão de pensamento que tem expressão verbal e conhecimento, mas que não possui respaldo num objeto ou na realidade existente.

shabda = palavra , verbal, expressão sonora
jnana = pelo conhecimento, sabendo
anupati = seguintes, em seqüência, dependendo
vastu = a realidade, objeto real, objeto existente
shunyah = sem, no vazio
vikalpah = imaginação, equívoco verbal ou ilusão, fantasia, alucinação

A faculdade mentalde imaginar ou fantasiar é uma das atividades mentais mais intensas e initerruptas: uma boa parte da energia (ATP) e do tempo que nosso cérebro dispende é gasta na atividade de criar e encadear palavras e imagens, recriando um passado ou devaneiando um futuro que nem sempre tem a ver com a realidade.

Podemos criar imagens de fatos, estabelecer avaliações sobre as pessoas a partir da ausencia total de observação direta e indireta, sem nenhuma referência confiável ou verdadeira: são os pré-juízos, pré-conceitos. E da mesma forma como a compreensão incorreta pode gerar enganos 'coloridos', e por consequencia, aos resultados equivalentes.

Como a compreensão, a imaginação pode ser orientada através da prática do Yoga no sentido do melhor aproveitamento de suas potencialidades. Isto pode acontecer durante a prática de aasanas, quando usamos a imaginação para potencializar inicialmente uma sensação que não percebemos;também podemos fazer uso acertado da imaginação durante a meditação, quando estabelecemos um propósito, uma meta.

20101011

DYS 1.8 - A Compreensão Equivocada


1.8 viparyayah mithya jnanam atad rupa pratistham

O conhecimento incorreto ou errôneo (viparyaya) é o conhecimento falso formado por perceber uma coisa como sendo diferente do que ela realmente é.

viparyayah = cognição irreal , indiscriminação, cognição pervertida, conhecimento errado, equívoco, saber incorreto, não ver com clareza
mithya = do irreal, falsas, errôneas, ilusória
jnanam = saber, conhecimento
atad = não a sua própria, não que
rupa  = forma , a natureza, a aparência
pratistham = com base em, possuindo, estabelecido, ocupando, firme

A compreensão equivocada é o entendimento obtido através da percepção falha do objeto ou experiência, ou por má interpretação daquilo que é visto, observado ou estudado ou quando a fonte de pesquisa utilizada está corrompida. A compreensão incorreta pode ser tomada como correta até que condições mais favoráveis revelem a verdadeira natureza do objeto.

A compreensão equivocada é considerada uma das atividades mentais mais frequente, junto com a imaginação (DYS 1.9): o que você vê na figura abaixo?


As ilusões de ótica, o sucesso do prestidigitador, ou a graça da brincadeira do telefone sem fio* são experiências sensoriais que mostram como facilmente nossa compreensão dos fatos pode ser equivocada. Os 'achismos', dogmas e paradigmas também podem ser inseridos neste tipo de faculdade mental, já que podem nos levar ao conhecimento equivocado.

Isso se deve à nossa falta de capacidade em compreender a experiência que estamos vivenciando em toda a profundidade e em toda a extensão, muitas vezes por causa das experiências passadas e condicionamentos ou das opiniões equivocadas ( os 'achismos', a fofoca, ... ) de outras pessoas.

Lembre-se de quantas vezes você avaliou uma situação ou julgou uma pessoa, e depois descobriu que havia alguma peça ou informação que faltava, e essa nova informação fez a sua percepção mudar completamente. Por exemplo, imagine que você vê um amigo ou colega de trabalho que aparenta estar aborrecido, e cuja atitude pode parecer indelicada (negativa) para com você. Essa pessoa pode realmente estar com raiva por ter tido uma discussão com alguém, e a reação (cara feia) não teve nada a ver com você. Ou pode estar sentindo dor ou fome, e você pode ter interpretado a cara de dor ou de fome de maneira equivocada.

Ideias erradas podem causar ações coloridas (klishta): O problema com esses equívocos é que eles podem levar aos enganos 'coloridos', os chamados kleshas. Se fossem simplesmente equívocos sem cor, não haveria problema. Mas imagine o potencial dos equívocos dos relacionamentos com as pessoas, como no exemplo acima. O resultado pode ser o aumento do egoísmo, da malidicência, das atrações, das aversões e dos medos. Assim, é interessante se esforçar para que os equívocos (viparyaya) se tornem a percepção correta (pramana).

A prática do Yoga liberta, pois ajuda a reconhecer e controlar as causas da compreensão errônea.

brincadeira do telefone sem fio*
Para essa brincadeira serão necessárias, pelo menos, cinco pessoas, porém, quanto mais pessoas mais engraçado a brincadeira fica.
Sentados em linha reta ou em círculo, a primeira pessoa inventa secretamente uma palavra e fala, sem que ninguém mais ouça o que ela está falando, nos ouvidos da próxima pessoa .
Assim, o próximo fala para o próximo e assim por diante até chegar ao último.
Quando a corrente chegar ao último esse deve falar o que ouviu em voz alta.
Geralmente o resultado é desastroso e engraçado, a palavra se deforma ao passar de pessoa para pessoa e geralmente chega totalmente diferente no destino.

20101010

DYS 1.7 - A Compreensão Correta


1.7 pratyaksha anumana agamah pramanani

A compreensão correta se baseia na observação direta do objeto, na inferência e na referência a fontes confiáveis (pesquisa).

pratyaksha = percepção e cognição direta
anumana = inferência, raciocínio, dedução
agamah = autoridade, validação, testemunho provado competente
pramanani = meio válido de conhecimento, provas, fontes corretas de conhecimento correto

A tradição do Yoga preconiza que você não deve acreditar no que você ouve, mas que você deve buscar a experiência direta. Este é o significado do primeiro desses três modos de conhecimento: se dar a oportunidade de ter a sua própria experiência, construir sua sabedoria através da sua percepção sensorial a respeito do objeto em questão.

A segunda maneira de obter o conhecimento correto indicada pelos Yoga Sutras é a do raciocínio, pelo qual você pode estudar o objeto à luz de sua própria inferência ou raciocínio. Recomenda-se esta forma de obter o conhecimento correto quando a informação disponível no momento é inadequada ou incompleta para a percepção sensorial, fazendo uso de outras faculdades mentais como a lógica e a memória do bem.

A terceira maneira de obter o saber irreprensível é que você procure a validação de suas observações através de alguma autoridade respeitada ou de algum testemunho digno. Esta autoridade pode ser o conteúdo te um texto reconhecido, como o Yoga Sutras, ou alguma pessoa respeitada, que tem conhecimento em primeira mão ou respeitado. Desta forma, podemos compreender conceitos, pessoas, lugares, para além de nossas experiências diretas.
Para o praticante sincero, todos os três métodos de garimpar e burilar o conhecimento correto são igualmente importantes e válidos. O praticante sincero, ao obter um conhecimento correto por uma das vias, sempre vai investigar sua validade à luz das 2 outras maneiras de obter o conhecimento íntegro. A convergência dos três assegura o valor irrepreensível do conhecimento correto, nos ajuda a chegar mais perto do estado de Yoga, onde a compreensão ocorre de maneira diferente da que existe nos momentos fora do estado de Yoga. A compreensão no estdo de Yoga está mais próxima da verdadeira natureza do objeto. 

Muitas vezes, as pessoas têm alguma experiência e não têm compreensão do que aconteceu, nem qualquer validação. Isto pode ser frustrante e temível, e pode gerar equívocos e sofrimento. Se uma pessoa tem apenas um raciocínio lógico, mas nenhuma experiência sensorial ou de validação pela pesquisa, pode levar a mera intelectualização. Se a pessoa só tem o conhecimento por consultar as fontes de pesquisa, sem entendimento pessoal ou experiência, que pode levar à fria memorização, como pode acontecer nos estudos acadêmicos ou com uma religião fundamentalista.

Dos cinco tipos de padrões de atividades mentais, pramana ou conhecimento correto é o que deve ser cultivado. Este processo de ver com clareza, de ver as coisas como elas são, é uma das maneiras de descrever a viagem interior, e pode revelar a Realidade Absoluta, o Verdadeiro Ser imutável.

20101009

DYS 1.5 e 1.6 - As Cinco atividades da mente


1.5 vrittayah pancatayah klishta aklishta

Ha cinco padrões de atividade na mente.
Cada um deles pode ser benéfico e cada um deles pode causar problemas.

vrittayah = as atividades mentais são
pancatayah = cinco maneirasque podem assumir 2 diferentes formas
klishta =  Coloridos, dolorosos, doloridos, aflito ou que causa aflição, impuro, turvo. A raiz Klish significa a causar problemas; (klesha é a forma substantiva do adjetivo klishta)
aklishta =  incolor, não doloroso, que não causa sofrimento, puro, claro, não imbuídos kleshas

A qualidade benéfica ou problemática das atividades mentais não pode ser observada de imediato: somente a observação dos resultados com o passar do tempo vai mostrar o resultado de nossas ações.

As duas formas distintas que os padrões de atividade mental podem assumir são coloridos ( klishta ) ou sem cor ( aklishta ).
Vários pares de palavras podem ser usados para descrever klishta e aklishta, e cada um acrescenta um certo sabor, uma nova faceta para a compreensão do significado destas palavras.

klishta (colorido) - (não-colorido) aklishta
dolorosa - não doloroso
inútil - útil
aflitos - não aflitos
impura - pura
conturbado - tranquilo
negativo - positivo
vício - virtude
longe de iluminação - em direção à iluminação
aprisiona - liberta

Padrões chamados coloridos tem a ver com a ignorância, egotismo, normose, neurose, a apegos, aversões e medos , torcem a Realidade (realidade nua e crua) para esta mente que observa,  gerando equívocos e sofrimento (duhkha).
Os padrões sem cor não afetam a percepção da Realidade, vemos tudo como realmente é, de modo natural.

A simples observação de padrões de pensamentos se são coloridas ou não coloridas é uma parte muito útil do processo de purificação, o equilíbrio, estabilizar, ou acalmar a mente, para se chegar à  meditação profunda e à clareza mental. Observar o padrão de um pensamento ou emoção significa apenas registrar intimamente ,'Isto é colorido', ou 'Isto não é colorido'.  Da mesma forma, perceber se alguma decisão ou ação é útil ou inútil traz grande controle sobre seus hábitos da mente: simplesmente observe, e registre para si mesmo: 'Isto é útil', ou 'Isto é inútil'.


1.6 pramana viparyaya vikalpa nidra smritayah

As cinco atividades são: a compreensão correta, a compreensão equivocada, a imaginação, o sono profundo e a memória.

pramana = a cognição ou percepção real ou válida, o conhecimento certo, prova válida, visão clara, discriminação
viparyayah = cognição irreal ou pervertida, indiscriminação, conhecimento errado, equívoco, saber incorreto, não ver com clareza
vikalpah = imaginação, ilusão, fantasia, alucinação
nidra = sono profundo
smritayah = memória, recordação

Estas faculdades tendem a trabalhar juntas, com excessão de nidra: experimentamos uma mistura com diferentes proporções de cada uma delas a cada segundo do dia. Os efeitos de cada uma dessas combinações de atividades mentais podem ser bons ou maus, dependendo do que fazemos com cada combinação, ou do que cada combinação faz com conosco.

Ao aprender a observar o processo de pensamento, e então a discriminar entre estes cinco tipos de padrões mentais, nós começamos a ganhar o domínio sobre eles, e adquirimos a capacidade de controlar nossas ações, palavras e pensamentos. Podemos, então observar todo o fluxo da mente sem nos afetarmos, nos perturmarmos ou nos deixarmos envolver por ele, nos mantendo em paz. Estamos meditando!

Sem esse domínio, nos tornamos vítimas de nosso próprio processo mental inconsciente, perdendo a liberdade de escolha na vida exterior, assim como a habilidade de experimentar a meditação (profunda).

20101007

( DYS 1.2 ) - Nirodha?

No sutra 1.2, Patãnjali define yoga como a capacidade de permanecer em um estado mental específico, que ele denominou nirodha.

Vyasa, em seu comentário, discrimina 5 'tipos' de mente (como se fosse 5 modelos de um produto, 5 modelos de carro por exemplo, risos!), segundo o tipo e forma de coordenação da atividade mental. E nirodha é o estado mental mais harmonioso que a mente pode alcançar, segundo a concepção de Vyasa.

O nível 1 é chamado de ksipta (perturbado/obliterado): e pode ser comparado a um macaco bêbado, que pula e balança de galho em galho: pensamentos, sensações e percepções vão e vem, uma após ao outro, em sucessão vertiginosa, de tal forma que mal temos consciência deles e não é possível estabelecer nenhum fio de condução entre eles.

O nível 2 é chamado de muudha (aborrecido/desanimado): a mente se comporta como um búfalo pesado mergulhado na água que permanece no mesmo lugar por horas sem fim. 'Qualquer inclinação para observar, agir ou reagir praticamente desapareceu. Esse tipo de estado da mente pode surgir por muitas causas. Podemos nos sentir assim pesados depois de comer demais, ou como resultado de dormir de menos. Certos remédios podem causar este estado mental.' Algumas pessoas reagem assim quando se deparam com uma decepção profunda, quando não conseguem conquistar algo que era muito desejado. Este estado mental também pode aparecer em pessoas que, após muitas tentativas 'mal-sucedidas' de fazer algo na vida, desistem de tentar e não querem mais saber de nada.

O nível 3 é chamado de viksipta (distraído/disperso): Aqui há movimento mental, mas esse movimento é inconsistente e sem direção: a mente se depara com obstáculos e dúvidas, alternando entre saber o que quer e a incerteza, entre autoconfiança e insegurança.

O nível 4 é chamado de ekagrata (focado): mente relativamente clara, influenciada por poucas distrações. A mente tem direção e sentido, e pode progredir mantendo a atenção na direção e sentido da mirada. Este estado mental que exercita a habilidade de focar a atenção, é uma habilidade elementar para a meditação e o samadhi e corresponde a dhaaranaa. 'Praticando Yoga, podemos crias as condições que gradualmente conduzam a mente do nível ksipta ao de ekagrata.' ( T. K. V. Desikachar, em 'O Coração do Yoga'.)

Quando o estado de ekagrata ( coordenado é mantido constante e sem flutuações alcança-se o nível 5 chamado nirodha: a mente clara e capaz de manter pelo tempo desejado o foco designado da atenção. 'A verdadeira compreensão deste estado de espírito só vem através de práticas de meditação e contemplação, e não se trata de suprimir pensamentos, sentimentos e/ou emoções (que não é saudável!), pelo contrário, tem a ver com esse processo natural quando a mente está direcionada e torna-se progressivamente mais focada ainda conforme a meditação aprofunda. Não há repressão ou supressão dos padrões de pensamento, mas que a atenção se move para além do fluxo de impressões interiores.Nessa quietude profunda, há um controle sobre o processo da mente.É essa mestria que se entende por nirodha.' (Swamij)

Lucero: T. K. V. Desikachar, em 'O Coração do Yoga', Swamij

Segundo Desikachar, a maioria das pessoas se encontra com a mente no estágio viksipta.

Qual a utilidade de conhecer estes tipos de estados mentais?
Saber onde sua mente está agora indica como você pode chegar ao estado mental harmonioso, que (aparentemente) todos almejamos.
Ajuda a 'encontrar' a felicidade.


Swamij aconselha;
Observe e se torne (cons)ciente de seu estado ‘de espírito’(=tipo de mente) ao longo de todo  ou da maior parte do dia, do período em que se encontra ativo/acordado/com os olhos abertos: se tornr ciente, testemunha de seu estado de espírito geral.

Se questione:
* Qual dos cinco estados mentais predomina ao longo de cada dia?
O simples ato de identificar o seu estado mental típico é muito útil na evolução desse estado de espírito, e mais adiante, no progresso ao longo do caminho da meditação do Yoga.

Se sua mente está principalmente nos dois primeiros estados (ksipta ou muudha), como você pode utilizar a vasta gama de práticas de Yoga para trazer a mente ao estado viksipta e depois ao estado ekagra?
Como você pode usar outras práticas complementares ou terapias para ajudar neste processo?

Se a mente é viksipta: se sua mente está principalmente no estado viksipta, como você pode trabalhar com a concentração de suas práticas de forma mais completa para colaborar em direcionar sua mente em uma única direção e sentido, e alcançar o estado ekagra?

Se a mente é ekagra: se você é capaz de treinar a mente para estar em ekagra e, em seguida, como você pode intensificar suas práticas de modo a atingir vislumbres do domínio sobre a mente chamada nirodha?

(DYS) - O que é?

DYS => 'Divagações' sobre os Sutras organizados por Patañjali, individualizando ou separando pequenos grupos de sutras.

(DYS) => 'Divagações' sobre comentários  feitos por gente de peso sobre os Sutras organizados por Patañjali, individualizando ou separando pequenos grupos de sutras.




20100913

DYS - 1.30 e 1.31

Os 9 obstáculos que impedem a caminhada no Yoga

Os nove obstáculos que aparecem na lista de Patanjali são:

doença

letargia
Devido aos excessos/faltas e percepçãos dos sentidos, como comer demais ou dormir de menos, clima frio ou pela natureza da mente que está lenta ou sente dificuldade em se manter em estado de relaxamento ativo.

dúvida ou incerteza da ação
Praticar Hatha Yoga vale a pena? Como vou continuar? Talvez eu deva procurar outro/a professor/a. Talvez eu deva fazer musculação/dieta/ginástica localizada/Kung Fu/Tai Chi/...

pressa ou impaciência
Busca imediata de resultados sem a compreensão através do veículo corpo-mente, desejo de aprender outros aasana-s sem ter compreendido e corporificado os aasana-s já propostos,desejo de fazer aasanas-s incompatíveis com o atual estado de saúde, gera tropeços, desgaste e estagnação por falta de análise e reflexão.

resignação, fadiga ou falta de entusiasmo
Talvez eu não seja a pessoa certa para fazer isso. Tive um dia muito cheio, estou sem energia e não vou praticar. Não consigo sentir. Não consigo fazer o que é solicitado. Não sei como fazer a ação com menos força, sem empurrar. Isso é muito difícil, não vou conseguir fazer isso.

distração
Os sentidos se tornam senhores do corpo e da mente, quando esta é que deve ser a origem da coordenação. Isso acontece de forma fácil e imperceptível, pois somos estimulados e treinados desde muito cedo a nos deixar levar pelos sentidos.

ignorância ou arrogância
Quando achamos que já sabemos tudo, que já atingimos o topo apenas porque tivemos um período de lucidez e tranquilidade.

incapacidade de prosseguir, falta de coragem, de interesse de tentar novamente
Quando achamos que demos um grande passo e percebemos em seguda que ainda não entendemos tudo. 'Para mim chega, eu pensei que era isso, que era assim assado, passei meses fazendo dessa maneira e agora é que o/a professor/a que fala que não é? Me sinto como um idiota, não vou continuar.

incapacidade de confiar em si mesmo, de ver-se como é, de se manter onde está
Quando nos supomos melhores do que realmente somos, ou quando chegamos num estágio e não conseguimos nos suster lá.


Vyadhi = doença
styana = preguiça mental, a ineficiência, a ociosidade procrastinação, embotamento
samshaya = Samshaya indecisão, a dúvida
pramada =  descuido, negligência
alasya =  preguiça, apatia, preguiça
avirati =  Sensualidade , apego, desejo, não abster-se 
bhranti-darshana = opiniões falsas ou percepção, a confusão de filosofias (bhranti = false; darshana = pontos de vista, percepção)
alabdha-bhumikatva = falhando em atingir estágios da prática, em manter o chão ou o embasamento já obtido (alabdha = não obter; bhumikatva = passo, estágio, chão)
anavasthitatva = Instabilidade , escorregar, incapacidade de manter ou sustentar
chitta-vikshepa = distrações da mente (chitta campo = mente;  Vikshepa = distrações, diversões)
te = eles são, estas são
antarayah = obstáculos, impedimentos


É interessante ter o mapa dos obstáculos, saber que a qualquer momento eles podem se colocar diante de nós. Se os conhecemos, podemos gentilmente saudá-los e deixá-los sair, ao invés de permitir que eles montem de cavalinho nas nossas costas. Neste caso, prevenir é a melhor atitude/postura. Nem todo praticante tem de lidar com todos os 9 obstáculos e eles não aparecem necessáriamente na ordem como foram apresentados.

Estes obstáculos possuem um espectro de natureza ampla: objetiva, como a doença( é impossivel esconder que se está doente) e subjetiva, como as diferentes dúvidas, a ignorância, e portanto, não se manifestam sempre de maneira prática, mas sempre provocam consequências físicas ou comportamentais observáveis. Como consequencia destes obstáculos surgem os sintomas como depressão, ansiedade, problemas físicos e dificuldades respiratórias.


Duhkha = dor (física ou mental)
daurmanasya = tristeza, desespero, desânimo, frustração, depressão, angústia
angam-ejayatva = tremores, movimento de instabilidade, tremores dos membros ou do corpo (anga = membros ou do corpo)
shvasa = Inalação, inspiração (o que implica a inalação irregular)
prashvasah = Exalação, expiração (exalação implicando irregular)
vikshepa = distrações
sahabhuva = correlaciona-se

Em nenhum ponto do caminho do Yoga devemos supor que nos tornamos mestres, mas saber que hoje estamos um pouco mais além do que ontem, e que amanhã almejamos estar melhores que hoje. Essa oscilação de nos sentirmos ou nos colocarmos em melhor ou pior são oscilações de sentimentos que vão e vem até que alcançamos o ponto onde não há melhor nem pior.

20091003

DYS - 1.2


yogash chitta vritti nirodhah

Yoga = jungir, união
Chitta = consciência; complexo ego-mente-intelecto
Vrtti
= modificação, ondulação, modo de conduta, flutuação
Nirodhah = cessação, supressão, contenção, restrição

'Muitos tradutores repetem o significado que a leitura literal desta frase parece sugerir: 'Yoga é a supressão da vida psico-mental'. Ou, 'Yoga é o controle das funções mentais'. Ou anda, 'Yoga é a obliteração das ondulações do pensamento'. No entanto, há um abismo enorme entre estas afirmações, que surgem da tradução direta daquelas quatro palavras, e o que realmente acontece com o psiquismo no estado de Yoga.(...)

Yoga é a cessação da [identificação com] as modificações da consciência'. Trocando em miúdos, isso significa que é necessário construir uma relação diferente com a mente, o ego e a inteligência, já que a identificação com aquilo que pensamos nos tira do estado natural de harmonia.' (Pedro Kupfer, leia tudo aqui.)

Leia mais aqui no blog
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Já que segundo os neurologistas, parar de pensar é impossível, o encaminhamento produtivo se mostra ter consciência de nossas sensações, sentimentos e pensamentos, para poder lapidá-los:

20090216

Drops Yoga Sutra



Obs.: Clique na imagem para ver ampliada.

Os Yoga Sutras é um tratado dedicado exclusivamente ao Yoga, que surgiu por volta do século III a.C., atribuído à Patãnjali. É fonte de estudo e um manual de orientações valioso para quem pratica e investiga a tradição do Yoga de forma honesta e autêntica.

É composto por 195 versos ou sutras (sutra = fio, 'aforismo conciso que serve como artifício para memorizar os ensinementos sagrados'[1]) , distribuídos em 4 capítulos:

  • Samadhi Pada ou Capítulo sobre o Êxtase, com 51 aforismos;
  • Sadhana Pada ou Capítulo sobre o Caminho da Realização, com 55 aforismos;
  • Vibhuti Pada ou Capítulo sobre os Poderes, com 55 aforismos;
  • Kaivalya Pada ou Capítulo sobre a Libertação, com 34 aforismos.


  • Daqui em diante o título DropYS indica a postagem de um aforismo e o número que acompanha o título indica o sutra comentado.

    A tentativa é de que o comentário seja conciso e simples, acessível.


    [1] Feuerstein, Georg: Enciclopédia de Yoga da Pensamento

    20081124

    DYS - Samadhi Pada - Sutra 1.1


    1.1 atha yoganushasanam
    atha = agora, neste momento auspicioso; nesta transição/iniciação abençoada; com a preparação necessária para iniciar este estudo teórico e prático vultoso
    yoga = união, jungir, da raiz iuj que significa aderir ou integrar, shamadi

    anusasanam = anu + shasanam

    anu = que pertence a uma tradição; que necessita de um preparo anterior
    shasanam = instrução, disciplina ou formação baseada na transmissão oral ao longo de gerações, no vínculo vivo (= ativo, ardente, duradouro, forte, brilhante, aceso) entre professor e aluno.




    Agora, que os ruídos do mundo perderam a graça,
    toda pessoa preparada física e mentalmente
    pode compreender e experimentar a vivência
    (da tradição) do Yoga.
    Atenção,
    o Yoga acontece a cada instante
    onde se está (no) presente
    .’


    O Yoga Sutra é uma compilação dos ensinamentos do Yoga Clássico atribuída a Patanajali, onde cada Sutra condensa num pequeno número de palavras uma instrução do Yoga cujo sentido é luminoso e atemporal. É um guia para toda pessoa que tenha apreendido que a agitação do mundo exterior não tem todas as respostas nem satisfaz por inteiro, e que queira meios práticos de reduzir ou eliminar o sofrimento que surge em face do que é percebido como dificuldade em relação ao mundo e a si mesma, e que por fim, almeje realizar plenamente o potencial humano nos planos físico, psíquico, espiritual (mundo interno) incluso na esfera das relações sociais e ecológicas (mundo externo).

    A tradição afirma que a compactação do Yoga Sutra ajuda a memorização, uma vez que tradicionalmente o conhecimento do Yoga vem passando oralmente do professor ou mestre ao aluno ou discípulo. Essa forma de transmissão do conhecimento do Yoga e a dedicação de notáveis praticantes ao longo de gerações mantêm a vivacidade do Yoga. Outra forma de olhar a apresentação compacta do Yoga Sutra suscita a possibilidade da absorção do significado de cada Sutra pela meditação, onde então, seu significado intrínseco e profundo seria revelado a partir de um estado de Yoga.

    Face a esse texto compacto e estrangeiro, registrado em outra língua não usual nem mesmo no país de sua cultura de origem, para não nos apropriarmos superficialmente do Yoga, devemos fazer uso de comentários e textos de mestres, autores e estudiosos consagrados que nos auxiliem na aproximação gradual até o cerne dos conceitos envolvidos em cada palavra e assim, seguir o fio de cada Sutra. Também parece prudente um estudo anterior dos aspectos culturais ao longo do tempo e do espaço que originaram a compilação do Yoga Sutra.

    Devemos fazer essa aproximação intelectual cuidadosamente, lembrando sempre que o Yoga é uma prática fundamentada e sustentada na experiência direta, de modo que, apenas o estudo acadêmico do Yoga Sutra, como se fosse uma obra da filosofia ocidental, o tornará vazio, morto e simulacro de sabedoria. Melhor será ter o fio+guia, ou seja, o Yoga Sutra e um professor que exemplifique, auxilie e estimule os alunos de forma adequada para que estes não acabem emaranhados nos fios, e que possam inserir a prática dos ensinamentos do Yoga Sutra no contexto cotidiano.

    O primeiro aforismo do Yoga Sutra é um convite à prática constante, a tornar-se uma pessoa que busca manter um estado de ausência de distrações e que afirma a cada momento do dia:
    ‘Preste atenção, o Yoga começa agora.’


    Referências e Bibliografia Consultada

    EHLERS, Lucia. O Yoga Sutra de Patañjali: Aspectos introdutórios. Prana Yoga Journal. n.008, p.92-97. ago/2007.

    JNANESHVARA BHARATI, Swami. Yoga Sutras of Patanjali – Interpretative Translation.
    Disponível em :http://www.swamij.com/.
    Acesso em 17 março 2008.

    KNAK, Jorge Luis. O primeiro Passo. 2004.
    Disponível em: www.yoga.pro.br/artigos.php?cod=397&secao=3047.
    Acesso em 31 março 2008.

    KUPFER, Pedro. Patañjali e o Yoga Sutra. Cadernos de Yoga. n.01, p.71-75. verão/2004.

    KUPFER, Pedro. O Yoga Sutra de Patañjali: aforismos I:1 e I:2. Cadernos de Yoga. n.02, p.89-96. outono/2004.

    A meta do yoga é realizar o potencial de cada um de nós dentro do seu contexto familiar ou social, na sua época.
    http://www1.uol.com.br/vyaestelar/yoga.htm

    Escrito em Abril/2008