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20111006

Pratyahara e Dharana

Esta postagem é um capítulo da obra Raja Yoga - O Caminho Real.
Também pode ser encontrado aqui.

Negritos e caixas altas são minhas intromissões.

'A etapa seguinte é chamada pratyahara. Que é pratyahara? Sabemos como nascem as percepções. Em primeiro lugar há os instrumentos externos, depois os órgãos internos, funcionando no corpo através dos centros cerebrais, e por último, a mente. Quando todos se juntam e se ligam a algum objeto externo, então, percebemo-lo. Ao mesmo tempo, é bastante difícil concentrar a mente e ligá-la a apenas um órgão; a mente é a escrava de objetos físicos.

Costumamos ouvir: “Sede bons”, “Sede bons”, “Sede bons”, que todo o mundo ensina. Não há criança em qualquer pais que seja. que não tenha sido ensinada: “Não roubes”, “Não mintas”; mas ninguém ensina à criança como evitar o roubo ou a mentira. Falar-lhe apenas não basta. Por que não se torna ela um ladrão? Não lhe ensinamos como não roubar; simplesmente dizemos: “Não roubes”. Só quando lhe ensinarmos a controlar sua mente, realmente ajudamo-la.

Todas as ações, internas e externas, ocorrem quando a mente se liga a determinados centros, chamados órgãos. Querendo ou não, as pessoas juntam suas mentes aos centros. Essa, a razão por que cometem ações tolas e sentem-se infelizes. Porém, se tivessem a mente sob controle, não agiriam assim. Qual seria o resultado de controlar-se a mente? Seria o de evitar que ela ficasse ligada aos centros de percepção, e, naturalmente, o sentir e o querer estariam sob controle. E’ claro até aqui. Mas, isto é possível? Certamente que sim; vemo-lo praticado nos tempos atuais. Os curadores pela fé ensinam as pessoas a negarem a desgraça, a dor e o mal. Sua filosofia é um tanto vaga, porém, de uma ou outra forma, tropeçaram numa parte da yoga. Onde conseguem obter que uma pessoa se desembarace do sofrimento, negando-o, realmente utilizam uma parte de pratyahara, pois tornam a mente da pessoa, forte bastante para ignorar os sentidos. Os hipnotizadores, de maneira similar, por sua sugestão, provocam no paciente, por certo tempo uma espécie de pratyahara mórbido. A sugestão pseudo-hipnótica age somente sobre a mente fraca; e a menos que o operador, por meio de olhar fixo ou algo parecido, tenha conseguido colocar a mente do paciente numa espécie de condição mórbida, passiva, suas sugestões jamais conseguem qualquer resultado.

O controle temporário dos centros de um paciente, feito por um hipnotizador ou por um curador pela fé, é repreensível, porque conduz à ruína inevitável. Não se trata realmente de controlar os centros nervosos pelo poder do livre-arbítrio do paciente, mas sim, entorpecer-lhe a mente, por algum tempo, graças a golpes súbitos que a vontade de outrem lhe desfecha. É corno, para refrear a louca corrida de uma fogosa parelha, ao invés de utilizar as rédeas e a força muscular, pedir a outra pessoa que desfeche fortes golpes na cabeça dos animais, a fim de, tonteando-os, torná-los dóceis durante certo tempo. Em cada uma dessas atuações, a pessoa, sobre a qual se trabalha, perde parte de suas energias mentais, até que sua mente, ao invés de obter a faculdade de controle perfeito, torna- se em massa informe, impotente, e o paciente termina num asilo de loucos.

Toda tentativa de controle, não-voluntário, feita sem a vontade do indivíduo, não apenas é desastrosa mas também engana seu próprio objetivo. O fim de toda alma é a liberdade, o domínio – liberdade da escravidão da matéria e do pensamento, domínio da :natureza externa e interna. Em lugar de conduzir a esse resultado, toda corrente de vontade de outra pessoa, sob qualquer forma, controlando diretamente os órgãos ou forçando a que sejam controlados sob condições mórbidas, apenas forja mais um elo à pesada cadeia, já existente, da servidão das ações e superstições passadas. Portanto, cuidado, quando vos permitirdes a ação de outras pessoas sobre vós. Cuidado como, sem o saber, levais outras pessoas à ruína. Verdadeiramente alguns conseguem fazer o bem a muitos, por um certo tempo, dando novo caminho às suas propensões; mas levam, simultaneamente, a ruína a milhões, por sugestões inconscientes que semeiam a seu redor, despertando nos homens e mulheres aquela condição mórbida, passiva, hipnótica, que os torna, finalmente, quase despidos de alma.

Aquele que pede a outros que o creiam cegamente, ou que arrasta as pessoas atrás de si pelo poder controlador de sua vontade mais forte, ofende a Humanidade, ainda que o não pretenda. Usai, portanto, a mente, controlai corpo e mente, vós mesmos, e lembrai-vos que a menos de serdes enfermos, nenhuma vontade estranha poderá agir sobre vós. Evitai todos, grandes ou bons, que vos pedem crença cega.

Por todo mundo existiram seitas de danças, de pulos e uivos, cuja influência se espalha como infecção, conforme cantam, dançam e pregam; também elas são espécies de hipnotismo. Exercitam singular controle, durante certo tempo, sobre as pessoas sensitivas – mas por desgraça, acabam freqüentemente fazendo degenerar raças inteiras. Sim, é mais saudável para o indivíduo ou para a raça, permanecerem perversos, do que se tornarem aparentemente bons por um controle tão mórbido e esquisito. Dói-nos o coração pensar quanto mal é feito à Humanidade por tais fanáticos religiosos irresponsáveis, animados todavia de boas intenções. Não sabem que as mentes que sofrem brusca reviravolta espiritual sob suas sugestões, com música e rezas, vão simplesmente se tornando mórbidas, passivas, impotentes e vulneráveis a quaisquer outras sugestões, por piores que sejam. Mal sonham essas pessoas, ignorantes e enganadas, que enquanto se felicitam pelo poder miraculoso de transformar os corações humanos, cujo poder, pensam, foi-lhes outorgado por algum Ser acima das nuvens, estão semeando futura decadência, crime, loucura e morte. Portanto, acautelai-vos de tudo que vos despoja da liberdade. Sabei que é perigoso e evitai-o, por todos os meios possíveis.

Aquele que pôde, à vontade, ligar ou tirar sua mente dos diferentes centros, obteve êxito em pratyahara, palavra cujo significado é “acumular para o futuro”, refrear a capacidade dispersiva da mente, libertá-la do domínio dos sentidos. Quando o conseguirmos, teremos realmente formado nosso caráter, teremos feito um longo estirão na trilha da liberdade; enquanto isso, somos meras máquinas.

Quão árduo é controlar a mente! Bem foi ela comparada ao macaquinho maluco, da história. Havia um macaquinho, inquieto por sua própria natureza, como todos os macacos. Como se não bastasse isso, alguém o fez beber bastante vinho, de forma que se tornou ainda mais irrequieto. Então, um escorpião o ferrou. Quando uma pessoa é ferrada por um escorpião, salta de dor durante todo um dia, O pobre macaquinho sentiu-se absolutamente miserável. E para completar sua desgraça, um demônio o possuiu. Que palavras podem descrever a sua incontrolável inquietação? A mente humana assemelha-se ao macaquinho. Incessantemente ativa por sua própria natureza, embriaga-se com o vinho do desejo, que lhe aumenta a turbulência. Depois que o desejo apoderou-se dela, vem o ferrão do escorpião do ciúme pelo sucesso dos outros; e por fim o demônio do orgulho instala-se na mente, fazendo-a atribuir-se muita importância. Quão árduo o controle da mente!

Portanto, a primeira lição é sentar-se por um tempo e deixar vagar a mente. Ela está em efervescência durante a maior parte do tempo. Assemelha-se àquele saltitante macaquinho. Que o macaco salte quanto queira; simplesmente esperai e observai. Conhecimento é poder, diz o provérbio, e é verdadeiro. A menos que se saiba o que a mente está fazendo, não se a pode controlar. Entregai-lhe as rédeas, talvez surjam muitos terríveis pensamentos; ficareis admirados ao ver que é possível ter tais pensamentos; mas encontrareis que a cada dia que passa, as divagações da mente serão menos violentas, que gradualmente ela se vai tornando mais tranqüila. Nos primeiros meses notareis na mente uma infinidade de pensamentos; depois, que vão diminuindo e que em mais alguns meses serão bem poucos, até que, por fim, a mente estará sob perfeito controle. Mas deveis praticar pacientemente, dia a dia, Enquanto há vapor, a locomotiva corre; enquanto as coisas existem perante nós, percebemo-las. Da mesma forma uma pessoa, para provar que não é uma máquina, deve demonstrar que não está sub- missa a nenhum domínio. Controlar a mente e não permitir que ela se ligue aos centros, é pratyahara. Como consegui-lo? É um trabalho imenso; não pode ser feito num dia. Somente pelo esforço contínuo, paciente, durante anos, teremos êxito.

Depois de praticardes pratyahara por algum tempo, dai o passo seguinte, dharana, que consiste em fixar a mente em certos pontos. Que significa fixar a mente em certos pontos? Obrigá-la a sentir certas partes do corpo, com exclusão de outras. Tentai, por exemplo, sentir somente a mão. Quando chitta, ou estofo mental, está confinado e limitado a um certo local, temos dharana. Dharana é de várias espécies, e simultaneamente com sua prática, deve-se dar livre curso à imaginação. Por exemplo, levemos a mente a pensar sobre um ponto no coração, o que é muito difícil. É mais fácil imaginar que ali existe um lótus efulgente de luz. Fixai a mente sobre ele. Ou então, pensai em um lótus cheio de luz, no cérebro ou nos diferente centros, já mencionados, do Sushumna.

O yogui precisa praticar sempre. Deve tentar viver só; a companhia de diferentes espécies de pessoas distrai a mente. Não deve falar muito, porque a fala distrai a mente; não deve trabalhar muito, porque muito trabalho distrai a mente; a mente não pode ser controlada depois de um dia inteiro de trabalho árduo. Só observando essas regras podemos nos tornar yoguis.

Tão grande é o poder da yoga que mesmo uma prática muito pequena traz-nos imenso benefício. A ninguém prejudica, todos serão beneficiados. Em primeiro lugar fará diminuir o excitamento nervoso, trará paz, capacitando-nos a ver mais claramente as coisas. Temperamento e saúde se tornarão melhores. Ótima saúde será um dos primeiros sinais, assim como uma bela voz. Os defeitos da voz serão corrigidos. São estes alguns dos muitos efeitos que advirão. Os que praticarem bastante e intensamente conhecerão outros sinais. Haverá sons, como uma porção de sinos soando à distância, aproximando-se e se fazendo sentir de forma contínua ao ouvido. As vezes, ver-se-ão coisas – pequenas réstias de luz flutuando e aumentando; e quando tais coisas aparecerem, sabei que progredis, rapidamente. Aqueles que desejam ser yoguis e praticar muito, devem, no início, cuidar de sua dieta. Mas os que desejam apenas uma pequena prática para uma vida diária de negócios – que não comam muito; de outra forma, podem comer o que lhes agradar.

 Para os que desejam progredir rapidamente e praticar muito, é absolutamente indispensável uma estrita dieta. Encontrarão vantajoso viver apenas de leite e cereais, por alguns meses. À medida que a organização geral do corpo se torna mais fina, notar-se-á que a mínima irregularidade pode romper o equilíbrio. Um pedacinho de comida a mais, ou a menos, prejudicará todo o sistema, até que se obtenha perfeito controle e se possa comer o que se deseja. Quando uma pessoa começa a se concentrar, a queda de um simples alfinete soará, no cérebro, como um estrondo. Os órgãos vão se tornando mais finos e também as percepções. Estes, os estágios através dos quais temos de passar. Todos aqueles que perseveram, obtêm resultado. Abandonai toda discussão e outras distrações. O que pode haver em uma querela intelectual seca? Só tira a mente de seu equilíbrio e a prejudica. As coisas dos planos mais sutis devem ser realizadas. A mera conversa poderá consegui-lo? Abandonai toda conversa fútil. Lede somente livros escritos por pessoas que tiveram experiências espirituais.

Sede como a ostra que produz a pérola. Unia linda fábula hindu diz que, quando uma gota de chuva cai numa ostra, estando a estrela Swati no ascendente, aquela gota se torna em pérola. As ostras sabem disso; vêm então à superfície quando surge a estrela e aguardam as gotas preciosas. Quando uma gota cai dentro delas, fecham rapidamente as carapaças e mergulham, para o fundo do mar, onde pacientemente transformam a gota em pérola. Deveis ser assim. Primeiro ouvi, depois entendei, e deixando de lado toda distração, cerrai vossas mentes às influências externas e dedicai-vos a desenvolver a verdade dentro de vós. Há o perigo de desperdiçar as energias pelo fato de tomar uma idéia só pela sua novidade, abandonando-a por outra mais nova. Tomai uma coisa seriamente, segui-a, ide até o fim e enquanto não o fizerdes, não a abandoneis. Aquele que pode se tornar louco com uma idéia, verá a luz. Aqueles que apanham uma migalha aqui, outra ali, nunca chegarão a nada. Podem excitar seus nervos uni momento, mas param aí. Serão escravos nas mãos da natureza e nunca irão além dos sentidos.

Os que realmente desejam ser yoguis devem renunciar, urna vez por todas, esse mendigar de coisas. Apoderai-vos de uma idéia; fazei dela a vossa vida, pensai nela, sonhai com ela, vivei dela. Que cérebro, músculos, nervos, cada parte de vosso corpo se encha dessa idéia. Deixai de lado toda as outras. Eis o caminho do sucesso, o único que constrói gigantes espirituais. Outros são meros gramofones. Se realmente queremos ser abençoados e tornar os outros abençoados, devemos ir mais fundo.

O primeiro passo é não perturbar a mente, não nos ligarmos a pessoas cujas idéias possam nos inquietar. Todos sabeis que certas pessoas, certos lugares, certos alimentos, vos repugnam. Evitai-os; os que desejam realizar o mais elevado devem evitar companhia, boa ou má. Praticai firmes; se viveis ou morreis, tanto faz, Deveis mergulhar, e trabalhar sem almejar o resultado. Sede valentes e em seis meses vos tomareis perfeitos yoguis. Mas aqueles que tomam uni pouquinho disso e um tanto do restante, não progridem. De nada vale só o assistir a uma série de aulas. Aqueles que são cheios de tamas, ignorantes e inertes, cujas mentes jamais se fixam sobre qualquer idéia, que buscam sempre algo que os divirta, a religião e a filosofia são simples objetos de entretenimento.estes são os que não perseveram. Ouvem uma palestra, acham-na interessante, e depois vão para casa e se esquecem dela. Para obter sucesso é necessário tremenda perseverança, vontade extraordinária. “Beberei o oceano e à minha vontade as montanhas ruirão”, diz a alma perseverante. Enchei-vos dessa energia, dessa vontade. Trabalhai duro. E chegareis à meta.'

20110622

'Receita' da raiva


A coisa mais dificil que eu já presenciei é uma pessoa admitir que sente raiva.

Todo mundo sente raiva, não adianta esconder a raiva debaixo do tapete de sua sala de bem estar interior.

A raiva vai dar a volta por cima, vai surgir crescida no descompasso cardíaco, na taquicardia, no diabetes, na hipertensão, nas dores musculares, nas dores de ombro, pescoço, cabeça, nas enchaquecas, nas pedras na vesícula.
Raiva é emoção animal, e somos animais.

Mas, somos +!
Somos conscientes, e podemos aprender diferentes maneiras de lidar com a raiva, porém todas elas passam antes pelo testemunho, pela observação de que sentimos raiva.

Uma pista: onde tem mágoa, tem raiva.
A raiz da raiva é a mágoa.

A mágoa vem de nos identificarmos com o que os outros pensam, falam ou como agem conosco.
Aparecem variações da perguntinha: 'por que fulano faz assim comigo?
A mágoa é um produto do 'achismo' de 3 de nossas atividades mentais (o conhecimento incorreto,a imaginação e a memória) combinados em diferentes proporções vinculadas às omissões ou comissões das outras pessoas.

A raiva é a mágoa enterrada num buraquinho do solo do nosso coração, feito semente.
Enterramos a mágoa na expectativa de que ela nunca mais nos aborreça ou nos encontre, porém, a mágoa é a semente da raiva: enterrada no solo ela germina e brota a raiva.

.:.

Mágoa gera raiva.
Raiva gera ódio.

20110608

Afinal, que Yoga é essa? É Raja ou Hatha?


Raja Yoga é a pratica de Yoga que segue os 8 princípios do Yogas Sutras de Patañjali.

“Normalmente se acredita que o Rája Yoga e o Hatha Yoga são coisas inteiramente distintas, diferentes e opostas, que os Yoga Sútras de Pátañjali lidam com a disciplina espiritual e que o Hatha Yoga Prádipiká de Swátmáráma lida somente com a disciplina física. Não é assim, pois o Hatha Yoga e o Rája Yoga se complementam e formam uma única aproximação em direção a Libertação. Assim como um alpinista precisa de escada, corda, ganchos, preparo físico e disciplina para subir os picos gelados dos Hilamayas, o aspirante ao yoga precisa do conhecimento e disciplina do Hatha Yoga de Swátmáráma para alcançar as alturas do Rája Yoga considerados por Pátañjali.”( Iyengar, Light on Yoga).


O chamado Hatha Yoga usa como ferramenta principal para a conquista dos 8 passos do Raja Yoga proposto por Patañjali o corpo e suas funções (sentidos, mente) como meio ou o laboratório de práticas para vivenciar as experiência da coordenação dos sentidos e da mente, e através destas experiências, obter integralidade, autoconhecimento, consciência, tranquilidade. 

O corpo deixa de ser obstáculo, vilão para se tornar o precioso instrumento de  pesquisa e  de redenção.

A introdução aos 8 passos propostos no Yoga Sutras através da prática do Hatha Yoga é feita através dos aasanas, e as práticas prioritárias durante as aulas estão diretamente relacionadas com atividades corporais: aasanas , praanaayaamas e eventualmente, alguns kriyas.

Em algumas metodologias, como na aplicação do método Iyengar, execução do aasana é proposta como uma forma de meditação:
''... Normalmente a mente está mais perto do corpo e dos órgãos densos da ação e da percepção do que da alma. A medida que os asanas são refinados, automaticamente tornam-se meditativos, pois a inteligência é feita para penetrar em direção ao cerne do ser. Cada asana possui cinco funções para executar, que são: conativo (tendência consciente para atuar), cognitiva, mental, intelectual e espiritual.....''(Iyengar)


Apenas por isso é chamado de Hatha Yoga, para ficar explícito que o meio escolhido para obter os resultados tem foco no condicionamento do corpo e no descondicionamento da mente. Em absoluto significa que o único passo ensinado são as posturas, e que aprática se resume somente aos aasanas.

Por que a enfase no corpo?
Porque um corpo que dói por estar doente, ou por não ter a flexibilidade para ficar sentado ou o tônus para sustentar a coluna alinhada e alongada sem apertar ou puxar por um período de tempo costuma atrapalhar ou impedir o sucesso na hora de seguir em direção aos 4 passos 'íntimos ou internos', sugeridos por Patãnjali (Prathyahara, Dhaarana, Dhyana e Samadhi). Resumindo bem, a meditação vai para o beleléu.

Para ficar Raja seguindo o caminho proposto por Patañjali é preciso estar atento e forte (Hatha).

20110406

'Eu sou o Āsana'


Em geral, Sthira sukham âsanam(Yoga Sutra 2.46) é traduzido como "sentado confortavelmente na postura", mas, como é que Iyengar entende este sutra através do seu conhecimento e experiência, como ele (Iyengar) nos oferece a possibilidade da vivência do aspecto espiritual da prática dos āsana quando interpreta esse sutra como "a sensação no coração espiritual deve ser 'eu não estou separado do āsana, o āsana não está separado de mim, eu sou o āsana e o āsana sou eu"?

"Este 'eu sou o āsana e o āsana sou eu' é vivencíado em cada āsana, mas como posso fazer alguém senti-lo?

Isso é algo que deve estar presente na prática experimental qualitativa. Deve-se levar esse estado de atívidado para a inteligência o a consciência, mas é impossível que outra pessoa imprima essa sensação em você [...] É necessário observar e ser absorvido. Assim, tenho certeza de que responderá essas questões sozinho, em vez de ter de me escutar. (Guruji sorri e então diz de repente: 'Aqui eu tenho uma dica.' E então apanha um livro e o coloca verticalmente sobre a mesa.)

Veja: essa é a página da frente, essa é a de trás. Imagine que a página de trás é a parte posterior da panturrilha e que a página da frente é a parte anterior: as duas páginas não estão paralelas? Da mesma forma, devemos observar o comprimento e o toque do músculo de trás e sentir o contato uniforme com a pele. Então ajustamos o comprimento do músculo da frente com o osso, para que estejam em um contato equilibrado. É assim que o estudo deve serfeito. Agora vejamos a largura da panturrilha.

A sua inteligência flui na face interna da panturrilha ou na externa? Se a inteligência toca ambas, este é um posicionamento perfeito da inteligência da panturrilha com a inteligência de quem a vê. Então você está no āsana e você é o āsana. Isso é sthira sukham āsanam. Significa que você deve ajustar dessa maneira cada parte do corpo, de forma paralela às outras, e que o observador se acomodou confortavelmente em cada célula e em cada parte do corpo. (Gurují sorri.)"

O āsana como adoração
"Em um āsana perfeito, a consciência tende a se interiorizar. Ela está sob um estado centrípeto. Nesse estágio, o esforço acaba e a consciência começa a se espalhar por todo o ser, como a água se espalha igualmente sobre o chão, Esse é o estado centrífugo da consciência. No āsana, o indivíduo deve aos poucos perceber essa sensação conectando toda a superfície do corpo com o centro e vice-versa. Se o estado centrípeto é dhāranā, o estado centrífugo é dhyāna. Então devemos espalhar o estado centrípeto de forma harmoniosa por todo o corpo, transformando dhāranā, em dhyāna.

A prática dos āsana, para mim, é como uma adoração. Os santos adoram a Deus, Na minha prática, eu adoro os ãsana como uma divindade. Se alguém pode entender o que digo, então pode ir além do âmbito da moldura física com inteligência clara e consciência limpa afim de vivenciar a essência da vida."

Adaptação das páginas 126 e 127 do livro 'A Sabedoria e a Prática do Yoga', B. K. S. Iyengar.
Compare e coordene com o que disse André Van Lysebeth.

20101110

Consciência Plena



+ Isaac

Quanto mais descolocamos o interesse, o desejo, a imposição da vontade, percebemos melhor e de forma mais ampla, mais profunda, mais intensa a realidade do mundo ao nosso redor.

Quanto mais colocamos nossa intenção, desejo, vontade, mais estreitamos, mais distorcemos, mais 'colorimos' nossa percepção do mundo, dos fatos, dos atos.

Por isso é importante ir para a aula experimental e para cada prática de Hatha Yoga sem intenção de provar nada, sem desejo, sem expectativas, sem querer provar, aprovar ou reprovar; ir apenas com o corpo com seus sentidos despertos e a mente aberta e algo vazia.

Se você não consegue desligar o botão do pré-juízo e do pré-conceito, melhor deixar sua aula experimental para outro dia, pois a única realidade que você vai evidenciar e vivenciar é a que já está restrita ao limites da expectativa da sua mente.

Como descolorir os pensamentos?
Seguindo a tradição da prática do Yoga, como sugere Patañjali, nos Yoga Sutras.

20101027

DYS 1.14 - A Prática bem sucedida


1.14 sah tu dirgha kala nairantaira satkara asevitah dridha bhumih

Quando esta prática é feita por tempo adequado e considerável, sem interrupção e com devoção sincera, então a prática se torna um um alicerce firme, enraizado, estável e sólido, se torna bem sucedida.

sah = isto, esta (prática)
tu = e, mas, no entanto
dirgha = longo
kala = time
nairantaira = sem interrupção, continuamente,
satkara = devoção sincera, respeito, reverência, atitude positiva, ação correta
asevitah = perseguidos, praticada, cultivada, atendidos, feito com atenção assídua
dridha-bhumih = sólido, fundação estável, firmemente enraizada, de terra firme (dridha = empreendimento, estabelecimento ; bhumih = terra )

Sempre haverá uma tendência em iniciar a prática com entusiasmo e energia, e buscando resultados imediatos. Mas as pressões contínuas do dia-a-dia e a enorme resistência da mente humana nos incitam à sucumbir às fraquezas humanas. Tudo isso é compreensível, até a página 2, todos nós temos tendências que nos destroem, porém todos nós também possuímos a chave mestra para nos livrar das inclinações que nos aprisionam: a prática correta, constante, dedicada e sincera.

É importante tentar manter a regularidade na prática do Yoga, pois a cada ruptura somos obrigados a retomar de um ponto bem mais atrás onde estávamos, portanto é recomendado que se pratique sempre, quanto mais  perseverante e disciplinada a prática, melhor.

Devemos encarar a prática como encaramos a satisfação de nossas necessidades básicas: alimentamos nosso corpo todos os dias, vamos ao banheiro todos os dias, escovamos os dentes e nos lavamos todos os dias, dormimos todos os dias; nossa prática de Hatha Yoga também deveria ter lugar junto às atitudes que mantém e promovem nossa saúde e nosso bem estar. 

Algumas pessoas arrumam tempo para fazer fofoca, outras ocupam sua mente com pensamentos negativos ou azedam suas emoções, ou fazem tudo isso todos os dias. Se nós podemos fazer todas essas coisas todos os dias, então também podemos fazer as práticas que levam à tranquilidade a cada dia, sem exceção.

Praticando sempre, regularmente, devotadamente, um dia a pessoa pode a perceber que sua prática é uma uma parte elegante, simples, surpreendente, maravilhosa e gratificante de sua vida.

A pessoa pode perceber que a prática do Yoga  é realmente sua atividade/atitude mais valioso, e que a prática é responsável pelo sorriso sincero que esta pessoa transpira por todos os poros. 

DYS 1.13 - Prática + Desapego: como faz?


1.13 tatra sthitau yatnah abhyasa

Prática é basicamente o esforço correto, tranquilo, constante e estável, necessário para avançar em direção ao estado de Yoga, para o alcance e a manutenção deste estado.
tatra = destes dois (abhyasa e vairagya)
sthitau = estabilidade, tranquilidade estável, calma imperturbável
yatnah = esforço, o esforço persistente, sustentada luta, esforço
abhyasa = por ou com a prática, prática repetida, constância em praticar

As práticas escolhidas devem ser aprendidas corretamente, com calma e perseverança, de preferência com auxílio e orientação de um professor+praticante, que compreenda o caráter pessoal ( postural e emocional) temporário e social do aluno. Se a prática apropriada para um determinado aluno e adequada ao seu estado de saúde (física, emocional e mental) não for obtida, ou não for seguida, há poucas chances de sucesso em alcançar o estado de Yoga.

A tranquilidade necessária vem da certeza de que os resultados benéficos da prática adequada são acessíveis à todos, vem da atitude de 'perder' paulatinamente a vontade de alimentar seu lado 'ruim'. É um estado de serenidade que permanece na pessoa que pratica, não é comparável ao alívio fugaz e ilusório que a maioria das pessoas sente quando abandona os problemas para passar um final de semana ou férias longe de sua vida prosaica e que acaba quando acaba o feriado ou o período de férias, junto com o retorno da pessoa para a sua rotina.

Por vezes, obter esta tranquilidade e estabilidade exige que a pessoa tome medidas, faça um planejamento adequado da sua  agenda ou maneira de viver para garantir o espaço necessário para estes atributos se estabelecerem.

No Yoga, também não dá para fazer omelete sem quebrar os ovos, nem para mudar a rotina ou o comportamento sem alguma negociação.

20101026

DSY 1.10 - Sono sem sonhos


1.10 Abhava pratyaya alambana vritti nidra

 O sono profundo ocorre quando a mente não está em menhuma outra atividade.

abhava = ausência, não-existência, a não-ocorrência, a negação, o vazio, o nada
pratyaya = a causa, o sentimento de causalidade, ou princípio cognitivo, noção, conteúdo da mente, apresentou idéia, a cognição
alambana = apoio alambana, substrato, apoiando-se, dependentes, tendo como base ou fundação
vritti =  operações, atividades, flutuações, modificações, alterações, ou várias formas de campo da mente
nidra = sono profundo

O sono profundo é uma atividade regular e habitual da mente e há um tempo adequado destinado à esta atividade, que é natural em todos os seres vivos.

Sono bom restaura e vitaliza. Sono mau gerado pelo torpor ou pela estagnação provoca desânimo e exaustão e torna a mente muudha.

DYS - 1.12 Como chegar ao estado de Yoga


1.12 abhyasa vairagyabhyam tat nirodhah

A mente pode atingir o estado de Yoga através da prática e do desapego.

abhyasa = por ou com a prática, prática repetida

vairagyabhyam= não-apego, por ausência de desejo ou desapego, a neutralidade ou a ausência de cor, sem atração ou aversão
tat =  daqueles, que através de
nirodhah = controle, regulação, canalização, domínio, integração, coordenação, compreensão, acalmando, acalmando, anulação das



Abhyasa e vairagya são as duas  práticas irmãs, e são os meios de coordenar (nirodhah, 1,2 ) os vários níveis da mente, de forma a experimentar o verdadeiro Eu ( 1,3 ). Todas as muitas outras práticas de Yoga repousam nestes princípios.

Duas direções: Existem duas direções que se pode ir na vida, bem como as ações individuais, fala ou pensamentos. Uma direção é para a verdade, realidade, auto, ou realização espiritual.  O outro sentido é inverso, e envolve os modos de vida, ações, palavras e pensamentos que levam afastam das experiências mais elevadas.

Abhyasa (estudo ou prática constante e determinado”, Iyengar, A Árvore da vida) pode ser comparado ao motor ou ao impulso que pode nos levar ao estado de Yoga. Significa cultivar o estilo de vida, ações, palavras e pensamentos, bem como as práticas espirituais que levam na direção positiva (em vez de ir na direção oposta, criando cada vez mais paradigmas e crenças não verdadeiras).

Vairagya é a prática de, gradualmente, deixar de ir a 'mentalidade colorida'( 1,5 , 2,3 ) que se desvia da Realidade Única (a mentalidade colorida nos encaminha para a direção oposta, dando-nos a apegos e aversões).

Para ser capaz de fazer as práticas e de cultivar o não-apego, é necessário se tornar  cada vez mais hábil, mais constante e melhor a capacidade de discriminar entre as ações, fala e pensamentos que podem levar na direção correta, e aqueles que são um desvio ( 2,26-2,29 , 3,4-3,6 ). Saber discriminar, distinguir é tanto a base prática e também a ferramenta mais sutil da viagem interior.

DSY 1.11 - Memória


1.11 anubhuta vishaya asampramoshah smritih

Memória é a retenção mental de uma experiência consciente.

anubhuta = experientes
vishaya =  objetos da experiência, as impressões
asampramoshah =  não ser roubado, não sendo perdido, além de não ter
smritih = memória, lembrando-se

Cada experiência consciente deixa uma impressão no indivíduo e são armazenadas como memória. Não é possível distinguir se uma memória é verdadeira, falsa, incompleta ou imaginária.

A memória pode ter sobre as associações: a memória é algo com o qual todos estamos familiarizados. Algumas impressões armazenadas anteriormente simplesmente são despertadas no inconsciente, e depois brota na consciência, de ter perfurado o véu entre o consciente e o inconsciente. No entanto, revisitar a  memória, muitas vezes traz consigo muitas outras memórias que, depois, ficam interligadas de tal forma que a memória original não é mais percebida em sua forma pura. Em outras palavras, a memória está sendo distorcida, pois nela estão misturados com outros tipos de padrões de pensamento.

A memória que está descrita aqui é a memória pura, sem ter aliciado ou sem acrescimos de outras memórias ou da criatividade, fantasia alucinante ou da imaginação, que é outro processo mental (vikalpa) . É bastante natural que essas impressões pensamento a subir no campo da mente. Ao discriminar entre os tipos de pensamentos, podemos ver quais são apenas memórias, e quais são as memórias que foram distorcidas e efetivamente se transformou em fantasias, que são vikalpa, descrita em 1,9 sutra. A memória sem gadgets, sem acréscimos não chega a ser preocupante para a nossa paz de espírito natural, ao passo que, quando associado com todos os outros processos , leva ao processo mental problemático que pode bloquear a meditação profunda.

20101012

DSY 1.9 - Imaginação


1.9 shabda jnana anupati vastu shunyah vikalpah

A fantasia ou a imaginação (vikalpa) é um padrão de pensamento que tem expressão verbal e conhecimento, mas que não possui respaldo num objeto ou na realidade existente.

shabda = palavra , verbal, expressão sonora
jnana = pelo conhecimento, sabendo
anupati = seguintes, em seqüência, dependendo
vastu = a realidade, objeto real, objeto existente
shunyah = sem, no vazio
vikalpah = imaginação, equívoco verbal ou ilusão, fantasia, alucinação

A faculdade mentalde imaginar ou fantasiar é uma das atividades mentais mais intensas e initerruptas: uma boa parte da energia (ATP) e do tempo que nosso cérebro dispende é gasta na atividade de criar e encadear palavras e imagens, recriando um passado ou devaneiando um futuro que nem sempre tem a ver com a realidade.

Podemos criar imagens de fatos, estabelecer avaliações sobre as pessoas a partir da ausencia total de observação direta e indireta, sem nenhuma referência confiável ou verdadeira: são os pré-juízos, pré-conceitos. E da mesma forma como a compreensão incorreta pode gerar enganos 'coloridos', e por consequencia, aos resultados equivalentes.

Como a compreensão, a imaginação pode ser orientada através da prática do Yoga no sentido do melhor aproveitamento de suas potencialidades. Isto pode acontecer durante a prática de aasanas, quando usamos a imaginação para potencializar inicialmente uma sensação que não percebemos;também podemos fazer uso acertado da imaginação durante a meditação, quando estabelecemos um propósito, uma meta.

20101011

DYS 1.8 - A Compreensão Equivocada


1.8 viparyayah mithya jnanam atad rupa pratistham

O conhecimento incorreto ou errôneo (viparyaya) é o conhecimento falso formado por perceber uma coisa como sendo diferente do que ela realmente é.

viparyayah = cognição irreal , indiscriminação, cognição pervertida, conhecimento errado, equívoco, saber incorreto, não ver com clareza
mithya = do irreal, falsas, errôneas, ilusória
jnanam = saber, conhecimento
atad = não a sua própria, não que
rupa  = forma , a natureza, a aparência
pratistham = com base em, possuindo, estabelecido, ocupando, firme

A compreensão equivocada é o entendimento obtido através da percepção falha do objeto ou experiência, ou por má interpretação daquilo que é visto, observado ou estudado ou quando a fonte de pesquisa utilizada está corrompida. A compreensão incorreta pode ser tomada como correta até que condições mais favoráveis revelem a verdadeira natureza do objeto.

A compreensão equivocada é considerada uma das atividades mentais mais frequente, junto com a imaginação (DYS 1.9): o que você vê na figura abaixo?


As ilusões de ótica, o sucesso do prestidigitador, ou a graça da brincadeira do telefone sem fio* são experiências sensoriais que mostram como facilmente nossa compreensão dos fatos pode ser equivocada. Os 'achismos', dogmas e paradigmas também podem ser inseridos neste tipo de faculdade mental, já que podem nos levar ao conhecimento equivocado.

Isso se deve à nossa falta de capacidade em compreender a experiência que estamos vivenciando em toda a profundidade e em toda a extensão, muitas vezes por causa das experiências passadas e condicionamentos ou das opiniões equivocadas ( os 'achismos', a fofoca, ... ) de outras pessoas.

Lembre-se de quantas vezes você avaliou uma situação ou julgou uma pessoa, e depois descobriu que havia alguma peça ou informação que faltava, e essa nova informação fez a sua percepção mudar completamente. Por exemplo, imagine que você vê um amigo ou colega de trabalho que aparenta estar aborrecido, e cuja atitude pode parecer indelicada (negativa) para com você. Essa pessoa pode realmente estar com raiva por ter tido uma discussão com alguém, e a reação (cara feia) não teve nada a ver com você. Ou pode estar sentindo dor ou fome, e você pode ter interpretado a cara de dor ou de fome de maneira equivocada.

Ideias erradas podem causar ações coloridas (klishta): O problema com esses equívocos é que eles podem levar aos enganos 'coloridos', os chamados kleshas. Se fossem simplesmente equívocos sem cor, não haveria problema. Mas imagine o potencial dos equívocos dos relacionamentos com as pessoas, como no exemplo acima. O resultado pode ser o aumento do egoísmo, da malidicência, das atrações, das aversões e dos medos. Assim, é interessante se esforçar para que os equívocos (viparyaya) se tornem a percepção correta (pramana).

A prática do Yoga liberta, pois ajuda a reconhecer e controlar as causas da compreensão errônea.

brincadeira do telefone sem fio*
Para essa brincadeira serão necessárias, pelo menos, cinco pessoas, porém, quanto mais pessoas mais engraçado a brincadeira fica.
Sentados em linha reta ou em círculo, a primeira pessoa inventa secretamente uma palavra e fala, sem que ninguém mais ouça o que ela está falando, nos ouvidos da próxima pessoa .
Assim, o próximo fala para o próximo e assim por diante até chegar ao último.
Quando a corrente chegar ao último esse deve falar o que ouviu em voz alta.
Geralmente o resultado é desastroso e engraçado, a palavra se deforma ao passar de pessoa para pessoa e geralmente chega totalmente diferente no destino.

20101010

DYS 1.7 - A Compreensão Correta


1.7 pratyaksha anumana agamah pramanani

A compreensão correta se baseia na observação direta do objeto, na inferência e na referência a fontes confiáveis (pesquisa).

pratyaksha = percepção e cognição direta
anumana = inferência, raciocínio, dedução
agamah = autoridade, validação, testemunho provado competente
pramanani = meio válido de conhecimento, provas, fontes corretas de conhecimento correto

A tradição do Yoga preconiza que você não deve acreditar no que você ouve, mas que você deve buscar a experiência direta. Este é o significado do primeiro desses três modos de conhecimento: se dar a oportunidade de ter a sua própria experiência, construir sua sabedoria através da sua percepção sensorial a respeito do objeto em questão.

A segunda maneira de obter o conhecimento correto indicada pelos Yoga Sutras é a do raciocínio, pelo qual você pode estudar o objeto à luz de sua própria inferência ou raciocínio. Recomenda-se esta forma de obter o conhecimento correto quando a informação disponível no momento é inadequada ou incompleta para a percepção sensorial, fazendo uso de outras faculdades mentais como a lógica e a memória do bem.

A terceira maneira de obter o saber irreprensível é que você procure a validação de suas observações através de alguma autoridade respeitada ou de algum testemunho digno. Esta autoridade pode ser o conteúdo te um texto reconhecido, como o Yoga Sutras, ou alguma pessoa respeitada, que tem conhecimento em primeira mão ou respeitado. Desta forma, podemos compreender conceitos, pessoas, lugares, para além de nossas experiências diretas.
Para o praticante sincero, todos os três métodos de garimpar e burilar o conhecimento correto são igualmente importantes e válidos. O praticante sincero, ao obter um conhecimento correto por uma das vias, sempre vai investigar sua validade à luz das 2 outras maneiras de obter o conhecimento íntegro. A convergência dos três assegura o valor irrepreensível do conhecimento correto, nos ajuda a chegar mais perto do estado de Yoga, onde a compreensão ocorre de maneira diferente da que existe nos momentos fora do estado de Yoga. A compreensão no estdo de Yoga está mais próxima da verdadeira natureza do objeto. 

Muitas vezes, as pessoas têm alguma experiência e não têm compreensão do que aconteceu, nem qualquer validação. Isto pode ser frustrante e temível, e pode gerar equívocos e sofrimento. Se uma pessoa tem apenas um raciocínio lógico, mas nenhuma experiência sensorial ou de validação pela pesquisa, pode levar a mera intelectualização. Se a pessoa só tem o conhecimento por consultar as fontes de pesquisa, sem entendimento pessoal ou experiência, que pode levar à fria memorização, como pode acontecer nos estudos acadêmicos ou com uma religião fundamentalista.

Dos cinco tipos de padrões de atividades mentais, pramana ou conhecimento correto é o que deve ser cultivado. Este processo de ver com clareza, de ver as coisas como elas são, é uma das maneiras de descrever a viagem interior, e pode revelar a Realidade Absoluta, o Verdadeiro Ser imutável.

20101009

DYS 1.5 e 1.6 - As Cinco atividades da mente


1.5 vrittayah pancatayah klishta aklishta

Ha cinco padrões de atividade na mente.
Cada um deles pode ser benéfico e cada um deles pode causar problemas.

vrittayah = as atividades mentais são
pancatayah = cinco maneirasque podem assumir 2 diferentes formas
klishta =  Coloridos, dolorosos, doloridos, aflito ou que causa aflição, impuro, turvo. A raiz Klish significa a causar problemas; (klesha é a forma substantiva do adjetivo klishta)
aklishta =  incolor, não doloroso, que não causa sofrimento, puro, claro, não imbuídos kleshas

A qualidade benéfica ou problemática das atividades mentais não pode ser observada de imediato: somente a observação dos resultados com o passar do tempo vai mostrar o resultado de nossas ações.

As duas formas distintas que os padrões de atividade mental podem assumir são coloridos ( klishta ) ou sem cor ( aklishta ).
Vários pares de palavras podem ser usados para descrever klishta e aklishta, e cada um acrescenta um certo sabor, uma nova faceta para a compreensão do significado destas palavras.

klishta (colorido) - (não-colorido) aklishta
dolorosa - não doloroso
inútil - útil
aflitos - não aflitos
impura - pura
conturbado - tranquilo
negativo - positivo
vício - virtude
longe de iluminação - em direção à iluminação
aprisiona - liberta

Padrões chamados coloridos tem a ver com a ignorância, egotismo, normose, neurose, a apegos, aversões e medos , torcem a Realidade (realidade nua e crua) para esta mente que observa,  gerando equívocos e sofrimento (duhkha).
Os padrões sem cor não afetam a percepção da Realidade, vemos tudo como realmente é, de modo natural.

A simples observação de padrões de pensamentos se são coloridas ou não coloridas é uma parte muito útil do processo de purificação, o equilíbrio, estabilizar, ou acalmar a mente, para se chegar à  meditação profunda e à clareza mental. Observar o padrão de um pensamento ou emoção significa apenas registrar intimamente ,'Isto é colorido', ou 'Isto não é colorido'.  Da mesma forma, perceber se alguma decisão ou ação é útil ou inútil traz grande controle sobre seus hábitos da mente: simplesmente observe, e registre para si mesmo: 'Isto é útil', ou 'Isto é inútil'.


1.6 pramana viparyaya vikalpa nidra smritayah

As cinco atividades são: a compreensão correta, a compreensão equivocada, a imaginação, o sono profundo e a memória.

pramana = a cognição ou percepção real ou válida, o conhecimento certo, prova válida, visão clara, discriminação
viparyayah = cognição irreal ou pervertida, indiscriminação, conhecimento errado, equívoco, saber incorreto, não ver com clareza
vikalpah = imaginação, ilusão, fantasia, alucinação
nidra = sono profundo
smritayah = memória, recordação

Estas faculdades tendem a trabalhar juntas, com excessão de nidra: experimentamos uma mistura com diferentes proporções de cada uma delas a cada segundo do dia. Os efeitos de cada uma dessas combinações de atividades mentais podem ser bons ou maus, dependendo do que fazemos com cada combinação, ou do que cada combinação faz com conosco.

Ao aprender a observar o processo de pensamento, e então a discriminar entre estes cinco tipos de padrões mentais, nós começamos a ganhar o domínio sobre eles, e adquirimos a capacidade de controlar nossas ações, palavras e pensamentos. Podemos, então observar todo o fluxo da mente sem nos afetarmos, nos perturmarmos ou nos deixarmos envolver por ele, nos mantendo em paz. Estamos meditando!

Sem esse domínio, nos tornamos vítimas de nosso próprio processo mental inconsciente, perdendo a liberdade de escolha na vida exterior, assim como a habilidade de experimentar a meditação (profunda).

20101007

( DYS 1.2 ) - Nirodha?

No sutra 1.2, Patãnjali define yoga como a capacidade de permanecer em um estado mental específico, que ele denominou nirodha.

Vyasa, em seu comentário, discrimina 5 'tipos' de mente (como se fosse 5 modelos de um produto, 5 modelos de carro por exemplo, risos!), segundo o tipo e forma de coordenação da atividade mental. E nirodha é o estado mental mais harmonioso que a mente pode alcançar, segundo a concepção de Vyasa.

O nível 1 é chamado de ksipta (perturbado/obliterado): e pode ser comparado a um macaco bêbado, que pula e balança de galho em galho: pensamentos, sensações e percepções vão e vem, uma após ao outro, em sucessão vertiginosa, de tal forma que mal temos consciência deles e não é possível estabelecer nenhum fio de condução entre eles.

O nível 2 é chamado de muudha (aborrecido/desanimado): a mente se comporta como um búfalo pesado mergulhado na água que permanece no mesmo lugar por horas sem fim. 'Qualquer inclinação para observar, agir ou reagir praticamente desapareceu. Esse tipo de estado da mente pode surgir por muitas causas. Podemos nos sentir assim pesados depois de comer demais, ou como resultado de dormir de menos. Certos remédios podem causar este estado mental.' Algumas pessoas reagem assim quando se deparam com uma decepção profunda, quando não conseguem conquistar algo que era muito desejado. Este estado mental também pode aparecer em pessoas que, após muitas tentativas 'mal-sucedidas' de fazer algo na vida, desistem de tentar e não querem mais saber de nada.

O nível 3 é chamado de viksipta (distraído/disperso): Aqui há movimento mental, mas esse movimento é inconsistente e sem direção: a mente se depara com obstáculos e dúvidas, alternando entre saber o que quer e a incerteza, entre autoconfiança e insegurança.

O nível 4 é chamado de ekagrata (focado): mente relativamente clara, influenciada por poucas distrações. A mente tem direção e sentido, e pode progredir mantendo a atenção na direção e sentido da mirada. Este estado mental que exercita a habilidade de focar a atenção, é uma habilidade elementar para a meditação e o samadhi e corresponde a dhaaranaa. 'Praticando Yoga, podemos crias as condições que gradualmente conduzam a mente do nível ksipta ao de ekagrata.' ( T. K. V. Desikachar, em 'O Coração do Yoga'.)

Quando o estado de ekagrata ( coordenado é mantido constante e sem flutuações alcança-se o nível 5 chamado nirodha: a mente clara e capaz de manter pelo tempo desejado o foco designado da atenção. 'A verdadeira compreensão deste estado de espírito só vem através de práticas de meditação e contemplação, e não se trata de suprimir pensamentos, sentimentos e/ou emoções (que não é saudável!), pelo contrário, tem a ver com esse processo natural quando a mente está direcionada e torna-se progressivamente mais focada ainda conforme a meditação aprofunda. Não há repressão ou supressão dos padrões de pensamento, mas que a atenção se move para além do fluxo de impressões interiores.Nessa quietude profunda, há um controle sobre o processo da mente.É essa mestria que se entende por nirodha.' (Swamij)

Lucero: T. K. V. Desikachar, em 'O Coração do Yoga', Swamij

Segundo Desikachar, a maioria das pessoas se encontra com a mente no estágio viksipta.

Qual a utilidade de conhecer estes tipos de estados mentais?
Saber onde sua mente está agora indica como você pode chegar ao estado mental harmonioso, que (aparentemente) todos almejamos.
Ajuda a 'encontrar' a felicidade.


Swamij aconselha;
Observe e se torne (cons)ciente de seu estado ‘de espírito’(=tipo de mente) ao longo de todo  ou da maior parte do dia, do período em que se encontra ativo/acordado/com os olhos abertos: se tornr ciente, testemunha de seu estado de espírito geral.

Se questione:
* Qual dos cinco estados mentais predomina ao longo de cada dia?
O simples ato de identificar o seu estado mental típico é muito útil na evolução desse estado de espírito, e mais adiante, no progresso ao longo do caminho da meditação do Yoga.

Se sua mente está principalmente nos dois primeiros estados (ksipta ou muudha), como você pode utilizar a vasta gama de práticas de Yoga para trazer a mente ao estado viksipta e depois ao estado ekagra?
Como você pode usar outras práticas complementares ou terapias para ajudar neste processo?

Se a mente é viksipta: se sua mente está principalmente no estado viksipta, como você pode trabalhar com a concentração de suas práticas de forma mais completa para colaborar em direcionar sua mente em uma única direção e sentido, e alcançar o estado ekagra?

Se a mente é ekagra: se você é capaz de treinar a mente para estar em ekagra e, em seguida, como você pode intensificar suas práticas de modo a atingir vislumbres do domínio sobre a mente chamada nirodha?

(DYS) - O que é?

DYS => 'Divagações' sobre os Sutras organizados por Patañjali, individualizando ou separando pequenos grupos de sutras.

(DYS) => 'Divagações' sobre comentários  feitos por gente de peso sobre os Sutras organizados por Patañjali, individualizando ou separando pequenos grupos de sutras.




20080928

Ashtanga Yoga de Patanjali – As oito Partes do Yoga 'crus'

ashtau = oito
angani = fase, degraus (de escada de mão) ou raio da roda, membros, acessórios, componentes, etapas, partes, membros, constituintes.


São oito as partes ou etapas para a realização do Yoga propostas por Patanjali.

Podem ser encaradas como fases, ou degraus, onde a fase atual serve de base ou pré-requisito para a etapa seguinte, e dessa maneira praticadas em seqüência;
ou podem ser vistas como partes eqüânimes de um todo e praticadas simultaneamente.

Yama = códigos de retenção, abstinência, a auto-regulamentação
Niyama = observâncias, práticas de auto-formação
Asana = postura (a partir da raiz as=>assento)
Pranayama = expansão, regulação, coordenação da respiração e prana
Pratyahara = retirada dos indriyas (os sentidos), que se dirigem para o todo interno
Dharana = concentração
Dhyana = meditação
Samadhi = meditação em seu estado mais elevado, a absorção de meditação profunda, o estado de concentração aperfeiçoado, perfeito.

20080915

O conteúdo do Texto dos Yoga Sutras ajuda ou atrapalha?

O texto que segue abaixo é a minha prova final do primeiro semestre de Filosofia de 2008 do Curso de Formação de Professores de Iyengar do Yoga Dham.
A proposta foi de escolher 4 tópicos (assinalados no texto em itálico) entre 10 para responder uma única questão:


Patanjali traz entendimento e orientações para a prática do Yoga?

Sim.

Abhyâsa (“estudo ou prática constante e determinado”, Iyengar, A Árvore da vida) pode ser comparado ao motor ou ao impulso que pode nos levar ao estado de Yoga.

Pelo estudo e pela prática contínuos e resolutos, é possível refinar o discernimento, que é “o fio da navalha do intelecto, que separa o verdadeiro do falso, a realidade da irrealidade”, que permite fazer “comparações significativas” e desenvolver “a análise perspicaz, que leva ao entendimento correto” capaz de discriminar as informações retidas na memória (smriti), onde as experiências do passado repousam a espera de lembrança e as experiências do presente se acumulam. “No começo, é um processo de tentativa e erro. Mais tarde, aprendemos a evitar o erro.” (Iyengar, Luz na Vida, pág. 199)

Quando aprendemos a direcionar os impulsos e a evitar o erro, a memória começa a deixar de ser um entrave e passa a ser uma ferramenta para alcançar o estado de Yoga. “(O) processo de avaliar os próprios instintos, pensamentos e atos é a prática da renúncia (vayrâgya).” (Iyengar, A árvore do Yoga pág.105).

A memória no presente ou a atenção constante ou a capacidade de concentração, que também é chamada smriti é uma das qualidades que nos leva a afiar a inteligência, discernindo o conteúdo das experiências registradas pela mente (memória ‘bruta’) e modificando-a em sabedoria (memória ‘educada’), que nos ajuda a manter o conhecimento correto. (Yoga Sutra 1:20 ‘shraddha virya smriti samadhi prajna purvakah itaresham’ = [O êxtase supraconsciente] dos outros [yogins cujo caminho é o especificado no aforismo 1.18] é precedido pela fé, pela diligência, pela atenção, pelo êxtase [consciente] e pela sabedoria. Comentário de Georg Feuerstein)

Com a prática de abhyâsa e vayrâgya construímos parte do conhecimento correto (pramana) atualizado através dos resultados obtidos pelo estudo e pela prática pessoal e pela dedução; uma outra parte é obtida através do testemunho de pessoas sábias e confiáveis.

O conhecimento correto é mantido vivificado, refrescado desde que seja sempre re-examinado, experimentado, estudado e refinado e que nele não sobrem experiências supérfluas retidas. Conforme vamos filtrando e minimizando o conteúdo do intelecto fruto das experiências registradas e estimulantes da mente, nos aproximamos do estado de Yoga.


Para ser sincera, Patanjali esclarece muito.

O maior obstáculo é ter pouco entendimento do Sânscrito, condição que se pode modificar de imediato recorrendo aos comentários sobre os Yoga Sutra de pessoas confiáveis (uma das formas de pramana).

Minha impressão atual como professora de Hatha Yoga é que sou uma estudante que estuda através das percepções do meu corpo e da observação dos corpos e dos relatos de meus alunos.

Tive a felicidade de experimentar abhyâsa e vayrâgya logo no início de minha prática pessoal.

Eu tinha muita vontade de experimentar praticar e através de abhyâsa, pude construir um repertório de sensações que depois demonstrou ser pramana e que me orientou no sentido de um entendimento pacífico entre meu corpo e minha mente (chitta), que viviam em discórdia antes que eu tivesse contato com o livro ‘Luz da Yoga’, Editora Pensamento e os textos do Yoga clássico. Fui prudente em agregar os conhecimentos obtidos através da prática e do estudo, o que também é, segundo Iyengar uma forma de vayrâgya.

Pude perceber quantos comportamentos, atos e pensamentos desnecessários (smriti, como memória que tudo retém e vira fonte de estímulos que perturbem chitta, memória depósito passiva) consumiam minha energia, e abandoná-los (vayrâgya) pareceu natural. Experimentei antes de estudar nos Yoga Sutra que a prática e o desapego são os meios para acalmar os movimentos da consciência, conforme o sutra 1:12 (‘abhyasa vairagyabhyam tat nirodhah’ = A prática e o desapego são os meios para acalmar os movimentos da consciência. Comentário de Iyengar)

E como sentia bem estar profundo praticando Yoga, minha prática de asanas foi se tornando mais extensa e eu abri espaço em outros momentos do meu dia para praticar e estudar. Criei meu círculo virtuoso: quanto mais abhyâsa, menos perturbação, conforme assegura o sutra 1:14 (‘sah tu dirgha kala nairantaira satkara asevitah dridha bhumih’ = A prática longa, initerrupta e alerta é a fundação firme para a contenção das flutuações. Comentário de Iyengar).

Procuro incentivar meus alunos que pratiquem sempre que puderem, e que se observem com qualidade de atenção, e que comentem suas impressões; procuro incentivar que estudem os textos clássicos e os textos de Iyengar; procuro situar algum comentário a respeito do Yoga Sutra, de Patanjali, dos livros de Iyengar em alguma parte das aulas e dedico cerca de 1/3 de uma aula por mês para falar a respeito dos 8 estágios do Yoga que Patanjali propôs. Proponho que se observem sem julgo, e que guardem na memória apenas o que for pessoalmente consistente e que estiver no presente relacionado com os textos comentados em aula e com a prática de cada um.

É importante perceber como uma dificuldade de um deles em compreender ou realizar um âsana, por exemplo, se transforma em abhyâsa para mim, para auxiliá-los no processo de praticar; bem como é interessante ouvi-los relatar de como estão deixando de lado gestos e/ou pensamentos desnecessários, que no meu entendimento é em parte de desapego (vayrâgya) e em parte a manifestação de uma memória (smriti) mais aguçada, que está sendo ‘educada’.

Vayrâgya também envolve a possibilidade de rever pontos de vista, como Iyengar fez ao afirmar que pranayama era algo para se fazer e tempos depois, corrigiu sua observação dizendo que pranayama é algo que pode acontecer ao nos disponibilizarmos para isso.

Dessa maneira, Iyengar modificou um conceito que deixou de ser correto, atualizando-o segundo a maturidade de sua abhyâsa. Nos deu exemplo de vayrâgya, pramana e smriti (no sentido de memória seletiva-ativa-no-presente).

Acredito que não praticar ou estudar descaracteriza totalmente o que conhecemos como Yoga: o professor perde seu frescor, sua firmeza e transforma os alunos tem teóricos mofados ou em praticantes de alongamento e alinhamento ósseo, sem contar que um(a) professor(a) educa principalmente pelo seu exemplo pessoal.

A falta do cultivo do conhecimento correto tem proporcionado pessoas que praticam Yoga de modo equivocado, como o fato observável de quem confunde vayrâgya com privação, ou como quem declama os textos sagrados sem envolvimento pessoal.

Se não filtramos os conteúdos da memória ‘bruta’, se não notamos que estes conteúdos retidos sem discriminação são em parte a fonte dos estímulos que nos tornam fragmentados em muitas direções buscando satisfação após outra, como vamos coordenar, controlar as flutuações da mente?

Na minha atual compreensão, abhyâsa, vayrâgya, pramana e smriti (no sentido de estar atento, memória no presente) formam um círculo virtuoso que, se observados constantemente e utilizados com ponderação, nos conduzem ao estado de Yoga.


Referências e Bibliografia Consultada

FEUERSTEIN, George. A tradição do Yoga. 1ª Edição São Paulo: Pensamento, 2006.

IYENGAR, B. K. S. A Árvore do Yoga. São Paulo: Globo, 2001.
IYENGAR, B. K. S. Luz na vida. São Paulo: Summus, 2007.

IYENGAR, B. K. S. Luz nos Yoga Sutras de Patanjali. Apostila cedida pela profª Che.

JNANESHVARA BHARATI, Swami.
Disponível em :.
Acesso em 09 de junho 2008.

KUPFER, Pedro. O Yoga Sutra de Patanjali: aforismos I:7. Cadernos de Yoga. n.05, p.91-93. verão/2005.

KUPFER, Pedro. O Yoga Sutra de Patanjali: aforismos I:10 e I:11. Cadernos de Yoga. n.08, p.71-75. primavera/2006.

KUPFER, Pedro. O Yoga Sutra de Patanjali: aforismos I:12 a I:14. Cadernos de Yoga. n.09, p.62-70. verão/2006.

KUPFER, Pedro. O Yoga Sutra de Patanjali: aforismos I:15 e I:16. Cadernos de Yoga. n.10, p.72-77. outono/2006.

KUPFER, Pedro. O Yoga Sutra de Patanjali: aforismos I:19 e I:20. Cadernos de Yoga. n.14, p.58-63. outono/2007.